Educação ambiental para além da escola

Rua 12, em frente ao condomínio 153. Foto de 06/11/2020.

Artigo de opinião originalmente publicado em Conversa Informal, jornal comunitário do Setor Habitacional Vicente Pires, Região Administrativa XXX do Distrito Federal. Ano 18, n. 01/2021. Disponível em: <https://jornalconversainformal.blogspot.com/2021/01/jornal-conversa-informal-de-janeiro-de.html>. Acesso em: 04 dez. 2021.

Escolhi o tema desse texto em 06/11/2020 ao fotografar obras do GDF na rua 12. Era uma escavação com um cinturão de lixo a partir de 3 metros da superfície, confirmando o que é um dos impeditivos para a regularização de Vicente Pires: um lixão subterrâneo! Deixemos a questão fundiária para textos do Gilberto Camargos e Geraldo Oliveira para entender o seguinte: meio ambiente não é só flora e fauna. Formar essa concepção não é tarefa fácil, pois até hoje meio ambiente é visto como sinônimo de natureza. Abordar aspectos da educação ambiental no cotidiano de crianças e jovens têm efeito formador maior do que apenas mostrar Cascão e Cebolinha jogando lixo no chão.

O lixo não some do planeta quando os garis o recolhem da frente de nossos condomínios. Por décadas o lixo do DF era despejado em Vicente Pires: poluição do solo e da água. Hoje somos uma região administrativa e os locais em que materiais descartados eram aterrados deram lugar à casas e prédios com quitinetes. Estes prédios são um problema ambiental para um bairro com saneamento básico e largura das vias públicas despreparados para tamanha pressão demográfica.

Um destes prédios fica num condomínio com um morador que todo fim de semana faz festas com som automotivo, sendo que algumas frequências têm tanta potência que além de importunar pelo barulho fazem disparar o alarme de automóveis no local: poluição sonora! Uma solução seria chamar a polícia, amarrar o cidadão e colocar um fone de ouvido com Cauby Peixoto tocando 10 horas seguidas no volume máximo, mas o problema de base é até clichê: falta de educação (ambiental).

Perto dali há uma loja de informática que descarta chumbo, bário, mercúrio, níquel, manganês e outros metais pesados presentes em eletrônicos no lixo comum. Em tempo: nosso bairro não tem ponto de coleta adequado para esses materiais.

Esta loja de informática fica perto da saída do pistão norte com a Estrutural em que dia desses houve uma colisão de carros causada pela falta de visibilidade por causa de faixas na rotatória: poluição visual. É o mesmo tipo de poluição causada por uma estrutura de madeira próxima à Feira do Produtor e que há mais de um ano prejudica o trânsito no local.

A Feira do Produtor não tem política de coleta seletiva ou reaproveitamento de alimentos para doação à entidades da sociedade civil como instituições de longa permanência, por exemplo. Cada comerciante deve agir por si enquanto as administrações da Feira e da cidade se limitam a cobrar aluguéis e lavar banheiros. Em 2006, ainda discente de graduação da UnB, apresentei à administração da Feira uma proposta de atividades culturais no local que atraísse moradores e permitisse que se conhecessem. Não se interessaram pelo projeto e a Feira do Produtor continua má administrada, sem comunicação institucional ou atrativos que a façam um espaço de encontro dos moradores como em qualquer lugar do mundo. Em outras palavras: um meio ambiente sem diálogo.

Portanto, o meio ambiente não é somente o pantanal ou amazônia pegando fogo. Alterações no meio ambiente mais próximo de nós, como o de nosso bairro, também têm consequências. É papel da escola, mas também da família e da sociedade apontar para si e para as futuras gerações que a educação ambiental se faz nas ações cotidianas: relacionamento com vizinhos, igreja, trabalho, faculdade, escola e o que fazemos diante do material que consumimos. Uma criança do século XX descartava muito menos plástico, papel, vidro e metal do que uma criança do século XXI. O consumismo desenfreado e o direito à cidade no modo de produção capitalista devem ser eixos do debate da educação ambiental na atualidade. Não se trata de proibir atividades comerciais ou festas e sim regulamentá-las para que as regras sejam fiscalizadas por sociedade civil e GDF. Temos um plano de desenvolvimento sustentável para a cidade construído coletivamente por governo e sociedade civil? As escolas de Vicente Pires trabalham com o conceito mais amplo de meio ambiente? São perguntas da educação ambiental que norteiam qual futuro queremos não somente para nós, mas para os que ainda não nasceram. Se optarmos por ignorar essas questões como fizeram as pessoas há 50 anos, o lixo no subsolo, o vizinho barulhento e as faixas na rotatória continuarão a existir, só que com menos possibilidades de remanejamento do problema da frente de nossos olhos. Vicente Pires, local de descarte na década de 1970, tinha menos problemas ambientais naquela época do que tem agora. Trouxemos progresso ou regresso à região? Pensemos nisso!

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Consciência humana e consciência negra

Pode ser uma ilustração de uma ou mais pessoas e texto
Charge: Thyagão – Diário do Nordeste

Artigo de opinião originalmente publicado em Conversa Informal, jornal comunitário da Região Administrativa XXX (Setor Habitacional Vicente Pires) do Distrito Federal, Ano 17, n. 12/2020. Disponível em: <https://jornalconversainformal.blogspot.com/2020/12/jornal-conversa-informal-de-dezenbro.html>. Acesso em: 04 dez. 2021.

