Quem precisa de professoras?

Encontro debate práticas de sala de aula
Imagem: Nova Escola

Artigo de opinião originalmente publicado em Conversa Informal, jornal comunitário do Setor Habitacional Vicente Pires, Região Administrativa XXX do Distrito Federal. Ano 18, n. 10/2021, Disponível em: <https://jornalconversainformal.blogspot.com/2021/10/conversa-informal-de-outubro-2021.html>. Acesso em 08 dez. 2021.

O título tem duas provocações necessárias: afinal, quem precisa de professoras no mundo pós-moderno em que opinião e fato são colocados como sinônimos? A pergunta traz em si parte da resposta ao negar que fato e opinião são a mesma coisa. Explico: qualquer pessoa pode ter a opinião de que a ditadura militar no Brasil foi boa ou ruim, mas nenhuma delas pode negar o fato de que houve repressão e abusos de toda sorte por parte do Estado.

As provas para tal afirmação são fartas: em 1964 não se viram estudantes com seus fusquinhas cercando o Congresso Nacional e sim os tanques das Forças Armadas. Adiante, não há absolutamente nenhum relato de jornalistas torturando mulheres de militares colocando ratos em suas vaginas, como fez o finado coronel Ustra com seus adversários. Nem mesmo o sequestro do embaixador Charles Elbrick muda o resultado de qualquer história que seja contada sobre o massacre do Estado nos protestos contra os militares. Para quem duvida é só ver as imagens produzidas pela imprensa da época, mesmo com a censura.

Vamos despir um pouco a educação brasileira.

Dados do Censo Escolar 2020 revelam que professoras ganham em média 12% a menos que professores. Isso ocorre porque a maior parte delas está na educação infantil e ensino fundamental que, por lei, são competências dos municípios e estes, por sua vez, têm menos receita que os estados, estes últimos responsáveis pelo ensino médio. Em contrapartida, na França, a nata da profissão que atua na educação básica (maiores titulações) concentra-se na educação infantil. Esse dado certamente corrobora para os bons índices educacionais de franceses e outros países europeus como Finlândia, um dos que mais investem em educação no globo.

Há um provérbio africano que diz: “é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”. Na prática a frase assusta economistas que se aventuram a opinar em educação mesmo sem nunca ter pisado numa escola pública. Isso porque, se interpretada como de fato é – veja, fato, não opinião –, a frase justifica que educação é um processo necessariamente coletivo. Paulo Freire, que lecionou na África e se vivo completaria 100 anos em setembro desse ano, colocou na prática esse ensinamento. De outro lado, as fundações ligadas a bancos que gostam de aparecer como mecenas vêem com maus olhos gastos em educação que não sejam para uma formação tecnicista. Em outras palavras, reescreveriam o ditado assim: “é preciso somente um professor para educar uma aldeia inteira”.

E quais as consequências de uma nação com poucas professoras?

Para a profissional os desdobramentos são maior relação aluno/docente com consequente prejuízo à qualidade de vida da professora e turma. O plano de saúde da professora todo mundo já conhece: segue readaptada pra secretaria ou pra xerox da escola sem direito à um acompanhamento digno de políticas públicas de saúde e assistência social. Para o Brasil, uma população facilmente manipulável e que age com raiva acima de tudo e de todos, enxergando nos sites patrocinados por empresários corruptos uma teoria da conspiração sem pé nem cabeça deforma qualquer tentativa de construção coletiva do conhecimento.

Sim, o que estou dizendo é que a polarização política na atual conjuntura brasileira é um produto direto do fracasso de nosso modelo educacional cartesiano, ou seja, Paulo Freire não tem nada a ver com isso. Não nos reconhecemos enquanto povo e sim como adversários, inimigos a serem derrotados qualquer que seja o preço e propícios à divulgação de fake news dado a sua baixa capacidade interpretativa. A negação de que a ditadura militar no Brasil foi um escárnio só é possível porque em algum momento os espaços de debate foram censurados, do grupo de Whats App Caso ainda não tenha percebido, a segunda provocação do título diz respeito ao gênero: falar de docência em nosso país é falar de mulheres. De cada dez docentes no Brasil, oito são mulheres. Logo, não serei a pessoa que irá utilizar um argumento aparentemente técnico para ignorar que a gramática foi construída por uma visão patriarcal. Libertemos e exercitemos: feliz Dia das Professoras nesse 15 de outubro!

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Obscena é a fome!

Catadores sobre maciço de lixo na Estrutural — Foto: Marília Marques/G1
Catadores no antigo Lixão da Estrutural, DF, o maio da América Latina. Imagem: G1.

Artigo de opinião originalmente publicado em Conversa Informal, jornal comunitário do Setor Habitacional Vicente Pires, Região Administrativa XXX do Distrito Federal. Ano 18, n. 11/2021, Disponível em: <https://jornalconversainformal.blogspot.com/2021/11/jornal-conversa-informal-de-novembro.html>. Acesso em 08 dez. 2021.

Uma vez na adolescência, viajando com meu pai, pedi que ele parasse o carro porque estava com fome. Ele me disse que pararia, mas ressaltou que o que eu sentia era vontade de comer, algo diferente de fome, que nunca passei. Perguntar não ofende: você difere fome de vontade de comer?

É notório o aumento do número de pessoas em Vicente Pires revirando lixo. Porém, se antes eram apenas catadores de materiais recicláveis, hoje somam-se pessoas que não tem o que comer. Enxergam, portanto, o óbvio: chegar antes do caminhão do SLU (Serviço de Limpeza Urbana) e, dessa forma, aproveitar melhor restos de alimentos que descartamos no lixo doméstico.

O Brasil alimentou 1 bilhão de pessoas em 2020. Ainda naquele ano 10 milhões de habitantes passaram fome, sendo que o número dobrou em 2021. Vale notar que esse dado é apenas de alimentos, deixando de fora grãos que são exportados para fins de ração animal como parte da soja. Outra observação importante é que entre a população que passa fome e a que se alimenta adequadamente há um número ainda maior na categoria insegurança alimentar, ou seja, pessoas que não acessam regularmente alimentos em qualidade e quantidade suficiente para a sobrevivência.

