O racismo de Arthur do Val

Arthur do Val e Renan do Santos, do MBL, em viagem à Ucrânia. Imagem: Metrópoles, 14/03/2022.

O início do conflito na Ucrânia revelou o horror de toda guerra: mortes, estupros, aumento do número de órfãos, inflação, miséria, refugiados. A disputa imperialista entre OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e Rússia parecia não ter como piorar, mas sempre há alguém disposto a quebrar paradigmas e dizer “yes, we can” (sim, nós podemos). Dessa vez capricharam na barbárie. O representante da vergonha foi Arthur do Val, também conhecido por “Mamãe Falei”, deputado estadual por São Paulo e membro do MBL (Movimento Brasil Livre ou Meritocracia Bandida Liberalóide, em tradução também livre).

Usando do pretexto de ir à Ucrânia arrecadar dinheiro para ajudar refugiados, Arthur enviou um áudio via Whats App para um grupo de amigos. A mensagem continha todo o tipo de misoginia, preconceito de classe e, o que não foi falado até o momento: racismo!

Numa das frases, Arthur disse que as ucranianas são fáceis porque são pobres. Ora, o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do Brasil é 0,765, ficando na 84ª posição mundial. Por outro lado, o IDH da Ucrânia é 0,779 e está 10 posições à frente de nosso país na escala global. Como podemos ver, a Ucrânia não é tão pobre assim. Se Arthur do Val enxergou pobreza nas ucranianas talvez seja porque, sei lá, elas estavam fugindo de uma guerra! Vamos além: o que não falta em São Paulo são mulheres pobres. Então por que o deputado foi fazer turismo sexual no leste europeu?

Falando em turismo sexual, numa das mensagens Arthur falou que o companheiro de jornada para a Ucrânia, Renan Santos, também do MBL, periodicamente faz uma espécie de “Tour de Blonde”, ou seja, uma viagem pelo mundo para ficar com mulheres loiras. Atenção: “Tour de Blonde” (loira) e não “Tour de Black” (preta). Se você pesquisar “MBL” combinado com “África” no Google a única coisa que vai achar é uma crítica do “movimento” a Nelson Mandela, chamando-o de terrorista. O MBL nunca passou nem de avião pela África, que compõe uma das matrizes de formação do povo brasileiro, mas enxergou na Ucrânia, coincidentemente com mulheres brancas refugiadas, um local para fazer sua ajuda humanitária misturada ao desencargo de consciência burguês. E mais: nos áudios, Arthur disse que um dia voltaria para a região com o intuito de fazer o “Tour de Blonde”.

Logo, importa dizer que o que despertou – e desperta – a lascívia de Arthur foi o fato das ucranianas serem brancas, loiras e de olhos claros. Se em São Paulo as mulheres brancas ou negras, ricas ou pobres conhecem Arthur o suficiente para não lhe falar sequer as horas, na Ucrânia o criminoso conseguiu conversar por mais de um minuto com seu objeto de desejo, ainda que interrompido por tiro, porrada e bomba. É óbvio que o deputado é misógino, que viajou com interesse distinto daquele anunciado nos canais do MBL, que houve evasão de divisas com transferência de dinheiro para a Eslováquia, mas há de se apontar também o componente racista envolvido na questão.

O mundo inteiro olha para a Ucrânia e sente pena, mas Arthur sente tesão. Incapaz de se sensibilizar com a situação das refugiadas, entregando filhos a desconhecidos para que sobrevivam ao conflito, talvez a mente empreendedora de Arthur visse na situação que pode gerar uma guerra mundial a possibilidade de criar uma start up para explorar sexualmente as refugiadas, quem sabe uma produtora de conteúdo pornográfico chamada de “Ucranianinhas” ou algo asqueroso típico da quadrilha do MBL. Na África há vários países com IDH menores que o do Brasil e com mulheres mais pobres do que as ucranianas. Porém, nenhuma delas despertou a libido de Arthur. No interior do Amazonas ou de Goiás, Mamãe Falei não é mais do que uma marchinha de carnaval, mas Arthur nunca cogitou ir ao sertão da Bahia numa fila de 200 pessoas para pegar água no caminhão pipa e chamar as mulheres de deusas. Se a mão do mercado é invisível, o racismo de Arthur é explícito.

Arthur e o MBL são representantes da não-política, do esgoto aberto com parte das manifestações de 2013 e que se consumou no golpe de 2016 em Dilma Roussef. Resta à Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) cassar o mandato do deputado e consequentemente seus direitos políticos por 8 anos. Já começou mal por não ter escolhido uma mulher para a relatoria do caso. Arthur tentará defender o mandato com unhas e dentes. O episódio pode ser a pá de cal no túmulo do MBL. Portanto, que o turismo sexual racista de Arhur não tenha o carimbo da Alesp.

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A mamata real da família virtual portuguesa

Pintura oficial de Dom Pedro II – Wikimedia Commons. Fonte: Aventuras na História (UOL).

Artigo de opinião publicado em Conversa Informal, jornal comunitário do Setor Habitacional Vicente Pires, Região Administrativa XXX do Distrito Federal. Ano 19, n. 03/2022. disponível em: <https://jornalconversainformal.blogspot.com/2022/03/jornal-conversa-informal-de-marco-2022.html>. Acesso em 17 mar. 2022.