É comum que alguns fantasmas “ressuscitem” sempre quando se fala em consciência negra no Brasil: “todas vidas importam”, “100% branco”, o vídeo do Morgan Freeman de 2012 dizendo para pararmos de falar em racismo, a ideia de que somos todos miscigenados e até a de que não existe racismo no Brasil. O ano de 2020 parece ter inovado ou ao menos ter mostrado de forma mais presente a expressão “consciência humana” para sufocar a expressão “consciência negra”. Analisar quais argumentos são válidos é uma questão histórica, mas também filosófica.

Dentro da filosofia temos dois tipos de lógica: formal e dialética. Para pessoas que desconhecem a lógica dialética, fica fácil concordar com argumentos vindos da lógica formal. Por exemplo: se existe camisa “100% negro” também pode ter camisa “100% branco”. Claro, pensa o ignorante – sem ofensas, mas ignorante é quem ignora/desconhece o assunto –, pois podemos ter orgulho da própria pele e isso não é racismo. Se digo “vidas negras importam” e tu dizes “todas as vidas importam”, o ignorante aceita a segunda versão por achá-la inclusiva, pois considera, em teoria, vidas negras e outras vidas. É uma cilada de retórica cartesiana perfeitamente refutável.

Na lógica dialética vê-se o problema em sua ontologia, totalidade, histórica e filosófica. Não é uma questão de incluir uma categoria em outra que se julga maior. Veja só: povos brancos já foram escravizados em algum lugar no mundo? Por certo que sim! Agora atenção na segunda pergunta: povos brancos já foram escravizados por serem brancos? A resposta é taxativa: não! Uma Bula Papal do século XV escrita por Nicolau V e endereçada ao rei português permitia a escravidão de negros por não terem alma. Já os povos indígenas não foram escravizados, uma vez que estavam aqui e não geravam o lucro do comércio escravocrata no oceano Atlântico. E assim foi por 388 anos no Brasil, último país americano a abolir a escravidão e que até hoje não inseriu o negro como sujeito de direitos.

Caso ache que é exagero, experimente pesquisar no Google Imagens os termos “turma de medicina” e “garis”. Outra pesquisa: “clube de golfe” e “presídios”. Aqui a lógica formal já não se sustenta, pois só vai achar que negro gosta de presídio ou não quer ser médico quem compactua com o fascismo. Continuo: logo em seu início, o vestibular de engenharia civil da UnB não teve cotistas negros inscritos. Será que o negro se vê como pedreiro e não como engenheiro? Felizmente a realidade mudou e após políticas de acesso (cotas) e permanência (moradia, alimentação, bolsas, vale livro), cotistas mostraram ter notas iguais ou superiores a alunos do sistema universal.

Na política vemos essas mudanças nas eleições municipais de 2020. Curitiba terá a primeira vereadora negra após 300 anos – e já foi ameaçada de morte. Se negros são metade da população brasileira, por que são 75% dos assassinados ou 80% dos resgatados em regimes de trabalho análogos à escravidão em 2018? Por que ganham menos pelos mesmos trabalhos e têm menor escolaridade? Por que mulheres negras não recebem anestesia em partos na rede pública e ainda ouvem “que aguentam mais a dor”, como denunciado à OMS? Outro exercício: pegue revistas populares em sua casa (Época, Isto É, Veja, Marie Claire, Jequiti) e veja como negros são representados, quando são. Sempre fiz este trabalho quando lecionei no Ensino Fundamental e os estudantes de 10 anos ficavam perplexos por não se encontrarem nas revistas. Se isso não é racismo, o que é então? Em resumo, quando se tenta esconder a luta do povo negro em termos em que a lógica formal caracteriza como inclusivos, é dever da lógica dialética apresentar esta armadilha e denunciar que esta é mais uma forma de racismo. Absolutamente tudo o que a população negra conquistou no país não é fruto de uma canetada, como a princesa Isabel assinando a abolição na novela Escrava Isaura. Quando uma pessoa se diz “100% negra” é esta luta que ela traz, o orgulho de enfrentar vários problemas que brancos não passaram. Qual a luta dos brancos por serem brancos? Nenhuma! Quando se fala em consciência negra o objetivo é mostrar que são excluídos. Portanto, não se deve permitir que a luta dos negros seja tratorada por engodos racistas que têm como horizonte o abafamento das conquistas desta população às custas dos desavisados e dos que agem de má fé ao optar pela expressão “consciência humana”. Quer ver como é racismo? Defina o que é consciência humana ou diga qual autor fala disso. Tá vendo como sua intenção foi somente encobrir a expressão consciência negra?

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Empresários, invistam em brinquedotecas

Brincadeiras indicadas para cada faixa etária - MedKids
Imagem: Clínica Med Kids

Artigo de opinião originalmente publicado em Conversa Informal, jornal comunitário da Região Administrativa XXX (Setor Habitacional Vicente Pires) do Distrito Federal. Ano 18, n. 12/2021, Dezembro de 2021, página 07. Disponível em: <https://jornalconversainformal.blogspot.com/2021/12/conversa-informal-de-dezembro-21.html>. Acesso em: 03 dez. 2021.