A pandemia de Covid-19 acelerou o aumento do desemprego e a perda de massa salarial atingindo quem não tem dinheiro para investir em paraísos fiscais e lucrar com a alta do dólar. Foi assim que o termo “fila do osso” se tornou familiar para os mais pobres. Carne passou a ser artigo tão comum como bacalhau da Noruega nas menores rendas. A crise econômica agravada pela crise política não dá sinais de término e os investimentos que poderiam trazer trabalho e renda ficam cada vez mais longe. Em resumo, não há solução a curto prazo para o número de miseráveis que avançam sobre os contêineres de lixo.

O geógrafo, médico e nutrólogo brasileiro Josué de Castro que presidiu a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) entre 1952 e 1956 e foi quatro vezes indicado ao Prêmio Nobel da Paz tem uma frase que continua atual: o problema da fome não é a seca, mas a cerca. Ora, se podemos alimentar 1 bilhão de pessoas, podemos alimentar 20% desse montante – contando do brasileiro mais pobre ao mais rico. A questão é que latifundiários não cumprem a função social da terra, uma obrigação constitucional. A desapropriação não é feita pelas autoridades competentes até porque parte dela é dona da terra. Contudo, ainda que considerando todo o embasamento legal em prol da especulação imobiliária rural, vejamos algumas soluções reformistas (portanto liberais) para mitigar a fome no Brasil.

O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) é uma alternativa em que o governo compra a produção da agricultura familiar e distribui para quem não pode pagar. O aumento do investimento no Pronaf (Programa de Apoio ao Agricultor Familiar) é outra ideia, com subsídio de bancos públicos aos pequenos agricultores para compra de insumos agrícolas à juros menores que os de mercado. Para quem acha que o governo não tem dinheiro para bancar os dois programas e outros do gênero, saiba que medidas conhecidas como incentivo fiscal já são aplicadas para grandes ruralistas. É verdade que a participação do agronegócio no PIB é de quase 30%, mas a contrapartida exigida dos latifundiários é irrisória e gera uma distribuição de renda que explica em parte a fome no Brasil. É o Estado máximo para o capital e o Estado mínimo para os direitos sociais.

Adiante, o problema do Brasil não é a carga tributária e sim o retorno que se tem dos serviços públicos. Explico: o Brasil é a 12ª economia mundial e a Suécia é a 23ª, ao passo que a carga tributária brasileira é de 35% e a sueca de 43%. Não há protestos nas ruas da Suécia para que o governo aumente o PIB ou corte impostos, tampouco quem considere a rainha sueca uma comunista. Como dizia Betinho: um país não muda pela sua economia, sua política e nem mesmo sua ciência; muda sim pela sua cultura Ler a conjuntura política é fundamental para que não se individualize questão social tão séria quanto a fome. Dizer que alguém não quer trabalhar porque prefere buscar a alimentação em meio à resto de fezes, sangue e outros rejeitos domiciliares é assinar atestado de falta de empatia, com o agravante da pérola por vezes ser dita por quem se apresenta cristão. Nisso José Saramago é taxativo: obscena é a fome.

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Invasores de direito

Imagem: Blog http://www.nanihumor.com

Artigo de opinião originalmente publicado em Conversa Informal, jornal comunitário do Setor Habitacional Vicente Pires, Região Administrativa XXX do Distrito Federal. Ano 18, n. 09/2021, Disponível em: <https://jornalconversainformal.blogspot.com/2021/09/jornal-conversa-informal-de-setembro.html>. Acesso em 08 dez. 2021.

Vocês estão acostumados a ler aqui no Conversa Informal sobre regularização fundiária e a história de Vicente Pires. Porém, vou juntar os dois temas para ferir o ego de algumas pessoas que, obviamente, nunca quiseram falar sobre como foi o processo para começarem a morar em VP quando a região deixou de ser área rural e passou a ser um setor habitacional de condomínios horizontais – ou um pouco depois no caso de compradores dos primeiros compradores. Todos temos um vizinho desses.

Ao contrário do que dizem alguns emergentes que desejam morar em VP, nosso bairro jamais foi invasão. A maior parte dos chacareiros tinha posse em outro local do DF que foi solicitado pelo governo e, assim, surgiu a indenização em terrenos de 30.000m². É óbvio que ninguém invadiria terrenos tão grandes e próximos do centro da capital federal e aqui permaneceria sem uma ação de despejo por parte do poder público, mas é preciso que se escreva com todas as letras para que fique bem claro.

Pois bem, os antigos chacareiros de VP tinham a posse das chácaras sem poder fracioná-las. A fórmula de uso estipulada pela Fundação Zoobotânica era a seguinte: 30% para moradia/lazer e 70% para produção agrícola. Dessa forma, quando em 1997 o então governador Cristovam Buarque desocupou milhares de barracos na Estrutural e prometeu fazer o mesmo com os chacareiros de VP foi o ápice de venda de chácaras pelos chacareiros. Note: eu falei venda de chácaras e não de lotes pelos chacareiros, esta última proibida legalmente. Enfim, todos sabiam que a indenização seria outra desvalorização do patrimônio, como já ocorrido na primeira vez na década de 1980.

É aí que entram os corretores de imóveis comprando chácaras inteiras e prometendo pagar com a venda dos lotes. Entre idas e vindas de derrubadas e pagamentos de propinas para fiscais nos governos Cristovam, Roriz I, Roriz II – A vingança final, Arruda, Agnelo e até Rollemberg como foi o caso da chácara 200, os corretores sumiam com o pouco que conseguiam de pagamentos desses lotes vendidos. Muitos chacareiros, percebendo a movimentação típica de malandro desses corretores, quiseram desfazer o negócio e passaram a vender por conta própria, recebendo mais frequentemente a visita de fiscais a partir de então. O resultado disso foram chacareiros que não ganharam sequer metade do valor de venda da chácara com vizinhos caloteiros e, não obstante, ditando regras nos recém-criados estatutos, convenções e demais instrumentos legais do tipo que os narizes empinados da classe média adoram mais do que parcela da CVC.