Passados 200 anos do grito “independência ou morte” às margens do Riacho do Ipiranga, um mar de lama – e também de mortes – cobre, mais uma vez, a cidade de Petrópolis na região serrana do Rio de Janeiro. O município é conhecido como Cidade Imperial por ter sido um dos locais preferidos de descanso do imperador D. Pedro II. Contudo, Petrópolis também é lembrada pelos sucessivos deslizamentos de terra que ocorrem no período chuvoso. Sempre quando isso ocorre volta à cena o debate sobre a “taxa do príncipe”, ou “taxa do imperador”, ou “taxa dos herdeiros do imperador” ou ainda enfiteuse. Vamos elucidar o que significa esse termo e outros.

Enfiteuse: instituto do direito civil que permite ao proprietário de terras repassá-la à um terceiro (enfiteuta) para uso direto do imóvel (venda, aluguel e hereditariedade). A enfiteuse é executada através da cobrança do foro e do laudêmio.

Foro: aluguel pago anualmente pelo enfiteuta.

Laudêmio: taxa de 2,5% paga toda vez que há transferência da titularidade de enfiteuta.

Pois bem, é meia verdade – e, portanto, meia mentira – que a família real recebe o foro e laudêmio por serem a família real. No século XIX algum membro da família real comprou terras em que hoje se localiza Petrópolis. Com a instituição da República em 1889 a família real foi “indenizada” por meio da enfiteuse. A justificativa para aplicação da enfiteuse, independente de quem a receba, é a de que são terras de difíceis vendas por sua grande extensão ou acesso e que seriam melhor administradas com essa cobrança.

Ora, tentar dar um verniz legal à essa apropriação da família real, igualando-a à um cidadão qualquer que tenha tido suas terras “tomadas” pela República, é algo no mínimo ignorante, senão canalha. A Casa dos Orleans e Bragança fechou os olhos para o tráfico negreiro por quase 4 séculos. D. João VI, antes de retornar à Portugal após Napoleão Bonaparte não ser mais um perigo real, raspou os cofres do Banco do Brasil, recém-criado por ele próprio – com o nosso ouro. A derrama, o quinto e todo metal precioso que existiam nas terras do Novo Mundo e foram usados em igrejas e outros monumentos luxuosos da Europa passaram, grande parte, por Portugal. Os 2 milhões de libras esterlinas pagos à Portugal pelo reconhecimento da independência brasileira, ainda sob o julgo de um imperador português (D. Pedro I) é mais um exemplo da tragicomédia que foi nosso processo de desvinculação da metrópole. Se tem algo que os tataranetos de D. Pedro II não merecem é enfiteuse ou qualquer tipo de reparação por “suas terras”.

Fazendo uma analogia simples, é como se um ladrão tomasse sua casa e roubasse seu dinheiro, passasse 400 anos nela através de seus herdeiros e quando a propriedade fosse reivindicada pelo povo por meio do Estado, os descendentes do invasor reivindicassem direitos. Resumindo: descendentes de colonizadores contra descendentes de colonizados. Sim, deve-se comparar as monarquias da Idade Moderna, absolutistas ou não, constitucionais ou não, à um grupo de invasores. E para quem acha que é legítimo que uma coroa europeia reivindique direito de posse adquiridos antes de 1889, veja o que eles fizeram no processo de neocolonização do século XX na África.

Assim como a África, a América Latina sofre até hoje as consequências de ter sido colônia de exploração do capitalismo europeu. No caso do Brasil, o racismo estrutural, o modelo agroexportador, a proibição de instalação de indústrias, a eugenia promovida com a vinda de imigrantes para a região sul do país, o extermínio dos povos originários e sua cultura, tudo isso é herança que a família real nos deixou. Mas não foi o bastante: acham-se credores e não devedores do Estado brasileiro!

A família real portuguesa sempre quis colocar banca na política brasileira, chegando a patrocinar uma forte campanha pela adoção da monarquia a partir do plebiscito de 1993 no Brasil. Perderam de lavada! Porém, é só aqui que eles têm essa pompa. Em Portugal, a figura do rei ficou para os livros de história e dizer-se descendente de D. Pedro não rende nem mesmo uma selfie em frente à um castelo. Mais cobiçadas são as armaduras de cavaleiros medievais ou o Cristiano Ronaldo. Somente na mentalidade vira-lata e colonialista de alguns brasileiros monarquistas, que inclusive votam em monarquistas para o parlamento de uma república federativa, encontramos terreno fértil para legitimar pagamentos como o foro ou o laudêmio.

Pobre Petrópolis. Rica família virtual portuguesa.

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Já tomou sua vacina?

Charge: Blog do AFTM

Artigo de opinião originalmente publicado em Conversa Informal, jornal comunitário do Setor Habitacional Vicente Pires, Região Administrativa XXX do Distrito Federal. Ano 19, n. 02/2022, disponível em: <https://jornalconversainformal.blogspot.com/2022/02/jornal-conversa-informal-de-fevereiro.html>. Acesso em 20 fev. 2022.

Há 10 anos essa pergunta não faria o menor sentido ou, na pior das hipóteses, não teria o sentido que tem na atualidade. Falo do ano 2022 d.C., caso esse texto lhe chegue em algum momento futuro do século XXI e pareça uma distopia do próximo milênio – se o aquecimento global não nos destruir antes, ainda neste século! É duro de admitir, mas pouco mais de 10 anos do crescimento do pensamento conservador no Brasil foi o suficiente para acabar semanticamente com ditados populares como “eu me governo, sou maior e vacinado”. Quem se arrisca a dizer essa frase pode perceber o receptor ouvindo algo do tipo “sou maior e comunista”. Tristes tempos.

