Aporofobia

Charge: Armandinho.

Artigo de opinião originalmente publicado em Conversa Informal, jornal comunitário do Setor Habitacional Vicente Pires, Região Administrativa XXX do Distrito Federal. Ano 18, n. 08/2021, Disponível em: <https://jornalconversainformal.blogspot.com/2021/08/jornal-conversa-informal-de-agosto-2021.html>. Acesso em 08 dez. 2021.

É comum que nessa época de inverno no Brasil tenhamos notícias de pessoas que “morrem de frio”. Geralmente, essas mortes ocorrem em grandes centros urbanos como São Paulo e são raras em cidades da região sul do Brasil em que chegam a registrar temperaturas negativas e sensação térmica ainda menor. Paralelamente à essa situação, aumentam os casos no Brasil de pessoas que enfrentam longas filas em açougues buscando sobra de ossos para complementar o caldo em casa para não “morrerem de fome”. As duas situações de extrema pobreza retratam o conceito de questão social utilizado nas ciências sociais e que colabora para explicar a dinâmica social brasileira.

No mesmo dia em que uma pessoa “morre de frio”, a poucos metros, às vezes do outro lado da parede, outras tantas pessoas estão com vestimentas adequadas, alimentando-se e, principalmente, sob um teto. Portanto, não é o frio ou a fome que mata as pessoas, mas a pobreza. A mesma frente fria que chega à uma cidade atinge as pessoas de forma distinta ou, em outras palavras, pessoas de baixa renda e em situação de rua têm sensação térmica mais aguçada do que as que têm moradia. O mesmo vale para comida e aqui relembro o que dizia meu pai: “Rafa, você não está com fome, está com vontade de comer e não queira jamais saber o que é fome”.

Soluções o Estado burguês tem muitas. O ministro Paulo Guedes propôs dar as sobras de comida do prato da classe média para pessoas pobres. A ministra da agricultura, Tereza Cristina, quis flexibilizar a venda de alimentos próximos a vencer. E para quem acha que é exagero saiba que João Dória chegou a propor uma espécie de ração humana (farinata), também com alimentos com data de validade perto do vencimento. Na mesma São Paulo, para evitar que mendigos dormissem embaixo de viadutos, a prefeitura colocou pedras de modo a impedir que pessoas se deitassem ou construíssem barracos, o que motivou o padre Júlio Lancellotti a demolir a estrutura – um suspiro do meio cristão diante do avanço da teologia da prosperidade e a criminalização da pobreza.

As globais Maitê Proença e Regina Duarte são contra o Bolsa Família, mas recebem pensão até hoje – a primeira por ser filha de desembargador e a segunda por ser filha de militar. Perguntar não ofende: por que Celso Russomano nunca levou a patrulha do consumidor em lojas de grandes varejistas como Havan ou Riachuelo? Para cobrar caixa de supermercado sempre foi rápido.

Menos pior seria se as investidas contra os pobres ficassem apenas na seara da política institucional ou das dondocas da novela das 9. Quem maltrata motoboy, garçom, motorista de ônibus, frentista, caixa de supermercado (alô Celso Russomano) feirante, líder comunitário e outros trabalhadores explorados também pratica a aporofobia. A professora, mesmo assalariada, pratica aporofobia quando diz que “o pai do aluno não tem dinheiro para comprar lápis mas tem para comprar cachaça”. São apenas exemplos cotidianos de que a aporofobia atinge apenas os pobres, mas é praticada por todas as classes sociais.

À essa altura do texto você já aprendeu o que é a aporofobia: a aversão a pobres pelo fato de serem pobres. Numa sociedade do consumo, pautada pelo TER e não pelo SER, pobres tornam-se alvo fácil da elite do atraso, parafraseando um clássico de Jessé Souza. Desnecessário dizer que são os pobres os que mais trabalham e proporcionalmente os que mais pagam impostos no país, possibilitando com que a classe média abra seu vinho à noite e, da sacada do apartamento, discuta os problemas do país. A educação, para além da escolarização formal, é um dos braços que irá permitir com que nos reconheçamos enquanto nação, latinos, negros, mulheres e sobretudo excluídos para extirpar de vez a aporofobia de nossas relações humanas.

Sugestão de Leitura:

Educação, pobreza e desigualdade social: a iniciativa EPDS na Universidade de Brasília (2017-2018) – Volume 2: Mediações. Acesse o livro em: https://livros.unb.br/index.php/portal/catalog/book/56

Sobre ayanrafael

Pedagogo, Assistente Social e Mestre em Educação pela Universidade de Brasília. Trabalhou como técnico-administrativo na Universidade de Brasília, como Professor de Atividades da SEEDF (Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal) e atualmente é Especialista Socioeducativo - Pedagogo na Secretaria de Estado de Justiça e Cidadania do Distrito Federal, lotado no Centro Integrado 18 de Maio.
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