Ser empresário é otimizar constantemente o negócio. Vejamos algumas destas tarefas: a) ajustar preço da mercadoria/serviço para lucrar no capital de giro, à exceção de marcas consolidadas que podem cobrar mais caro; b) ampliar frente de capital, disponibilizando aos clientes produtos diversos na mesma localidade; c) manter um ambiente limpo, bem iluminado e com bom atendimento; d) remunerar bem os funcionários e capacitá-los periodicamente; e) compreender que o pós-venda é tão importante quanto a aquisição do produto.

Todas estas ações estão direta ou indiretamente ligadas a fidelização do cliente que passa a enxergar em determinada marca vantagens que extrapolam o desejo de obter determinado bem. Afinal, quem nunca deixou de comprar um objeto mais barato porque foi destratado pelo vendedor ou saiu de um restaurante quando percebeu que a cozinha estava suja? Empreender, portanto, é pensar não só no que se vende, mas como e para que se vende.

Contudo, há um tipo especial de cliente que sempre existiu e que somente no final do século XX passou a ter atenção significativa dos empresários: os pais! Quem tem filhos sabe a dificuldade que é encontrar com amigos para conversar num bar ou escolher o novo piso da cozinha enquanto é agarrado pela calça numa briga de irmãos. É verdade que o celular amenizou um pouco essa angústia, mas de outro lado deixou as crianças ainda mais dependente de eletrônicos. Foi aí que comerciantes enxergaram algumas características no perfil de clientes com filhos: têm mais idade, estabilidade financeira, exigentes e por razões óbvias menos tempo para comprar.

Quem frequenta restaurantes no Plano Piloto sabe que é comum que na parte de trás do comércio, virada para os blocos residenciais, comerciantes se juntem para construir parquinhos. Note que não é o parque da quadra e sim algo menor e próximo ao comércio, de modo que pais possam se divertir observando os filhos. Com o advento de restaurantes mais estruturados em shoppings ou áreas de condomínios horizontais (Vicente Pires) ou verticais (Águas Claras), a criação de brinquedotecas era apenas questão de tempo. Se antes ir com uma criança à um bar era visto como motivo para denúncia ao conselho tutelar, hoje as brinquedotecas oferecem segurança e diversão. E não adianta falar que bar não é local para crianças: as brinquedotecas são locais de socialização e as bebidas alcoólicas continuam proibidas para menores de 18 anos! Portanto, sem moralismos com pais que querem sair para confraternizar e não abrem mão de ter os filhos por perto.

E não são somente bares que devem investir em brinquedotecas. Imagine um casal que sai num sábado de manhã para fazer orçamento de uma reforma e vai precisar de tempo para escolher o papel de parede do quarto? Pois bem, é a brinquedoteca que vai permitir com que o atendimento seja feito da forma tranquila e os pais tenham a certeza de que os filhos estão confortáveis.

Outros comércios que aderiram às brinquedotecas foram as faculdades. A Universidade de Brasília é pioneira no Distrito Federal e em 2018 abriu um espaço de acolhimento para crianças enquanto os pais estão estudando. Imaginem se as instituições particulares disponibilizassem uma sala para o mesmo fim? Seria um convite para a matrícula de pais que não estudam por não terem com quem deixar os filhos, tudo isso com um investimento pífio. Fica a dica do benchmarking com responsabilidade social que vai além de colocar pessoas negras no outdoor dizendo “venha estudar conosco”, até porque são as que mais se beneficiariam com o espaço.

É claro que o tamanho da brinquedoteca depende do número de clientes que frequenta o ambiente simultaneamente, bem como do tempo que permanecem no local. Sendo assim, é comum que o espaço destinado à uma brinquedoteca em uma grande loja de material de construção ou sorveteria seja menor do que o de restaurantes ou faculdades. Não tem problema: ambas cumprem a mesma função.

Portanto, nem sempre precisa ser uma brinquedoteca enorme ou mesmo uma brinquedoteca. A sorveteria que coloca uma cama elástica ganha clientes que encontram uma forma de se refrescar e ver os filhos felizes. A oficina com uma TV com assinatura de streaming fideliza a mãe que foi fazer a revisão do carro e o filho fã de galinha pintadinha. A loja de roupa com uma mesa e desenhos para colorir garante que além da camisa o pai possa ter tempo de experimentar uma calça e levar as duas peças enquanto a filha pinta o sete.

 Outra questão que agrega valor ao estabelecimento é ter banheiro família, com vasos sanitários e pias adaptados à altura das crianças, além de um fraldário. Assim, dependendo do espaço do comércio, haverá o banheiro de crianças adaptado no banheiro dos adultos ou o banheiro família, separado do banheiro dos adultos.

Essas medidas criam um ambiente que não afasta os atuais clientes, mas atrai aqueles que estavam em casa pensando com qual parente iriam deixar o filho para “dar uma passadinha pra comprar tal coisa” ou ficar a tarde jogando conversa fora e sendo os verdadeiros geradores de emprego e renda.

E você, já pensou em qual local vai fazer a brinquedoteca de sua empresa?