A pergunta do título desse texto tinha vários significantes de sentido claro. Vejamos alguns:

  1. Ao falar “já tomou” não se abre a possibilidade do “nem vou tomar”, mas apenas “já tomei” ou “não tomei porque faltou”. O “já” é um reforço que antecede, caso sua resposta seja negativa, a pergunta “não tomou ainda por quê?”. O natural era duvidar de quem não tomou a vacina e não o contrário.
  2. A utilização do pronome possessivo “sua” dá a ideia de posse. As pessoas falavam “fui tomar minha vacina” e se orgulhavam dela. Os governos não a hesitavam em comprá-las. E quando falo em governos, cito aqui desde o período da República do Café com Leite até 2018, passando inclusive pelo governo militar de 1964 a 1985. Hoje a vacina é da China, dos EUA, da Índia… onde foi parar a NOSSA vacina?
  3. Vacina. Leia pausadamente: va-ci-na. Vacina era algo absolutamente comum na cultura brasileira. Todo mundo com mais de 20 anos (leia novamente, 20 anos, sim, VINTE!) tem uma marca de vacinação no braço e mais uma dezena delas na caderneta de vacinação. De onde tiraram um “virar jacaré” nessa história? Por que as pessoas que desconfiam do Butantan e da Fiocruz não falam nada do ano de 2021 em que o Brasil bateu o recorde de liberação de defensivos agrícolas (leia-se agrotóxicos)?

O que temos de certo até o momento é que em abril de 2021 tivemos 82.266 mortes por Covid no país, média de 2.742 por dia, ao passo que em novembro do mesmo ano a queda no número de óbitos foi de mais de 93%. Os números não são meus, mas do próprio Ministério da Saúde – e olha que há tempos aquilo ali é um bunker de negacionistas, com exceção da maioria dos servidores de carreira. O número de mortes diminuiu ao mesmo tempo em que se aumentou o retorno das atividades presenciais, com abertura de comércio, eventos esportivos e casas de festas.

O que contribuiu para a diminuição das mortes?

Se você acha que a diminuição das mortes é consequência da imunização de rebanho, o que nem o governo ousou dizer, saiba que as internações e mortes voltaram a aumentar com a variante Ômicron. Outro dado: 80% das internações é de quem não está com o esquema vacinal completo.

Chegada a vez das crianças a politização da vacina voltou com mais força. É verdade que o número de crianças que morreu por Covid é pequeno. Contudo, esse número existe e ele é maior se pensarmos no quantitativo de menores de 11 anos com sequelas da doença.

Também se diz que a vacina para Covid foi feita em pouco tempo. Ora, a vacina para H1N1 também não demorou a ser inventada em 2009. Na época ninguém questionava sua eficácia, eficiência ou laboratório que fabricava. Ao invés de brigar com instituições científicas, foram feitas parcerias com laboratórios, ampliado o tempo de atendimento em UBS para vacinação e compra em larga escala do maior número de imunizantes possível.

Outra coisa: desde 2009 todo ano tomamos reforço da vacina contra H1N1. Ninguém questiona os reforços – ou ao menos não questionava! O problema atual nunca foi de confiança em vacina e sim de ações negacionistas do governo que contaminaram parte da população e fizeram doenças que já estavam erradicadas, como o sarampo, voltarem por falta de vacinação.

Dessa forma, tudo o que os responsáveis precisam é de uma orientação clara e uníssona do governo, jamais que alimentem desconfiança em imunizantes. Em resumo: é mais fácil morrer, ter sequelas e mesmo transmitir Covid sem a vacina do que imunizado. Por fim, tenho um conselho se você é contra a vacina porque acha que muda o DNA: aproveita essa chance com todas as forças! Você e o mundo merecem.

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Machismo institucional no socioeducativo do DF

Armandinho — Tirinha original:
Charge: Armandinho

Quase 2 anos de filmagens com mais de 800 vídeos e 500 fotos de servidoras agentes, especialistas e sabe-se lá mais quem que utilizava um dos banheiros femininos da Unidade de Internação de São Sebastião, pertencente ao Sistema Socioeducativo do Distrito Federal. Esses foram os dados levantados preliminarmente pelo portal R7 Brasília sobre o caso do agente socioeducativo Rafael Osvaldo de Carvalho Arantes que instalou uma câmera escondida para filmar mulheres no recinto. Ainda segundo a reportagem, Rafael Arantes teria iniciado as gravações em maio de 2020.

Uma busca rápida no último processo de remanejamento interno da Sejus (Secretaria de Justiça e Cidadania do Distrito Federal) mostra que Arantes começou a trabalhar como agente socioeducativo em 09/12/2019. Isso significa que Arantes arrumou uma forma de rechear sua primeira avaliação de estágio probatório com um PAD em que é acusado de filmar colegas de trabalho mulheres em momentos íntimos e manter, por quase dois anos, a prática criminosa. A lascívia de achar que jamais seria descoberto foi tanta que Arantes permaneceu com a mesma tática sem sequer cogitar que algum dia seria pego.