E foi desse jeito que nasceram os invasores de direito. São pessoas que não pagaram pelo lote justificando que se é terra pública então só tomaram a parte que lhes era devida. Também há os que compraram o lote, com ou sem casa, de quem não pagou o corretor. Os primeiros compradores/caloteiros se mandaram enquanto era tempo, deixando de espólio alguém que pagou um valor bem menor e nem desconfia de onde veio o “desconto”. Com documentação frágil do tipo cessão de posse de direitos, o final da década de 1990 foi um profícuo encontro entre corretores e compradores que fizeram qualquer coisa, menos cumprir o contrato que não existia – e não poderia existir – com os chacareiros. E ninguém pode reclamar de um contrato que não existe não é mesmo? Outra que ouvi de um corretor: chapéu de otário é marreta! Tenho amigos filhos de chacareiros que até hoje são inconformados com o golpe que seus pais levaram e tentam encontrar o corretor para cobrar satisfações. Perda de tempo! Melhor para a saúde mental esquecer de tudo isso e tocar a vida pra frente. É injusto? Sim, é claro que é. Mas cada um tem que saber lidar com isso. Como filho de chacareiro, o caminho que encontrei foi duas décadas depois de tudo escrever em um dos jornais comunitários da cidade para dizer aos invasores de direito que de fato não posso fazer nada, mas sei quem são e o que fizeram no verão passado. E acreditem: isso é o bastante para lhes colocar em seu devido lugar.

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Aporofobia

Charge: Armandinho.

Artigo de opinião originalmente publicado em Conversa Informal, jornal comunitário do Setor Habitacional Vicente Pires, Região Administrativa XXX do Distrito Federal. Ano 18, n. 08/2021, Disponível em: <https://jornalconversainformal.blogspot.com/2021/08/jornal-conversa-informal-de-agosto-2021.html>. Acesso em 08 dez. 2021.

É comum que nessa época de inverno no Brasil tenhamos notícias de pessoas que “morrem de frio”. Geralmente, essas mortes ocorrem em grandes centros urbanos como São Paulo e são raras em cidades da região sul do Brasil em que chegam a registrar temperaturas negativas e sensação térmica ainda menor. Paralelamente à essa situação, aumentam os casos no Brasil de pessoas que enfrentam longas filas em açougues buscando sobra de ossos para complementar o caldo em casa para não “morrerem de fome”. As duas situações de extrema pobreza retratam o conceito de questão social utilizado nas ciências sociais e que colabora para explicar a dinâmica social brasileira.

No mesmo dia em que uma pessoa “morre de frio”, a poucos metros, às vezes do outro lado da parede, outras tantas pessoas estão com vestimentas adequadas, alimentando-se e, principalmente, sob um teto. Portanto, não é o frio ou a fome que mata as pessoas, mas a pobreza. A mesma frente fria que chega à uma cidade atinge as pessoas de forma distinta ou, em outras palavras, pessoas de baixa renda e em situação de rua têm sensação térmica mais aguçada do que as que têm moradia. O mesmo vale para comida e aqui relembro o que dizia meu pai: “Rafa, você não está com fome, está com vontade de comer e não queira jamais saber o que é fome”.

Soluções o Estado burguês tem muitas. O ministro Paulo Guedes propôs dar as sobras de comida do prato da classe média para pessoas pobres. A ministra da agricultura, Tereza Cristina, quis flexibilizar a venda de alimentos próximos a vencer. E para quem acha que é exagero saiba que João Dória chegou a propor uma espécie de ração humana (farinata), também com alimentos com data de validade perto do vencimento. Na mesma São Paulo, para evitar que mendigos dormissem embaixo de viadutos, a prefeitura colocou pedras de modo a impedir que pessoas se deitassem ou construíssem barracos, o que motivou o padre Júlio Lancellotti a demolir a estrutura – um suspiro do meio cristão diante do avanço da teologia da prosperidade e a criminalização da pobreza.

As globais Maitê Proença e Regina Duarte são contra o Bolsa Família, mas recebem pensão até hoje – a primeira por ser filha de desembargador e a segunda por ser filha de militar. Perguntar não ofende: por que Celso Russomano nunca levou a patrulha do consumidor em lojas de grandes varejistas como Havan ou Riachuelo? Para cobrar caixa de supermercado sempre foi rápido.

Menos pior seria se as investidas contra os pobres ficassem apenas na seara da política institucional ou das dondocas da novela das 9. Quem maltrata motoboy, garçom, motorista de ônibus, frentista, caixa de supermercado (alô Celso Russomano) feirante, líder comunitário e outros trabalhadores explorados também pratica a aporofobia. A professora, mesmo assalariada, pratica aporofobia quando diz que “o pai do aluno não tem dinheiro para comprar lápis mas tem para comprar cachaça”. São apenas exemplos cotidianos de que a aporofobia atinge apenas os pobres, mas é praticada por todas as classes sociais.

À essa altura do texto você já aprendeu o que é a aporofobia: a aversão a pobres pelo fato de serem pobres. Numa sociedade do consumo, pautada pelo TER e não pelo SER, pobres tornam-se alvo fácil da elite do atraso, parafraseando um clássico de Jessé Souza. Desnecessário dizer que são os pobres os que mais trabalham e proporcionalmente os que mais pagam impostos no país, possibilitando com que a classe média abra seu vinho à noite e, da sacada do apartamento, discuta os problemas do país. A educação, para além da escolarização formal, é um dos braços que irá permitir com que nos reconheçamos enquanto nação, latinos, negros, mulheres e sobretudo excluídos para extirpar de vez a aporofobia de nossas relações humanas.

Sugestão de Leitura:

Educação, pobreza e desigualdade social: a iniciativa EPDS na Universidade de Brasília (2017-2018) – Volume 2: Mediações. Acesse o livro em: https://livros.unb.br/index.php/portal/catalog/book/56

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Reforma Administrativa vai passar a boiada para a corrupção

Nós já botamos a granada no bolso do inimigo: 2 anos sem aumento", Paulo  Guedes (22/04) - YouTube
Reunião ministerial de Bolsonaro em abril de 2020. Imagem: Sindserv Santos.