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Por que devemos ter noções de arquivologia

Imagem: Arquivo Nacional

Artigo de opinião originalmente publicado em Conversa Informal, jornal comunitário da Região Administrativa XXX (Setor Habitacional Vicente Pires) do Distrito Federal. Ano 18, n. 03/2021, Março de 2021. Disponível em: <https://jornalconversainformal.blogspot.com/2021/03/jornal-conversa-informal-de-marco-21.html>. Acesso em: 03 dez. 2021.

Uma das lembranças mais remotas que tenho da primeira infância é acompanhar minha irmã em seu trabalho na década de 1980. Ela entrou para a Polícia Federal e trabalhava como papiloscopista no final da Asa Sul. Lembro bem de girar manivelas e mover estantes enormes com milhares de pastas com documentos que integravam arquivos dos maiores criminosos do país. Para empresas e serviço público, da padaria ao Senado Federal, arquivar é sempre um processo constante e que acompanha a humanidade desde a invenção da escrita.

Ao longo do tempo essa ciência ganhou mais importância. Dos copistas da Idade Média à produção de livros em escala industrial com a invenção da imprensa por Johann Gutemberg (sec. XV), chegamos ao século XX sob um volume documental jamais visto. E não é só papel: áudios, vídeos, fotos e outras formas de registros passaram a ser comuns em arquivos institucionais ou pessoais.

No século XXI, com a massificação da internet, computadores e smartphones, a arquivologia não enquanto ciência mas testada como senso comum passa a ser parte da rotina. Não é exagero dizer que no presente temos mais fotos digitais do que álbuns com fotos impressas. Os comprovantes de pagamento ficam salvos no computador ou, para serem acessados de qualquer lugar, são armazenados em nuvem no aplicativo do banco ou enviados por e-mail. O vídeo do filho aprendendo a andar está numa pasta no celular e é compartilhado em segundos em grupos de Whats App. Ah, sim: o Whats App também tem opção de arquivar mensagens ou você pode criar uma conversa com seu próprio número e utilizar como um arquivo mais fácil de acessar.

Sei que arquivistas vão me odiar por escrever isso, mas vamos lá: os exemplos do parágrafo anterior são de como o senso comum utiliza a arquivologia, ainda que de forma rudimentar. A tentativa de organizar documentos foi o que motivou o nascimento da arquivologia e é claro que não podemos reduzir a ciência aos inúmeros arquivamentos que fazemos diariamente. Portanto, quase sempre, se bem nomeado é bem mais fácil encontrar um documento digital do que impresso.

Achar um documento ficou mais fácil devido às tags, termo que em inglês quer dizer etiqueta. Qualquer palavra escrita no Twitter, Facebook, Instagram ou no blog é uma tag e pode ser pesquisada a partir de um buscador como Google. Em caráter mais reservado, e-mail e Whats App também operam dessa forma. O uso de ferramentas como o CTRL + F encontra facilmente um termo no Diário Oficial do DF ou numa página da internet sem que precise ler todo o conteúdo. Fora da Web, o nome de um arquivo no computador também é uma tag e pode ser encontrado mesmo off line. Facilidades do mundo digital.

Quando comecei a trabalhar na UnB em 2004 existia o UnBDoc. O sistema trazia metadados para identificar o processo, como interessado e assunto. A unidade geradora e número do processo, gerados automaticamente, permitiam acompanhar somente a tramitação. Toda unidade que recebia o processo físico tinha que entrar no sistema e clicar em “acusar recebimento” para indicar em qual local o processo estava. Hoje em dia a coisa evoluiu: a PGR utiliza o sistema Único. O GDF já utilizou o SICOOP (Sistema Integrado de Controle de Processos) e agora opera com o SEI (Sistema Eletrônico de Informações). Para além de tramitação os sistemas atuais permitem que toda documentação seja incluída no processo, incluindo imagens e vídeos. Não existe mais carro que sai determinado dia da semana com malote. Mais que isso: assim como a foto de aniversário compartilhada pelo celular, o processo pode seguir simultaneamente para diversos órgãos, otimizando o serviço.

O problema é que os cursos de noções de arquivologia atuais aplicados ao mundo do trabalho continuam presos à década de 1980. Naquela época fazia todo o sentido uma tabela de temporalidade, mas no século XXI as estantes móveis que eu me esforçava para movimentar na Polícia Federal cabem num pen drive de 8Gb na palma da mão – com a vantagem da pesquisa por tags! Enquanto o senso comum deu o seu jeito para aprender a armazenar conteúdo em celulares e notebooks, ainda não temos um padrão para lidar com arquivamento institucional de documentação digital e digitalizada.

Esse é um bom desafio para os arquivistas. Não sei até que ponto cursos de graduação em arquivologia estudam o arquivamento digital, mas seria ótimo que conversassem sobre parâmetros para essa tarefa. A dificuldade maior certamente é que cada sistema de gerenciamento de informação tem uma lógica própria de funcionamento, mas não tardará para que esses sistemas comecem a conversar entre si. E que o know how do arquivamento digital diário das pessoas em várias plataformas em algum momento converse com o arquivamento institucional dos setores público e privado. Em suma: senso comum e ciência não são inimigos.

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Bolsonaro está doido para entregar o poder!

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Charge: Aroeira, 2020.