As informações que circulam nesse 04/02/2022 nos grupos de Whats App dos especialistas socioeducativos e dos próprios agentes são de embrulhar o estômago da frieza machista de Arantes, mas revelam mais que isso. É sabido que o banheiro não fechava a porta corretamente e, mais que isso, volta e meia era utilizado por homens para “lavar as mãos”. Não precisa dizer que as servidoras não lavavam as mãos e tampouco instalaram câmeras no banheiro masculino. Será que o fato de homens frequentarem o banheiro de mulheres é algo comum em outras unidades? Deu até saudade da turma do Escola Sem Partido falando de ideologia de gênero.

Numa sociedade patriarcal que (redundância) privilegia os homens em inúmeras situações, Arantes não se contentou. Talvez pense Arantes que as mulheres são suas, que aqueles corpos lhes pertencem e, como tal, nada há de problemático em filmá-las da forma mais covarde possível. O sujeito era tão canalha que se oferecia para ficar no posto das colegas para que elas tomassem banho, conforme apurou o Metrópoles. Ocorre que Arantes não era alguém que estava de passagem pelo prédio, pediu pra usar o banheiro e instalou a câmera escondida. Arantes é um agente de Estado e seu ato é uma violência institucional, tendo que ser respondida não de forma individualizada e sim pelo Governo do Distrito Federal. A única ação do GDF até momento foi a publicação da Portaria nº 136 de 03/02/2022, publicada na página 43 do DODF nº 25 de 04/02/2022 designando Comissão de Processo Disciplinar para apurar os fatos (Processo SEI nº 00400-00007316/2022-40).

Da vista do ponto do direito administrativo o governo agiu certo, mas ainda falta a resposta política para o ato de machismo institucional. Erick Filippelli, chefe da pasta da Secretaria da Mulher, publicou em seu instagram (@erickafilippelli_) às 14h00 de hoje que “empoderamento é ter poder de escolha”, sem mencionar nada do acontecido. Pois bem secretária, as servidoras do socioeducativo não tiveram muito poder de escolha ao serem filmadas por quase 2 anos por um servidor. Marcela Passamani, chefe da Secretaria de Justiça e Cidadania, a qual está vinculado o socioeducativo do DF, também não se pronunciou*. O site do jornal Metrópoles cita uma resposta da Sejus, mas que até o momento (16h22) não é pública e deve ter sido dirigida somente ao veículo de comunicação.

Por parte das entidades representativas, o Sindsse (Sindicato dos Servidores do Socioeducativo), com agenda sempre lotada mas que no natal, com o devido “espírito cristão”, posta mensagem de boas festas com árvore de natal feita de armas de fogo, não falou uma vírgula em seu site ou redes sociais. Sororidade mesmo somente por parte da AESS (Associação dos Especialistas do Socioeducativo) que fez uma nota chamando a atenção do caso, marcando posição contra o machismo e se solidarizando com as servidoras diante da atitude bárbara pela qual passaram.

Parabéns AESS! Bola fora do Sindsse, Sejus e Semulher.

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NOTA DE SOLIDARIEDADE ÀS AGENTES FEMININAS DO SISTEMA SOCIOEDUCATIVO DO DF

A Associação de Especialistas Socioeducativos – AESS DF, vem a público manifestar sua solidariedade às colegas agentes socioeducativos que mais uma vez sofrem com a cultura da violência contra a mulher e o machismo no ambiente de trabalho.
Repudiamos a atitude criminosa do servidor que instalou câmera em banheiro de uso feminino em uma das Unidades de Internação do Sistema Socioeducativo. É necessária a devida apuração do caso, punição ao violador e reparação às mulheres agredidas.
Nós mulheres, que também somos a maioria no grupo de especialistas socioeducativos, vivemos cotidianamente práticas violentas, agressivas, machistas e preconceituosas em nosso ambiente de trabalho. Temos nossas competências e profissionalismos questionados e agredidos por nossa condição de gênero e isso precisa parar. As mulheres trabalhadoras do sistema socioeducativo merecem respeito e devem ter garantida sua integridade física e psicológica nos espaços laborais.
Violar a intimidade de uma mulher e ainda compartilhar imagens e vídeos de seu corpo pelas redes sociais é uma agressão! Exigimos a punição deste agressor e uma política organizacional que se comprometa com o combate à violência contra mulher, criando e fortalecendo mecanismos, instrumentos e canais de comunicação institucionais que promovam a equidade de gênero e a segurança da mulher em seu ambiente de trabalho.
Agentes femininas do Sistema Socioeducativo do DF, vocês não estão sozinhas neste momento de dor e indignação! A AESS DF reitera sua sororidade a todas as mulheres da socioeducação e se disponibiliza a ajudar no que for preciso.
Atenciosamente,

Luana Regina Euzébia da Silva
Presidente da AESS-DF
(Gestão 2020-2022)

—————————————————————————————————————————–* Atualização Às 17h30 de 04/02/2022 – Segue ótima nota da Subsecretaria do Sistema Socioeducativo, vinculada à Sejus.

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Por que Damares Alves não é presa?

Grupo de evangélicos trabalha para Damares ser vice de Bolsonaro
Imagem: jornal Metrópoles

Que o governo Bolsonaro é ruim não só por causa do presidente e sim pelo conjunto da obra ninguém tem dúvida. O que não se esperava é que o “perfil técnico” do 1º escalão tivesse nível tão baixo – e criminoso! Infelizmente nos acostumamos a assistir ao governo como se fosse mais um episódio da Praça é nossa ou do Teste de Fidelidade do João Kleber, ignorando a responsabilidade que o cargo público requer.