Artigo de opinião originalmente publicado em Conversa Informal, jornal comunitário do Setor Habitacional Vicente Pires, Região Administrativa XXX do Distrito Federal. Ano 18, n. 07/2021, Disponível em: <https://jornalconversainformal.blogspot.com/2021/06/jornal-conversa-informal-julho-2021.html>. Acesso em 08 dez. 2021.

Engana-se quem pensa que a boiada passa somente no Ministério do Meio Ambiente. A Reforma Administrativa pautada pelo Congresso Nacional ameaça um Estado democrático de direito que seja minimamente autônomo e forte diante de pressões políticas de qualquer que seja a coloração partidária: a valorização do serviço público e, em especial, a estabilidade dos servidores.

Imaginemos que para obras de pavimentação em Vicente Pires não tivéssemos servidores de carreira especializados para eliminar ou ao menos mitigar vícios de um processo licitatório. Qual empresa ganharia? Certamente a que oferecesse a maior propina “por fora” para a pasta de obras do governo e assim desviariam milhões dos recursos constituídos pela contribuição de cada cidadão. É o engenheiro de carreira, portanto investido em vaga de concurso, estável, que pode se negar a assinar documento ilegal. Fosse um indicado por um pastor da base do governo, faria o que lhe mandassem ou seria exonerado de imediato.

Outros exemplos de serviço público: segurança pública (policiamento ostensivo, investigação de crimes, registro de armas), educação (alfabetização, ensino técnico e superior, educação para povos originários, formação para a cidadania), assistência social (auxílios e benefícios à deficientes, população em situação de rua, pessoas em insegurança alimentar), meio ambiente (multa por desmatamento ou pesca ilegal, conservação de áreas de proteção ambiental, demarcação de terras), infraestrutura (construção de hidrovias, hidrelétricas, estradas, usinas), transporte, habitação, saúde (desnecessário falar o tanto de vidas que o SUS salvou). Enfim, não há nação próspera sem que se tenham servidores concursados atuando de forma eficiente para que o dinheiro público seja bem investido. E não se iluda: o Brasil tem menos servidores públicos que muitos países liberais clássicos.

Um dos principais pontos da Reforma Administrativa é o ataque à estabilidade. Os concursados darão lugar ao tio do vizinho do primo do deputado distrital que é base do governo – mas só até brigarem! Não haverá mais corte mínimo de nota em conhecimentos básicos e específicos, prova dissertativa (redação), investigação de vida pregressa, teste psicotécnico e curso de formação, substituindo muitas vezes quem passa por todo esse processo por semianalfabetos dispostos a assinar qualquer coisa para se manter no cargo. O resultado prático disso são as administrações regionais do DF: um circo de horror com puxas-sacos em vagas tão precarizadas que aceitam até produzirem redes sociais pessoais de administradores em campanha antecipada para o Legislativo.

Existem servidores concursados ruins? É certo que sim, mas são minoria. Após a Lei 8.112/1990 e outras leis advindas desta que regulamentam o serviço público em nível estadual temos pessoas com perfil empreendedor que trouxeram inúmeras soluções para um serviço público marcado até então pelo QI (Quem Indica). Em outras palavras: a Reforma Administrativa quer que o serviço público volte para antes da Constituição de 1988 em que o Estado era sequestrado pelo governo de plantão.

A corrupção não surgiu com a estabilidade dos servidores – ao contrário, diminuiu. Os grandes casos de corrupção que ganham a mídia são em geral de cargos comissionados indicados por governantes, uma vez que os servidores de carreira têm muito a perder cedendo à ilegalidade. O exemplo mais recente é o do servidor do Ministério da Saúde e a compra da Covaxin: não fosse ele concursado não haveria denúncia e, quando soubéssemos, seria ele o boi de piranha da situação. Corrupção envolvendo empreiteiras e prestação de serviços como limpeza e conservação de cemitérios ou vias públicas, segurança patrimonial e outras tem uma equação simples que se repete há décadas: um testa de ferro como chefe e a partir dele vários subordinados, todos em cargos comissionados, se aproveitando de desvios de verbas públicas até ser pego por fiscalização do tribunal de contas ou denúncia anônima à imprensa. Descobertos, são exonerados e outros nomes com as mesmas práticas voltam para a mesma equação, gerando obviamente o mesmo resultado.

A estratégia para aprovar a Reforma Administrativa e a partir daí terem mais influência através de indicações é colocar a população contra os concursados. Percebam que as regalias dos militares de alta patente e do Judiciário (como os juízes que quando são pegos em casos de corrupção aposentam com salário integral) permanecem inertes na Reforma. A estrutura que permite a entrada indiscriminada de pessoas estranhas à administração pública também. Não é preciso dizer que é necessário que se trabalhe com uma margem de pessoas não concursadas – e que estas sejam capacitadas para a função –, mas nada que distorça a característica de servir ao Estado e não ao governo. E que os cargos de chefia, embora não exclusivos, sejam prioritários aos concursados. Portanto, é o investimento em servidores de carreira e não a sua degola que fará o país avançar. Seja qual for a sua ideologia (Lula, Bolsonaro, isentão ou outra), o Estado só fica inchado quando ocupado por corruptos ou incompetentes uma vez que servidor qualificado e estável nunca é demais.

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O finado Carrapicho

DJ MALUCO - Volume 01 - CD COMPLETO - soforrofm.com.br - YouTube
DJ Maluco, um dos preferidos do público do Carrapicho.

Artigo de opinião originalmente publicado em Conversa Informal, jornal comunitário do Setor Habitacional Vicente Pires, Região Administrativa XXX do Distrito Federal. Ano 18, n. 06/2021, Disponível em: <https://jornalconversainformal.blogspot.com/2021/06/jornal-conversa-informal-de-junho-2021.html>. Acesso em 07 dez. 2021.