No dia 24/11/2021, em rápida conversa com a imprensa – que assim como chefes de Estado não gozam do mesmo tempo e atenção que o presidente tem com quem frequenta o cercadinho do Palácio da Alvorada -, informou que não vê a hora de deixar a presidência.

Clique aqui para ver a declaração de Bolsonaro em vídeo do grupo Poder 360.

Certamente Bolsonaro por vezes esqueceu as inúmeras declarações que já deu zombando de adversários políticos e dizendo que só sairia do Palácio do Planalto em 31/12/2026. Misteriosamente o presidente parou com essas declarações tão logo Lula foi solto e passou a ter o direito de concorrer à presidência em 2022. Simples coincidência, claro.

Mas ainda que não tivesse dado os costumeiros e grosseiros exemplos de soberba, é evidente que Bolsonaro lamenta diariamente a volta de Lula ao jogo político, atrapalhando seus plano de continuar por mais 4 anos abusando do cartão corporativo e colocando em sigilo qualquer possibilidade de investigação de seu governo.

Ora, não é novidade nem para um adolescente que vai votar pela primeira vez em 2022 que Bolsonaro parasitou a Câmara dos Deputados por 28 anos, tendo somente 2 projetos aprovados. Porém, foi como presidente que se lambuzou (literalmente) com leite condensado comprado com suspeita de faturamento e motociatas que não trouxeram um centavo de investimento no país, mas já custaram mais de 3 milhões de reais aos cofres públicos.

Perguntar não ofende: é esse o cara que tá doido pra entregar o poder?

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Paródia – URP da UnB

UnB (@unb_oficial) / Twitter
Fonte: twitter @unb_oficial

Cantor: Circo do Lacre

Paródia baseada na música “Geni e o Zepelim”, de Chico Buarque

Autor: ayanunb@gmail.com

Data: 15/03/2010

Áudio disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=KQn7UxB3HJQ

.

O professor recebe pouco

Isso é no mundo todo

Mas aqui é uma piada

Condições são humilhantes

Pra atender aos estudantes

E o MPOG ainda acha graça

.

Desde que instituída

Nossa URP é garantida

Pela greve, pelos atos

Por isso nunca perdemos

E assim nós defendemos

Pros antigos e novatos

.

Já gastou nossa saúde

Todo ano é o mesmo grude

Nos cartazes, bem ali

Greve na universidade

Assembléia pela tarde

Venham todos discutir

.

Joga terra na URP

Joga terra na URP

Governo quer retirar

UnB quer incluir

O MPOG é só um

Vamos resistir

.

Mas docentes, estudantes,

Funcionários, militantes,

Não aceitam esse fim

Certamente é difícil

Não ter aula nesse início

Mas não penso só em mim

.

Aula greve na Esplanada

Debates na calourada

Todos juntos nessa ideia

E nós vamos adiante

Com duas cores no semblante:

Uma verde e a outra amarela

.

Levantei meu estandarte

E saí por toda parte

Divulgando o que há de vir

Em vez de ficar na cama

Despertou em mim a gana

A vontade de emergir

.

Querem tirar a URP

Mas tirando a URP

O que nós vamos ganhar

Não vai dar nem pra fingir

O MPOG é só um

Vamos resistir

.

Nossa URP é nossa sela

Se tirarem escorrega

Nós caímos, por inteiro

Mas para ser rigoroso

Ser honesto o verso todo

Digo 26 por cento

.

O MPOG de balela

Diz que paga parte dela

Só para docente antigo

Mas esquece de outro norte

Funcionários que socorrem

Dessa vez, são atingidos

.

E assim à revelia

Do MPOG e companhia

A UnB, decide então:

Não converso nesses termos

Vou cruzar braços e dedos

E cobrar a ingratidão

.

Devolve nossa URP

Devolve nossa URP

Tribunal mandou pagar

Cumpre a ordem logo aí

O MPOG é só um

Vamos resistir

.

Foram tantos esses gritos

Pelos pobres, pelos ricos,

Alcançando até o átrio

Povo não foi vacilante

E juntou-se ao restante

Do protesto no gramado

.

E o Ministro assim chega

Outro papo põe na mesa

Para ser apreciado

E nessa história quem diria

A ADUnB e Reitoria

Estão juntas, lado a lado

.

Foi num ato convocado

Movimento unificado

Conseguiu enfim sorrir

E se digo que alguém ria

O refrão mudou a rima

E agora fica assim

.

Conseguimos a URP

Conseguimos a URP

Ninguém vai mais nos tirar

Meu salário é esse aqui

E não tem corte nenhum

Me dá minha URP

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Paródia – Simone de Beauvoir

Simone de Beauvoir e a teoria política – Blog da Boitempo
Simone de Beauvoir em retrato de Henri Cartier Bresson. Magnum, Paris, 1945.

Bora, se livra

João Bobo e Pinico

Autor: Rafael Ayan

Paródia baseada na música “Chora, me liga”, de João Bosco e Vinícius e apresentada em trabalho acadêmico da graduação em Serviço Social pela Universidade de Brasília em 08/12/2010 (com modificações).

Música: https://www.youtube.com/watch?v=tqSr19HNPlM

Data: 07/12/2010

Agora vamos estudar

A Simone de Beauvoir

Eu libertei, meu bem me libertei

.