Damares talvez tenha sido a primeira pessoa do governo a inaugurar o que viria a ser o show de horrores da incompetência do executivo federal. Já no dia 02/01/2019, em sua posse como chefe do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos (MMFDH), vociferou “menino veste azul e menina veste rosa”. Nesse tempo de governo disputou o troféu de insanidade mental com gente da pesada como Weintraub no Ministério da Educação (MEC), Ernesto Araújo no Ministério das Relações Exteriores (MRE) e o General Pançuelo no Ministério da Saúde (MS). Contudo, sabendo que não teria lugar sequer como ascensorista num possível governo do lunático e também evangélico Cabo Dacciolo, Damares é a única que continua à frente da pasta e chegou a ser cotada para ser vice de Bolsonaro em 2022.

Vejamos agora a última declaração da ministra, feita em 1º/02/2022:

Talvez alguns de vocês não estejam entendendo a importância disso, uma política pública que está indo para a raiz do problema. Nós vamos falar de erotização precoce. Não vem papai e mamãe jogar no colo do Ministério da Saúde: ‘resolva, a minha filha engravidou’, depois que papai e mamãe deixou sua filha com 8 anos no Tik Tok e vendendo o seu corpo. Uma coisa está muito atrelada a outra. E nós vamos ter que ter a coragem de falar sobre isso. E tinha que ser num governo com compromisso com a infância pra falar sobre isso. E a gente não tá aqui numa guerra religiosa, numa pauta de costumes não. Gravidez precoce é pauta de saúde pública. E quando a gravidez desce pra 14 anos é crime, porque essa criança com menos de 14 anos se está grávida alguém abusou porque no Brasil de hoje sexo com criança com menos de 14 (anos) é estupro de vulnerável.

Melhor seria acreditar que Damares não sabe o que disse, mas depois de tanto tempo fazendo mais do mesmo sabemos que foi mais uma declaração de ódio e de guerra, em especial aos mais pobres, com o adendo de agitar a base radicalizada de Bolsonaro em ano eleitoral. Analisando a frase de Damares, algumas observações e perguntas:

1- Política pública é tudo que o governo não faz, incluindo o ministério de Damares. Em tempo: é o MMFDH o responsável por fazer, mais até do que o Ministério da Saúde, atividades que visem debater gravidez na adolescência. E aqui digo os adolescentes porque a política não pode ser somente para as adolescentes: esse é um debate necessariamente de gênero. A única ação do MMFDH foi a campanha ““Adolescência primeiro, gravidez depois – tudo tem o seu tempo”, lançada em 03/02/2020. No evento de lançamento da campanha que, como tudo no governo Bolsonaro, não foi pra frente (ainda bem!), estava o então ministro Luiz Henrique Mandetta, atual terceira via ao Planalto com menos de 1% dos votos – ou seja, na margem de erro empatado comigo e provavelmente com você que me lê, mesmo que nossos nomes não apareçam na pesquisa estimulada. O que fez o MMFDH para levar o tema aos conselheiros tutelares, por exemplo?

2- Se a raiz do problema é o Tik Tok, qual vai ser a política pública anunciada por Damares? Proibir o Tik Tok como quis fazer Donald Trump nas eleições de 2020, ao ter um evento de campanha trollado por apoiadores de Joe Biden que se inscreveram para o comício e não apareceram? No Facebook, Instagram, Youtube, Whats App, Telegram ou outros meios as crianças de 8 anos não podem fazer dança? Não há erotização infantil? Por que Damares falou somente do Tik Tok, “curiosamente” de todos o único aplicativo chinês?

3- Existia pedofilia e outras formas de violência sexual antes de 2016, ano de criação do Tik Tok? As alterações no Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/1990) feitas pela lei 12.015/2009 não pensaram na internet como meio para se potencializar a violência sexual contra crianças de 8 anos? O ex-senador e pastor Magno Malta (ES), responsável pela indicação de Damares e por conseguinte pela paralisação total de políticas para a primeira infância pós 2019, não se movimentou para termos uma internet segura quando presidiu a CPI da Pedofilia em 2008?

4- Pode agente de Estado, do técnico de enfermagem ao ministro, responsabilizar pais e mães pela gravidez precoce com o agravante do MMFDH ser apenas o curral eleitoral de indicados políticos de vendilhões do tempo e do finado Olavo de Carvalho, dando visibilidade para grupos como “Os 300 do Brasil” que só existiriam em uma série de comédia pastelão da Netflix?

5- Dentre os tipos de violência sexual, pior que o abuso é a exploração sexual na qual se encaixa o “vender o corpo”. Vamos lá: só existe venda se houver necessariamente produto/serviço e comprador. Se alguém com menos de 14 anos não pode dar consentimento para relação sexual, o que dizer de uma criança de 8 anos vender o corpo na internet? O que fez o MMFDH para coibir a violência sexual, em especial com crianças e adolescentes? Quais pesquisas foram publicadas? O recurso para essas pesquisas que balizam a ação de outros órgãos de Estado aumentaram ou diminuíram? Quanto? Onde está o “compromisso do governo com a infância” dito por Damares?