Como é que você foi embora sem dizer pelo menos adeus! Para falar sobre esse assunto, nada melhor do que começar pelo seu hino. A música “Cobertor” da banda Calcinha Preta certamente é um marco para todos que frequentaram o Carrapicho, um conhecido bar/danceteria (ainda dizem danceteria?) do final da década de 1990 e início dos anos 2000. Ficava na entrada da rua 4C com a EPTG (Estrada Parque Taguatinga) e era um local de muita diversão.

Tal qual a construção de cidades portuguesas do período colonial era o estacionamento do recinto: uma parte baixa, próxima ao cachorro-quente da área externa em que se fazia o “esquenta”, e um num local mais elevado, uma pequena colina de Vicente Pires. O bicicletário – sim, o público praticava o transporte alternativo – funcionava em dois lugares: no poste de luz e na própria grade de alambrado que cercava o local. Um senhor com um colete laranja manchado e rasgado vigiava os carros e era conhecido dos frequentadores assíduos como eu e meus amigos filhos de donos de chácaras que cresceram na região.

Havia uma bilheteria para comprar o ingresso. Logo após a revista pelos seguranças recebíamos um comprovante impresso e, caso quiséssemos sair, era só entregar esse papel que, de prontidão, carimbavam nosso braço, uma prova de que já havíamos comprado a entrada e poderíamos retornar. Perdi a conta de quantos carimbos recebi da “alguma coisa advogados associados”, “recebido em” ou “fulano contabilidade geral”. Como “ishpertu” tem em todo lugar, alguns que saiam umedeciam o carimbo e passavam pelo braço para outros que não tinham comprado o ingresso da noite. Melhor que tentar pular o alambrado e ser pego pelo segurança.

Mas não se engane: violência não era o forte do Carrapicho. Ali bebiam lado a lado o travesti vestido de onça com uma pessoa heterossexual. Seria inocência falar que não existia homofobia naquele tempo, mas ai de quem no Carrapicho quisesse falar algo ofensivo à um dos homossexuais – o estabelecimento zelava pela coletividade respeitando a individualidade, com todo o cuidado para não confundir individualidade como sinônimo de preconceito. Saudades de quando o racismo e a homofobia ainda se limitavam ao esgoto da deep web.

No Carrapicho não tinha muito luxo, mas sobrava felicidade. Engana-se quem pensa que por ser um local popular o banheiro era algo imundo. Podemos citar vários bares de locais nobres do DF em que o banheiro cheira a quilômetros de distância. Os petiscos eram bem servidos, os garçons atenciosos e os seguranças não seguiam pessoas negras como se suspeitos fossem, até porque as pessoas negras eram maioria. O palco estava quase no mesmo nível da pista de dança e equipamentos de som e iluminação como amplificadores, globo e máquina de fumaça faziam a alegria de todos. As mesas eram limpas com regularidade e para não dizer que não há críticas, não havia acessibilidade para cadeirantes.

A música era forró a noite inteira, sobretudo de bandas nordestinas. Os cantores eram um show à parte. Um dos mais conhecidos vestia uma regata brilhosa roxa, com cabelos ondulados parecendo o Luís Caldas e uma calça apertada bem antes de Tiririca ou João Dória “lançarem” a moda. DJ Maluco, Aviões do Forró, Mastruz com Leite, Washington Brasileiro eram os artistas mais tocados. Aliás, Washington Brasileiro chegou a se apresentar no Carrapicho. O valor do ingresso foi cerca do triplo do praticado e o público deu o recado: um sábado vazio. Naquela noite ficou evidente que o Carrapicho era, antes de tudo, um local de resistência da cultura popular e não se sujeitaria às regras do mercado, ao menos não todas elas.

Numa época sem Whats App ou redes sociais, não era preciso combinar para que a juventude de VP e redondezas se encontrasse no sábado à noite para balançar o esqueleto. Não sei se lamento ou agradeço por não termos celulares com câmera naquele tempo. Há casais, divorciados e amigos que hoje habitam o bairro e se conheceram no Carrapicho. Verdade seja dita, o local piorou quando alguns inconsequentes passaram a fazer eventos paralelos com som automotivo no estacionamento, posteriormente migrando para o Tagua Parque.

O Carrapicho fechou as portas em meados de 2004, pouco antes do início das obras da ampliação da EPTG. O aumento da via obrigou também ao fechamento do Amarelinho, outro conhecido bar que ficava às margens da via. Pouco mais à frente, a casa de shows A+.Com, por ter entrada e bebida mais cara, herdou parte do público de maior renda do Carrapicho, mas também faliu depois de alguns anos. O Carrapicho ficou na memória como uma das maiores e melhores casa de eventos do DF, esquecido pelos grandes jornais por sua maior virtude: ser uma casa do povo para o povo!

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Os “novos” “baianos”

Artigo de opinião originalmente publicado em Conversa Informal, jornal comunitário do Setor Habitacional Vicente Pires, Região Administrativa XXX do Distrito Federal. Ano 18, n. 05/2021, Disponível em: <https://jornalconversainformal.blogspot.com/2021/05/jornal-conversa-informal-de-maio-2021.html>. Acesso em 07 dez. 2021.

No dia 02/04/2021 o Correio Braziliense noticiou um caso de trabalho análogo à escravidão em Vicente Pires. Cito alguns dos problemas do local autuado, uma chácara que cultiva hortaliças: guarda inapropriada de agrotóxicos, falta de treinamento e EPI (Equipamento de Proteção Individual) para os trabalhadores, alojamento com instalações elétricas e sanitárias precárias e descumprimento da CLT quanto a descanso e pagamento de horas extras. Foram resgatados cinco trabalhadores piauienses e um goiano. A história revela um passado que, infelizmente, ainda é presente no bairro e têm implicações de ordem ambiental e social para a comunidade. Volto aqui à minha infância em Vicente Pires para ilustrar o caso.

Na década de 1990 era comum vermos trabalhadores agrícolas em Vicente Pires. Eram chamados genericamente de “baianos”, uma forma preconceituosa de regionalizar trabalhadores e desumanizá-los pelo que a região nordeste representa para a acéfala classe média e elite do Centro-Sul do país. Conheci vários daqueles “baianos” que jogavam futebol com meu ex-cunhado e as condições de trabalho à época são exatamente as mesmas que o Ministério Público do Trabalho (MPT) encontrou em VP 30 anos depois.