A liberdade é Estética sim

Sexual e Artística para mim

Eu libertei, meu bem me libertei

.

Nosso caminho é assim

Rumo à libertação

Considerando a parte econômica

E a fragilidade então

.

E todos vamos lembrar

Que na filosofia

Não é só mulher que sente dor

Tampouco vê no homem um guia

.

Bora, se livra, agora

Mulher não é jogo

Se tu apanhas do ogro

Tem que denunciar            REFRÃO

Bora, se livra, agora

Que o tempo passou

Se não melhorou

Se emancipe com Simone de Beauvoir

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Paródia – educação sexual

Educação Sexual e Abstinência | Apoio Psiquê
Fonte da imagem: Apoio Psique

Paródia baseada na música Voa Beija-Flor da dupla sertaneja Jorge & Mateus

Disponível em:  https://www.youtube.com/watch?v=EiIjd3sV5vc

Autor: Rafael Ayan –  ayanrafael@gmail.com

Data de criação: 30/06/2011

Clique aqui para baixar arquivo em PDF da paródia

.

Usa por favor

Cobra & Teteu

.

Você já sabe o que é DST, pois se liga então

Não vá dar mole por aí, sem encapar o seu violão

A AIDS não tem cara ou cor, e se tem eu nunca vi

Por isso faça o favor, segurança ao se divertir

.

Eu sei que a pessoa pode parecer um pitel

Não deixe sua juventude ir parar no beleléu

Se sente dor ao urinar ou tem corrimento aí

Procure o posto de saúde que ela vai sumir

.

(REFRÃO)

Usa por favor, está ao seu dispor e o casal merece

Não brinque com a vida, deixe seu amor muito mais alegre

Usa por favor, sexo com segurança é só riso e espanta a dor

Respeitar é não passar doença pra quem chama de amor

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Xuxa estranha Xuxa

Xuxa pede desculpas após sugerir que presos sejam usados para testes de  remédios - Diário do Rio Doce
Foto: Diário do Rio Doce

Um dia antes de completar 58 anos a apresentadora Xuxa apareceu mais pelo ímpeto intolerante do que pela comemoração do aniversário. Numa live da Assembleia Estadual do Rio de Janeiro (Alerj) que tinha como objetivo debater direitos dos animais, Xuxa afirmou ser favorável a presos serem cobaias em testes de cosméticos e remédios visando “servirem para alguma coisa antes de morrer”. É bom destacar que o erro primário foi da Alerj que convidou uma pessoa sem acúmulo algum para debater o tema. Seria como chamar Bolsonaro para falar sobre democracia e não esperar que ele defenda o AI-5. Analisemos três aspectos do ocorrido: história de Xuxa e proteção à infância, eugenia no século XX e desdobramentos do discurso de ódio na sociedade brasileira atual.

Direitos de crianças e adolescentes no século XX

No filme “Amor estranho amor” (1982) Xuxa contracenou com um adolescente de 12 anos. Há quem diga que as cenas de sexo eram normais para a época, ou que ainda não existia o Estatuto da Criança e do Adolescente (1990), mas tudo isso não passa de fúnebre retórica para justificar a produção de um filme com ato claro de pedofilia. O Código de Menores de 1927, também conhecido como Código Mello Matos (Decreto 17.943-A), portanto assinado 36 anos antes do nascimento da rainha dos baixinhos, afirmava que:

Art. 143. Permittir que menor de 18 annos, sujeito a seu poder ou confiado a sua guarda ou a seu cuidado:

(…)

b) frequente casas do espectaculos pornographicos, onde se representam ou apresentam scenas que podem ferir o pudor ou a moralidade do menor, ou provocar os seus instinctos máos ou doentios;

c) frequente ou resida, sob pretexto serio, em casa de prostituta ou de tolerancia.

Pena de prisão cellular de quinze dias a dous mezes, ou multa de 20$ a 200$000, ou ambas.

Paragrapho unico. Si o menor vier a soffrer algum attentado sexual, ou se prostituir, a pena póde ser elevada ao dobro ou ao triplo, conforme o responsavel pelo menor tiver contribuido para a frequencia illicita deliberadamente ou por negligencia grave e continuada.

Art. 144. Fornecer de qualquer modo escriptos, imagens, desenhos ou objectos obsceno a menor de 18 annos. Penas de prisão cellular por oito a trinta dias; multa ds 10$ a 500$000; apprehensão e destruição dos escriptos, imagens, desenhos ou objectos obscenos.

Ora, é evidente que para um filme de 1982 havia ao menos 65 anos de legislação de proteção à infância que não permitiam, em foro íntimo e muito menos em filme, o que ocorreu em “Amor estranho amor”. Adiante, o Código de Menores de 1979 não é menos taxativo:

Subseção I

Dos Espetáculos Teatrais, Cinematográficos, Circenses, Radiofônicos e de Televisão

(…)

Art. 51. Nenhum menor de dezoito anos, sem prévia autorização da autoridade judiciária, poderá participar de espetáculo público e seus ensaios, bem como entrar ou permanecer em qualquer dependência de estúdios cinematográficos, de teatro, rádio ou televisão.