6- Se gravidez precoce é pauta de saúde pública e sabendo que os casos de abuso têm. em geral, caráter intrafamiliar, no contexto de pandemia e aulas remotas, o que fez o MMFDH ou o MS para fomentar o debate sobre gravidez precoce na sociedade? Quais materiais chegaram nas escolas? Aliás: falar sobre gravidez precoce pra criança é uma questão de saúde pública ou ideologia de gênero, como diz o Malafaia e como segue o órgão que preside?

7- Após tanto atacar professoras e transformar a escola, ambiente de diálogo, em campo de batalha de pauta de costume e guerra religiosa, qual o balanço do governo? Foi positivo dizer que debater gravidez precoce nos bancos escolares estimula o sexo? O governo avalia que se professoras continuassem a desenvolver projetos sobre gravidez precoce os números seriam maiores, como na época em que de fato faziam isso e as adolescentes engravidavam depois dos 14 anos?

8- Se uma pessoa do sexo feminino de 8, 14 ou 30 anos estiver nua e gritando para ser engravidada, num matagal escuro ou na cama de casa, tal fato só ocorrerá se com penetração. Sim Damares, não foi a cegonha: seus pais transavam como pessoas de qualquer orientação sexual ou identidade de gênero. Por que Damares culpou crianças, papais, mamães, Tik Tok e nada fala da cultura patriarcal de “usar dinheiro de auxílio moradia para comer gente”?

9- Por que a justiça brasileira, tão rápida para condenar pobres em quaisquer ações que sejam, finge que o que ocorreu com Damares é apenas opinião?

10- Por que Damares não volta pra goiabeira onde viu Jesus e nos faz o favor de deixar as crianças brasileiras longe de seu “ódio do bem”?

Por fim, um novo novo versículo após a entrada dos “cristãos pela tortura” para a política institucional: conhecereis a Damares e a verdade não conhecerás!

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Administrador de Vicente Pires é gente da gente

imagens: Facebook e DM do instragam @ayanrafael em 25/01/2022

No dia 25/01/2022 postei sobre a faixa em frente à UPA de Vicente Pires e sua relação com a precarização do Estado. Essa precarização se dá ao transformar cargos que deveriam ser de servidores concursados, senão ao menos técnicos, no cabide de empregos que caracteriza não só a administração de Vicente Pires, mas de todas regiões do Distrito Federal.

Pois bem, o administrador Daniel de Castro arrumou um tempinho em sua turbulenta agenda de autopromoção no Tik Tok e me mandou uma DM (mensagem direta, em internetês) no Instagram, explicando o equívoco de meu post sobre a faixa.

Diz o administrador que não tem puxa-saco porque não precisa. Ele está correto! Tanto é verdade que qualquer servidor público de carreira abriria mão da estabilidade e do nome limpo para passar a ser um servidor privado e acompanhar o administrador em devaneios patrimonialistas que só o Ministério Público não vê.

Ponto para Daniel de Castro!

Na sequência o administrador afirma que as faixas não foram feitas pela administração e sim pela comunidade querendo agradar. Aqui peço licença para falarmos sobre o conceito de especialização em economia.

Esse conceito diz que o custo de oportunidade para um produtor de leite construir uma casa é maior do que o de um pedreiro, que já tem o conhecimento e ferramentas para isso. Logo, seria mais interessante para o produtor de leite deixar que o pedreiro faça a casa e em troca lhe ofereça leite ou, como é mais comum, dinheiro, aumentando as possibilidades de “compra” desse pedreiro pelo que ele quiser sem fazer permuta com produtos ou serviços. Em resumo: a especialização padroniza os resultados em um nível maior de eficiência.

Mas por que falei isso?

Pois bem, ocorre que as faixas de agradecimento ao administrador e governo não estão apenas em frente à UPA, mas em todo bairro. Por mais simples que possa parecer, nem todos moradores de VP sabem fazer uma faixa ou tem os materiais para isso, ou seja, o custo de oportunidade é maior para a comunidade. Assim, pessoas dos 4 cantos de uma comunidade de 80 mil pessoas se reuniram e fizeram as faixas todas no mesmo lugar e com o mesmo profissional, conforme averiguado pela escrita com fonte painter´s hand.

Você duvida?

Faça o teste e veja que as faixas distribuídas por quilômetros são todas iguais. Coincidência assim só mesmo o conteúdo e imagens que saem nas redes sociais da Administração de Vicente Pires ao mesmo tempo em que são publicadas nas redes sociais particulares de Daniel de Castro.

Outro ponto para nosso Toninho Pop de Vicente Pires!

Mas aí vem o fim com a frase “ESSE se chama honra para seu conhecimento”. Bem, semanticamente honra e faixas não tem nada a ver, menos ainda quando se sabe o nível de assédio moral que ocorre em administrações regionais com funcionários indicados pelo tio da sobrinha da Dolores da igreja da irmã da Dona Nena que nos apoia no bairro tal. O administrador, pastor, digital influencer, BBB 23 e linguista Daniel de Castro conseguiu, em poucas linhas, cometer erros do nível da faixa que está na UPA. Foi aí, nesse momento que a certeza veio à tona:

AS FAIXAS FORAM FEITAS DE PRÓPRIO PUNHO POR DANIEL DE CASTRO!

Como numa releitura do filme Eu, eu mesmo e Irene (2000), Daniel de Castro reinterpreta Jim Carrey (O Máscara) e faz o papel do religioso pai de família trabalhador que tira foto sem máscara com a família na inauguração da UPA em meio ao avanço da Ômicron e, ao esquecer de tomar seus remédios, transforma-se no xerife do Velho Vicente Pires querendo intimidar publicações de moradores.