Por questão ética vou contar o milagre e não o santo. Naquele tempo um vizinho próximo que era caseiro e semianalfabeto colocou vários “baianos” para trabalhar para ele em outras chácaras. Eram uns 20, no mínimo. Dormiam em beliches dentro de contêineres em que a única entrada de ar era a porta. Quando ia estudar de manhã os encontrava andando pelas ruas ainda não nomeadas de VP, alguns em bicicletas Barra Circular, segurando facões ou enxadas como se parte do corpo fosse. De noite, após o banho, faziam a fila para a janta. A esposa do caseiro, volta e meia de olho roxo por causa da violência doméstica, fazia o prato para dividir igualmente entre todos e quem terminava primeiro perguntava se havia sobra. Ali, sem esteira fordista, revelava-se a divisão social do trabalho mais clara do que qualquer palestra acadêmica.

O caseiro também mantinha um bar em sua residência e um caderno imundo em que uma vizinha alfabetizada fazia as contas dos devedores e controle de estoque. Não precisa nem dizer que o salário dos “baianos” ficava boa parte retido nos custos com alojamento, alimentação e bebidas alcoólicas na Ópera do Malandro de circulação local. Dessa forma a exploração atingia inclusive a esfera da vida pessoal de cada trabalhador, da janta com carne de terceira à cachaça para esquecer o dia sofrido no arado. Não podiam sequer comer as hortaliças que plantavam nas chácaras, algo que era permitido em domingos e dias santos aos escravizados no Brasil e aos vassalos durante os contratos da Idade Média na Europa.

O uso incorreto de agrotóxicos e a construção inadequada de fossa séptica não prejudicam somente os “novos” “baianos” de Vicente Pires, que de novos não têm nada. A poluição do solo, da água e do ar tem impacto ambiental direto na região e indireto em quem consome os produtos ali cultivados, sejam eles vendidos na Feira do Produtor ou em outro local. O trabalho análogo à escravidão pode deixar a couve e o agrião com preço mais acessível, mas traz junto à salada um trabalhador com problema mental na mesma fila atrás de você na padaria. A degradação ambiental paralela a desumanização do trabalho traz o ingrediente perfeito para um barril de pólvora que o MPT ajudou a desarmar.

As pessoas acham que destratar trabalhadores é algo que só ocorre no plantio de cana-de-açúcar no Nordeste ou com bolivianos que vivem em São Paulo e fabricam, em algum porão, a próxima coleção de roupas da Riachuelo. Ledo engano! Geralmente as pessoas não sabem sobre a história do lugar que habitam. Contudo, conhecer e reconhecer o espaço geográfico e atuar nas possibilidades de que seja um lugar mais acolhedor não é tarefa exclusiva de líderes comunitários. A garagem, a sala e o quarto de muito morador hoje em dia já foram um contêiner que parecia um navio negreiro do século XX, um banheiro seco sem papel higiênico ou o varal em que se secava a única calça jeans de trabalho. E pode ser que atualmente o desconhecido outro lado do muro da casa ainda guarde, tão vivo como antes, toda a podridão que é o trabalho análogo à escravidão. Denunciar chácaras que ainda operam de forma negligente com trabalhadores rurais deve ser uma ação permanente de cada um de nós e olha que nem precisa se identificar. Boicotar produtores ou comerciantes que trabalham com produtos feitos por essa mão-de-obra é outra possibilidade.

E você, está de que lado do muro?

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Direito a cidade em Vicente Pires

Setor Habitacional Vicente Pires. Imagem: Correio Braziliense.

Artigo de opinião originalmente publicado em Conversa Informal, jornal comunitário do Setor Habitacional Vicente Pires, Região Administrativa XXX do Distrito Federal. Ano 18, n. 04/2021, Disponível em: <https://jornalconversainformal.blogspot.com/2021/04/jornal-conversa-informal-de-abril-2021.html>. Acesso em 07 dez. 2021.

É comum nessa coluna eu comentar sobre as experiências de minha infância e juventude no bairro, uma vez que moro aqui desde o início da década de 1990. O texto desse mês dará ênfase à esse aspecto e começa com uma denúncia: Vicente Pires em 2021 é um bairro proibitivo para crianças e jovens! A afirmação parte de algo conhecido: não temos espaços públicos de encontro entre moradores.

Na década de 1990 muros eram raros. Crianças da então colônia agrícola conheciam-se por simplesmente ver um campo de futebol do outro lado do arame farpado e serem aproximadas, quase que como imãs, tornando-se amigas. Na “casa do Una” (rua 10, chácara 162) tinha um campo de futebol society, alegria da garotada. Para quem arriscava campo profissional tinha a “casa do Hermes” (rua 6, chácara 254), atual Escola de Futebol Furacão (Atlético-PR). Na rua 3, casa do nipo-brasileiro Emílio, jogávamos vôlei numa quadra de areia.

Vejam que interessante: havia um deslocamento rotineiro de jovens por todo o bairro, tudo isso antes do primeiro celular Motorola analógico de números laranjados com carregamento de 12 horas. Orelhão era um na Feira do Produtor, outro no posto da PM da EPTG e um terceiro numa cabine próxima ao posto da PM da Estrutural.

Na Feira do Produtor havia a Festa do Milho, rodeio e outros eventos que atraíam gente de fora de VP. Atualmente, o que mais se aproxima disso é a Festa Junina da Paróquia Nossa Senhora das Vitórias. À exceção do Ranchão (rua 8, chácara 192) e Mansão do Lula (rua 12, chácara 311), e olhe lá, ninguém reclamava do barulho das festas, um alívio para os jovens.