Verdade seja dita, nem o Código de 1927 ou o de 1979 esperavam que alguém tivesse a audácia de fazer um filme com cenas de sexo e ao invés de mostrá-lo à um adolescente ou não indicar a classificação indicativa, colocassem o próprio adolescente para contracenar. Obviamente, canalha dos que utilizam esse argumento. Outro ponto: qual autoridade judiciária autorizaria um adolescente em “Amor estranho amor”?

Em 20/05/2012 no quadro “O que vi da vida”, no programa Fantástico, Xuxa fala de sua infância e da relação conturbada com o pai. Uma das interpretações seria a de que o filme tem a ver com essa fase de sua vida. Que seja – ou não seja! Fato é que nada justifica o filme feito por Xuxa que à época já era uma modelo famosa, capa de diversas revistas e portanto escolhida a dedo para o papel. Fosse cumprida a lei, não somente Xuxa mas outros artistas do filme como Tarcísio Meira e Vera Fisher teriam sido presos. Atualmente, 1/3 dos presos no Brasil estavam portando pouca quantidade de maconha ou cocaína, muitas vezes obrigados pelos traficantes ou milicianos. Não há artista branco de olhos claros preso por tráfico no país.

Pergunta à Xuxa: deveriam utilizar Tarcísio Meira, Vera Fisher e Xuxa para experimentos de cosméticos e remédios para “servirem para alguma coisa antes de morrer”?

Respondo que não e que assim como o preso por traficar pequena quantidade de maconha e agora está numa penitenciária acho que Xuxa, com um crime muito mais bárbaro, não deve ser cobaia contra sua vontade. Repito: contra sua vontade, uma vez que por alguns milhares de dólares sempre aceitou passar qualquer creme no corpo e ainda posar sorrindo. Mas o que é ser cobaia contra sua vontade? De onde vem esse tipo de ideia defendida por Xuxa na Alerj quando deveria falar de direitos dos animais?

Doutores da agonia: a ciência nazista

Xuxa não inovou em nada ao afirmar que presos devem ser cobaias na pesquisa de fármacos. A Idade Média está repleta de exemplos do tipo, mas foi no século XX com os adventos científicos da III Revolução Industrial e os regimes fascistas de Mussolini e Hitler que mentes doentias como as de Josef Mengele e Eduard Wirths ganharam fôlego. As vítimas não foram somente judeus, mas aqueles que para os nazistas eram desprovidos de humanidade, do direito à vida: negros, homossexuais, deficientes, ciganos, russos e quaisquer outros considerados inimigos do III Reich. Não havia distinção de idade. Uma criança judia tinha o mesmo valor para Hitlher do que um preso para Xuxa.

Experiências de esterilização por radiação foram utilizadas por Carl Clauberg em Auschwitz tendo como consequência o desenvolvimento de câncer em pessoas absolutamente normais. A mando de Hitlher foram realizadas experiências envolvendo tifo, cólera, varíola, malária e febre amarela. Nazistas fizeram cortes em presos de guerra para testar a eficácia da sulfonamida. Outros eventos nazistas como o uso de gás mostarda (que causa derretimento dos pulmões), água do mar como único suprimento de bebida e costura de gêmeos para torná-los siameses completam a lista. Eventos em que pessoas eram jogadas em tanques de água com temperaturas negativas formaram a base de estudos de hipotermia da medicina atual. Tudo isso com pessoas que serviram “para alguma coisa antes de morrer”, claro.

Engana-se quem pensa que os médicos que realizaram essas atrocidades foram presos. A saída “diplomática” foi a seguinte: os EUA concedeu asilo político aos “doutores da agonia” em troca de informações sobre as descobertas científicas de modo que pudessem, inclusive, utilizar em suas armas bioquímicas. Foi assim quando os EUA abrigaram médicos nazistas através da Operação Paperclip e com os médicos da Unidade 731 do Exército Imperial Japonês. Pode-se ver que não é exclusividade do Brasil ter uma “Xuxa”. É desse período que resultou o Código de Nuremberg estabelecendo princípios éticos e colocando animais como antecessores de humanos em experimentos, além de disciplinar as pesquisas. Está aí um ótimo ponto que poderia ser abordado por Xuxa, não fosse seu preconceito de classe.

Nós, a burguesia

Voltemos a falar da história de Xuxa, mas agora sob a perspectiva de quem escreve esse artigo de opinião, ou seja, a história de Xuxa com a minha por mais que nunca tenhamos nos conhecido. Nascido em 1983, fui um dos baixinhos da rainha. Pronto, isso revela muita coisa, mas vou além: em 1989, com o Estádio Mané Garrincha (Brasília) lotado, me perdi no show da Xuxa até ser encontrado pela minha irmã. Não tenho muita noção do tempo que fiquei perdido, mas pra mim foi uma eternidade. Cresci ouvindo Xuxa, tinha todos os LPs. Meus filhos, um casal de 3 e 4 anos, ouvem Xuxa. Eu e minha esposa cantamos e dançamos com eles.

Percebam que mesmo depois de adulto, sabendo de todo o histórico de Xuxa e o filme “Amor estranho amor”, ignorei tudo isso e considerei o que ela tem de bom: músicas divertidas, muito melhores que animações chatas e repetitivas como Galinha Pintadinha, pois o que salva das animações atuais é Mundo Bita, Palavra Cantada e olhe lá. Ouvir o que Xuxa disse é um balde de água fria, não tão gelada quanto os experimentos nazistas, mas ainda assim fria.