Sim, Daniel de Castro é gente da comunidade querendo agradar. Nesse você pode confiar.

A paz ao senhor, pastor.

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Publicidade infantil

Charge: Armandinho

Artigo de opinião originalmente publicado em Conversa Informal, jornal comunitário do Setor Habitacional Vicente Pires, Região Administrativa XXX do Distrito Federal. Ano 19, n. 01/2022, disponível em: <https://jornalconversainformal.blogspot.com/2022/01/conversa-informal-de-janeiro-2022.html>. Acesso em 28 jan. 2022.

Se você viveu a década de 1980/90 sabe que tão certo quanto a novela após o Jornal Nacional eram as propagandas de brinquedos na TV. Estrela, Grow e outras empresas anunciavam nos caríssimos intervalos comerciais buscando vender o macaco Murfy, os Comando em ação, a “nova” Barbie que só mudava a roupa e os bonecos dos signos dos Cavaleiros do Zodíaco. Paralelamente, outro tipo eficiente de publicidade infantil foi a vinculação de brinquedos à lanches de fast food, como é tradição do Mc Donald´s. Em ambos, o mesmo problema: publicidade infantil visando o consumismo inconsequente.

O fato é que o século XXI mudou a relação do marketing das empresas de brinquedos com as crianças. É verdade que não foram somente os brinquedos que sofreram mudança na forma de divulgação do produto, mas ao menos nesse segmento observa-se um fator peculiar: os consumidores – e sobretudo seus pais – tornaram-se o principal vetor de propaganda. A boneca Baby Alive, que detém a preferência das crianças, coleciona vídeos feitos por mães que ganham em permuta com produtos, financeirização do canal pelo Youtube e sobretudo dinheiro, muito dinheiro.

O céu é o limite em contratos obviamente não divulgados que projetam os brinquedos mais até do que os sites oficiais das empresas. De antemão peço perdão pela propaganda, mas é preciso algumas nomeações para que a pessoa que ler essa matéria possa ratificar a pesquisa. Os dados foram coletados no Youtube em 21/12/2021.

A gigante da produção de brinquedos Estrela possui canal com 111 mil inscritos e o vídeo mais popular, que apresenta a boneca da personagem do desenho Show da Luna, possui 7,1 milhões de visualizações. O canal Grow Jogos e Brinquedos possui pouco mais de 2 mil inscritos e o vídeo mais popular, que ensina a jogar War, possui 247 mil visualizações. Achou muito? Pois saiba que não fazem cócegas em vídeos independentes – ou quase – feitos por pais de crianças.

O canal Miss Gaby e Família possui 3,11 milhões de inscritos e o vídeo mais popular, Festa de Aniversário da Galinha Pintadinha, 147 milhões de visualizações. A Mattel, que produz a Barbie e brinquedos da série Toy Story tem 232 mil inscritos no canal e o vídeo mais popular tem 24 milhões de visualizações. Adiante, a Hasbro, fabricante da Baby Alive, tem 4,91 milhões de seguidores no canal, sendo o vídeo mais visto o do brinquedo Espuma Boom com 68 milhões de visualizações.

Certamente não se deve apenas descrever esses dados, mas trabalhá-los dialeticamente com a legislação brasileira sobre publicidade infantil, em especial a Resolução nº 163/2014 do CONANDA (Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente). Não é tão difícil o Ministério Público entrar com uma ação contra o Mc Donald´s por associar a venda de lanche ao brinquedo de um filme que esteja em cartaz. Contudo, a partir do momento que não é mais empresa e sim consumidores que fazem propaganda, sendo alguns deles crianças, a questão fica complexa.

Há quem enxergue normalidade na publicidade infantil a ponto de acreditar que o mercado irá regular esses vídeos de forma natural, o que é pernicioso a quem compreende crianças como sujeitos em desenvolvimento e que precisam de proteção. Por outro lado, há quem se aproveite para inserir um jabuti no debate e defender censura, alegando que vídeos de classificação indicativa livre devem respeitar os valores da família tradicional. É aí que deve entrar o Estado como instituição reguladora, coibindo o ímpeto abusivo das empresas que agora agem via clientes para tentar driblar a proteção às crianças, bem como os que se julgam arautos da moralidade para propagar seu ódio em forma de culto.

Portanto, embora não seja tarefa simples, é necessário que a sociedade (incluindo crianças e adolescentes), as empresas de brinquedos e o Estado constituam espaços de debate para que a internet não seja uma terra sem lei, um ambiente tóxico em que o lucro defina o conteúdo dos vídeos na web. Brincar é um direito de cada infante e se é deturpado pelo consumismo, sendo incentivado por quem deveria exercer o acolhimento, que são os pais, então o conceito se esvaiu no número de visualizações.

E você? Já parou para pensar se o conteúdo que as crianças sob sua responsabilidade veem no Youtube são seguros para a idade delas? São apenas vídeos de brincadeiras ou que as tornarão adultos imaturos e inconsequentes em relação ao consumo? Vamos refletir sobre o assunto?

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Quem precisa de professoras?

Encontro debate práticas de sala de aula
Imagem: Nova Escola

Artigo de opinião originalmente publicado em Conversa Informal, jornal comunitário do Setor Habitacional Vicente Pires, Região Administrativa XXX do Distrito Federal. Ano 18, n. 10/2021, Disponível em: <https://jornalconversainformal.blogspot.com/2021/10/conversa-informal-de-outubro-2021.html>. Acesso em 08 dez. 2021.