O fato de em VP termos áreas privativas de lazer, seja em casa ou área comum do condomínio, de longe afasta a necessidade de equipamentos públicos necessários à vivência em coletividade. Vejamos o exemplo de Águas Claras: mesmo com áreas privativas, o bairro tem praças e um bom parque. No Plano Piloto, há áreas verdes nas entrequadras, volta e meia disputada por igrejas. o Parque da Cidade ou o Parque Olhos D´Água, este último do tamanho de uma superquadra, fora o fechamento do Eixão aos domingos, representam qualidade de vida. Ainda no Plano, espaços privados como clubes de vizinhança com ampla oferta de atividades para a comunidade seguem esse raciocínio. Em VP, o pouco que se encontra de espaço comunitário é a biblioteca na Administração ou o Tagua Parque, deslocados para os extremos do bairro.

A passagem de área rural para setor de condomínios mudou a relação de crianças e jovens com VP. Hoje em dia, o barulho de caixas de som e conversa em voz alta ou a sujeira de snacks, garrafas de bebidas alcoólicas e bitucas de cigarro nas áreas comuns são alvo de reclamações constantes – e justas – de condôminos. Obviamente essa cena não existia quando vivíamos em chácaras, como não estavam instaladas as câmeras que filmam toda a ação. O bairro cresceu, passou a ter mais jovens e espaços mais fechados.

Lembro que em 2004 organizei num bar o I Orkontro (encontro dos moradores da comunidade Eu moro em Vicente Pires do Orkut). Outros vieram, agora na casa das pessoas. Foi uma ótima experiência que uniu a vontade dos jovens em se encontrar com o início do uso das redes sociais, quase um Tinder coletivo. Nessa época, a linha 946 (Rodoviária do Plano Piloto – Vicente Pires), talvez a primeira do bairro, era famosa pela amizade entre passageiros, conforme noticiou o jornal Correio Braziliense em 04/05/2005. São exemplos do início da transição de um VP rural para urbano.

Quase duas décadas depois, com mais moradores e tecnologia que pode potencializar encontros presenciais, pergunto: a juventude de VP está mais próxima ou distante? Um bar lotado significa que jovens de diferentes condomínios estão se conhecendo ou há um reforço de consolidação das tribos já existentes, por mais que os psicólogos falem que não há contradição nessa pergunta?

A urbanização do bairro com os calçadões é um alento, pois por muito tempo era impossível atividades como caminhada em vias esburacadas e sem calçamento. Observar VP ao final da tarde é perceber que a comunidade clamam por espaços como os PECs (Ponto de Encontro Comunitário). Que esse processo seja acelerado ao invés de pensarmos que essa geração de jovens está perdida para um projeto de direito à cidade, como foi a atual geração de adultos para os governos anteriores. Lutemos por isso.

Recordar é viver!

Será que você também pegava a linha 946? Logo abaixo você lê a reportagem de 04/05/2005 do Correio Braziliense, também disponível em: <https://ayanrafael.files.wordpress.com/2021/03/festanobau.pdf>. Acesso em: 07 dez. 2021.

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Vou te entregar para o conselho tutelar

Artigo de opinião originalmente publicado em Conversa Informal, jornal comunitário do Setor Habitacional Vicente Pires, Região Administrativa XXX do Distrito Federal. Ano 18, n. 02/2021, Disponível em: <https://jornalconversainformal.blogspot.com/2021/02/jornal-conversa-informal-de-fevereiro.html>. Acesso em 07 dez. 2021.

Quem nunca ouviu essa expressão? Bem, talvez idosos ouviram “vou te entregar pro juiz menino custoso”. A frase tem duplo sentido e significa entregar (denunciar) os pais ou responsáveis por maus tratos a criança ou adolescente. Anteriormente, era o juiz da comarca o responsável por acolher esse tipo de demanda, com participação direta – e muitas vezes desastrosa – de agentes de segurança que se achavam xerifes tupiniquins. Felizmente, com a promulgação da Lei 8.069/1990, conhecida como ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), o Art. 227 da Constituição Federal passou a ser cumprido, assegurando deveres não somente à família, mas ao Estado e sociedade.

Os conselhos tutelares do DF são regidos pela Lei n. 5.294/2014 para mandatos de 4 anos, sem restrições para reeleições. Quem organiza o processo de escolha, diplomação e formação continuada é o CDCA/DF (Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente do DF). Há uma Comissão de Ética e Disciplina (Cedicon) que fiscaliza os conselheiros. Cabe ao CT fiscalizar toda e qualquer entidade que trabalhe com crianças e adolescentes, não somente escolas, emitindo atestado de qualidade e eficiência àquelas que necessitarem para fins de registro no CDCA.

Atualmente existem 40 conselhos tutelares no DF, cada um com 5 conselheiros. Cada região administrativa deve ter ao menos um CT e, a cada 100 mil habitantes, é instalada outra unidade com mais 5 conselheiros. Ceilândia, por exemplo, tem 4 conselhos tutelares, ou seja, 20 conselheiros. Em tempo: se há docentes que reclamam de turmas com 30 estudantes, imagine o CT que atende milhares, muitos com demandas que envolvem agir em rede com a assistência social e a saúde.

Vicente Pires não tem semáforos e a mendicância é quase inexistente. Isso não significa que não existam crianças com violação de direitos. O trabalho infantil em atividades rurais ou comércios de pequeno porte é incentivado por discursos do tipo “é melhor do que se estivesse roubando”, mas sabemos que esse argumento é sempre direcionado para os filhos dos pobres. Os filhos da classe média estão na escola, aprendendo outra língua, praticando esportes, realizando cursos, brincando, descansando e realizando outras atividades que os tornarão mais preparados para fazer o ENEM e estudarem nas melhores instituições do país.

Para além do trabalho infantil há denúncias de violência sexual (abuso e exploração) que são praticadas, na maior parte das vezes, por familiares ou amigos próximos. Em contexto de pandemia não é preciso dizer o quanto esse tipo de risco aumenta na mesma proporção que a responsabilidade do CT. Contudo, vale lembrar que o dever de zelar por crianças e adolescentes não é somente da família ou do Estado – aqui representado primeiramente pelo CT –, mas da sociedade.