A fala de Xuxa não poderia encontrar pior momento para ser dita e revela muito mais do que uma vontade pessoal. Embora fortemente reprimida nas redes sociais, a manifestação é um alento para o que existe de pior e resolveu sair do esgoto em 2018. Não falo apenas de eleitores de Bolsonaro, embora aí residam a maior parte dos que julgam normal presidiários servirem de cobaias. Falo sobretudo de artistas ou outras personalidades que viram notícia pelo simples fato de estacionarem no Leblon, como ocorreu com Caetano Veloso. O que Xuxa disse é repetido diariamente por muitos desconhecidos e por esta condição não reverbera como a declaração de uma das maiores personalidades do país.

Xuxa faz parte da alta sociedade, aquela com discurso eugenista que não perde a oportunidade de destilar seu veneno contra os pobres. Nenhuma maquiagem de projeto social consegue camuflar isso. A aporofobia, na verdade, é um conceito que caminha junto com teorias totalitárias em que grupos dominantes cultural e economicamente decidem quem é sujeito de direitos e quem tem que dar o sangue, literalmente, para “servir pra alguma coisa antes de morrer”. Até isso lhes foi tirado, o direito a morte com dignidade. O Tribunal da Xuxa bate o martelo com muito cuidado pra não acertar o próprio rabo, mas não poderia deixar de fazer a escolha da elite: aos pobres, a guilhotina. À Xuxa, Tarcísio Meira e Vera Fisher, o Troféu Domingão Melhores do Ano.

Numa sociedade altamente polarizada como a brasileira e em uma conjuntura de elevado desemprego, perda de massa salarial, hiperinflação e descontrole da pandemia, uma das consequências é o aumento da população carcerária. Cada vez mais baixinhos e baixinhas que na década de 1980 sonhavam em subir na nave espacial que abria o programa vêem o capataz com bota rosa e cartola vermelha com correntes douradas. O pedido de desculpas seria louvável não fosse a consequência da cultura de cancelamento em redes sociais, o que de fato parece ter sido a mudança de opinião da apresentadora. Sim, se de um lado temos muitas pessoas que concordam com Xuxa, por outro ainda temos o bom senso de milhões de brasileiros que entendem a declaração como uma manifestação elitista.

Não estou dizendo para Xuxa tornar-se uma militante e se filiar ao PSOL, mas dá para ser liberal sem ter que fazer coro ao fascismo. Os atos radicalizados do #blacklivesmatter estão longe de ser uma célula bolchevique, mas trouxeram um avanço inequívoco numa eleição que estava ganha para Donald Trump. Pense nisso Xuxa, se você deseja fortalecer o discurso da milícia que tomou conta do Brasil ou se vai escolher, dentre diferentes ideologias, aquelas que não naturalizam a eugenia como política pública. A bolha da elite é confortável, mas não deixe que a Rainha dos Baixinhos se torne a Rainha da Baixaria.

Enfim… Xuxa estranha Xuxa.

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Você sabe diferenciar segunda instância de segunda instância?

Pouca gente sabe e a imprensa lavajatista que está com o rabo preso entre as pernas não vão te falar, mas eu vou. Você sabia que o recém-eleito presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, foi condenado em segunda instância em 2016. O crime? Bem, vou dar uma pista: ele está ao lado de Jair Bolsonaro. Ganhou um doce quem respondeu “rachadinha”.

Pois é, aquele pessoal que posou com camisa da CBF e o pato da FIESP nas manifestações de 2016 e que dizia que é um absurdo não ter prisão em segunda instância virou pipoqueiro em frente à festa da residência oficial do presidente da Câmara dos Deputados na noite de 01/02/2021. Alguns cancelados se humilharam mais do que Karol Conka no Big Brother Brasil e conseguiram uma taça de espumante, como Joice Hasselmann, ex-líder do governo e atual desafeta de Bolsonaro – ou nem isso mais.

Mas e o petê? E o Lula? Ora, Lula, todo mundo sabe, não teve a mesma sorte de Lira. Teve seu processo iniciado por um juiz acima de qualquer suspeita, que instruiu o procurador Dallagnol indicando inclusive alertando sobre falta de provas, algo comum nas… ditaduras!

Mas fiquem tranquilos que José Padilha não vai gravar a segunda temporada de O Mecanismo. Parece que até os atores ficaram com vergonha do que o país se transformou após aceitarem encenar uma série que de realista não tem nada. Ponto pro ator Wagner Moura que não aceitou interpretar o (?) juiz Sérgio Moro, talvez por não ter provas mas ter convicção de que seria um fracasso.

Vejamos então… Lira foi condenado 2 anos antes de Lula e nunca teve uma condução coercitiva sequer. Já Lula teve o azar de aparecer em 1° lugar nas intenções de voto para presidente e aí, bem, aí tem que perguntar para os suíços e americanos o resto da história que foi combinada com o marreco, “conge” do golpe em Dilma Roussef.

Eita Terra plana de dá voltas. Aliás, ela capota.

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