Num cenário normal, muitas das demandas encaminhadas ao CT vêm de professoras que percebem mudanças no comportamento de crianças: sexualização precoce, introspecção, não socialização, crises de pânico, aprendizado deficitário e até agressividade. Importante dizer que nem profissionais da educação ou da saúde devem fazer qualquer tipo de investigação. A escuta especializada em suspeita de violência sexual contra crianças e adolescentes é feita pelo Centro 18 de Maio (Sejus/GDF) por equipe multiprofissional de assistentes sociais, pedagogos e psicólogos. Mais uma coisa: para quem não sabe, educação sexual nas escolas ajuda a prevenir o abuso.

Um bairro com a estrutura de condomínios horizontais dificulta o trabalho do CT. Daí resulta que é dever da sociedade garantir, com prioridade absoluta, o desenvolvimento integral de crianças e adolescentes. O CT é um importante aliado nessa batalha. E você, conhece o CT de Vicente Pires?

SERVIÇO

Conselho Tutelar de Vicente Pires

Endereço: Rua 12 – condomínio 154/3 – Lote 38

Telefones: (61) 3435-1841 / (61) 3435-1839

e-mail: ctvicentepires@gmail.com

CISDECA – Coordenação do Sistema de Denúncias de Violação de Direitos da Criança e do Adolescente)

Plantão 24 horas: (61) 3213-0657 / (61) 3213-0763

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Educação ambiental para além da escola

Rua 12, em frente ao condomínio 153. Foto de 06/11/2020.

Artigo de opinião originalmente publicado em Conversa Informal, jornal comunitário do Setor Habitacional Vicente Pires, Região Administrativa XXX do Distrito Federal. Ano 18, n. 01/2021. Disponível em: <https://jornalconversainformal.blogspot.com/2021/01/jornal-conversa-informal-de-janeiro-de.html>. Acesso em: 04 dez. 2021.

Escolhi o tema desse texto em 06/11/2020 ao fotografar obras do GDF na rua 12. Era uma escavação com um cinturão de lixo a partir de 3 metros da superfície, confirmando o que é um dos impeditivos para a regularização de Vicente Pires: um lixão subterrâneo! Deixemos a questão fundiária para textos do Gilberto Camargos e Geraldo Oliveira para entender o seguinte: meio ambiente não é só flora e fauna. Formar essa concepção não é tarefa fácil, pois até hoje meio ambiente é visto como sinônimo de natureza. Abordar aspectos da educação ambiental no cotidiano de crianças e jovens têm efeito formador maior do que apenas mostrar Cascão e Cebolinha jogando lixo no chão.

O lixo não some do planeta quando os garis o recolhem da frente de nossos condomínios. Por décadas o lixo do DF era despejado em Vicente Pires: poluição do solo e da água. Hoje somos uma região administrativa e os locais em que materiais descartados eram aterrados deram lugar à casas e prédios com quitinetes. Estes prédios são um problema ambiental para um bairro com saneamento básico e largura das vias públicas despreparados para tamanha pressão demográfica.

Um destes prédios fica num condomínio com um morador que todo fim de semana faz festas com som automotivo, sendo que algumas frequências têm tanta potência que além de importunar pelo barulho fazem disparar o alarme de automóveis no local: poluição sonora! Uma solução seria chamar a polícia, amarrar o cidadão e colocar um fone de ouvido com Cauby Peixoto tocando 10 horas seguidas no volume máximo, mas o problema de base é até clichê: falta de educação (ambiental).

Perto dali há uma loja de informática que descarta chumbo, bário, mercúrio, níquel, manganês e outros metais pesados presentes em eletrônicos no lixo comum. Em tempo: nosso bairro não tem ponto de coleta adequado para esses materiais.

Esta loja de informática fica perto da saída do pistão norte com a Estrutural em que dia desses houve uma colisão de carros causada pela falta de visibilidade por causa de faixas na rotatória: poluição visual. É o mesmo tipo de poluição causada por uma estrutura de madeira próxima à Feira do Produtor e que há mais de um ano prejudica o trânsito no local.

A Feira do Produtor não tem política de coleta seletiva ou reaproveitamento de alimentos para doação à entidades da sociedade civil como instituições de longa permanência, por exemplo. Cada comerciante deve agir por si enquanto as administrações da Feira e da cidade se limitam a cobrar aluguéis e lavar banheiros. Em 2006, ainda discente de graduação da UnB, apresentei à administração da Feira uma proposta de atividades culturais no local que atraísse moradores e permitisse que se conhecessem. Não se interessaram pelo projeto e a Feira do Produtor continua má administrada, sem comunicação institucional ou atrativos que a façam um espaço de encontro dos moradores como em qualquer lugar do mundo. Em outras palavras: um meio ambiente sem diálogo.

Portanto, o meio ambiente não é somente o pantanal ou amazônia pegando fogo. Alterações no meio ambiente mais próximo de nós, como o de nosso bairro, também têm consequências. É papel da escola, mas também da família e da sociedade apontar para si e para as futuras gerações que a educação ambiental se faz nas ações cotidianas: relacionamento com vizinhos, igreja, trabalho, faculdade, escola e o que fazemos diante do material que consumimos. Uma criança do século XX descartava muito menos plástico, papel, vidro e metal do que uma criança do século XXI. O consumismo desenfreado e o direito à cidade no modo de produção capitalista devem ser eixos do debate da educação ambiental na atualidade. Não se trata de proibir atividades comerciais ou festas e sim regulamentá-las para que as regras sejam fiscalizadas por sociedade civil e GDF. Temos um plano de desenvolvimento sustentável para a cidade construído coletivamente por governo e sociedade civil? As escolas de Vicente Pires trabalham com o conceito mais amplo de meio ambiente? São perguntas da educação ambiental que norteiam qual futuro queremos não somente para nós, mas para os que ainda não nasceram. Se optarmos por ignorar essas questões como fizeram as pessoas há 50 anos, o lixo no subsolo, o vizinho barulhento e as faixas na rotatória continuarão a existir, só que com menos possibilidades de remanejamento do problema da frente de nossos olhos. Vicente Pires, local de descarte na década de 1970, tinha menos problemas ambientais naquela época do que tem agora. Trouxemos progresso ou regresso à região? Pensemos nisso!

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