O título tem duas provocações necessárias: afinal, quem precisa de professoras no mundo pós-moderno em que opinião e fato são colocados como sinônimos? A pergunta traz em si parte da resposta ao negar que fato e opinião são a mesma coisa. Explico: qualquer pessoa pode ter a opinião de que a ditadura militar no Brasil foi boa ou ruim, mas nenhuma delas pode negar o fato de que houve repressão e abusos de toda sorte por parte do Estado.

As provas para tal afirmação são fartas: em 1964 não se viram estudantes com seus fusquinhas cercando o Congresso Nacional e sim os tanques das Forças Armadas. Adiante, não há absolutamente nenhum relato de jornalistas torturando mulheres de militares colocando ratos em suas vaginas, como fez o finado coronel Ustra com seus adversários. Nem mesmo o sequestro do embaixador Charles Elbrick muda o resultado de qualquer história que seja contada sobre o massacre do Estado nos protestos contra os militares. Para quem duvida é só ver as imagens produzidas pela imprensa da época, mesmo com a censura.

Vamos despir um pouco a educação brasileira.

Dados do Censo Escolar 2020 revelam que professoras ganham em média 12% a menos que professores. Isso ocorre porque a maior parte delas está na educação infantil e ensino fundamental que, por lei, são competências dos municípios e estes, por sua vez, têm menos receita que os estados, estes últimos responsáveis pelo ensino médio. Em contrapartida, na França, a nata da profissão que atua na educação básica (maiores titulações) concentra-se na educação infantil. Esse dado certamente corrobora para os bons índices educacionais de franceses e outros países europeus como Finlândia, um dos que mais investem em educação no globo.

Há um provérbio africano que diz: “é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”. Na prática a frase assusta economistas que se aventuram a opinar em educação mesmo sem nunca ter pisado numa escola pública. Isso porque, se interpretada como de fato é – veja, fato, não opinião –, a frase justifica que educação é um processo necessariamente coletivo. Paulo Freire, que lecionou na África e se vivo completaria 100 anos em setembro desse ano, colocou na prática esse ensinamento. De outro lado, as fundações ligadas a bancos que gostam de aparecer como mecenas vêem com maus olhos gastos em educação que não sejam para uma formação tecnicista. Em outras palavras, reescreveriam o ditado assim: “é preciso somente um professor para educar uma aldeia inteira”.

E quais as consequências de uma nação com poucas professoras?

Para a profissional os desdobramentos são maior relação aluno/docente com consequente prejuízo à qualidade de vida da professora e turma. O plano de saúde da professora todo mundo já conhece: segue readaptada pra secretaria ou pra xerox da escola sem direito à um acompanhamento digno de políticas públicas de saúde e assistência social. Para o Brasil, uma população facilmente manipulável e que age com raiva acima de tudo e de todos, enxergando nos sites patrocinados por empresários corruptos uma teoria da conspiração sem pé nem cabeça deforma qualquer tentativa de construção coletiva do conhecimento.

Sim, o que estou dizendo é que a polarização política na atual conjuntura brasileira é um produto direto do fracasso de nosso modelo educacional cartesiano, ou seja, Paulo Freire não tem nada a ver com isso. Não nos reconhecemos enquanto povo e sim como adversários, inimigos a serem derrotados qualquer que seja o preço e propícios à divulgação de fake news dado a sua baixa capacidade interpretativa. A negação de que a ditadura militar no Brasil foi um escárnio só é possível porque em algum momento os espaços de debate foram censurados, do grupo de Whats App Caso ainda não tenha percebido, a segunda provocação do título diz respeito ao gênero: falar de docência em nosso país é falar de mulheres. De cada dez docentes no Brasil, oito são mulheres. Logo, não serei a pessoa que irá utilizar um argumento aparentemente técnico para ignorar que a gramática foi construída por uma visão patriarcal. Libertemos e exercitemos: feliz Dia das Professoras nesse 15 de outubro!

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Obscena é a fome!

Catadores sobre maciço de lixo na Estrutural — Foto: Marília Marques/G1
Catadores no antigo Lixão da Estrutural, DF, o maio da América Latina. Imagem: G1.

Artigo de opinião originalmente publicado em Conversa Informal, jornal comunitário do Setor Habitacional Vicente Pires, Região Administrativa XXX do Distrito Federal. Ano 18, n. 11/2021, Disponível em: <https://jornalconversainformal.blogspot.com/2021/11/jornal-conversa-informal-de-novembro.html>. Acesso em 08 dez. 2021.

Uma vez na adolescência, viajando com meu pai, pedi que ele parasse o carro porque estava com fome. Ele me disse que pararia, mas ressaltou que o que eu sentia era vontade de comer, algo diferente de fome, que nunca passei. Perguntar não ofende: você difere fome de vontade de comer?

É notório o aumento do número de pessoas em Vicente Pires revirando lixo. Porém, se antes eram apenas catadores de materiais recicláveis, hoje somam-se pessoas que não tem o que comer. Enxergam, portanto, o óbvio: chegar antes do caminhão do SLU (Serviço de Limpeza Urbana) e, dessa forma, aproveitar melhor restos de alimentos que descartamos no lixo doméstico.

O Brasil alimentou 1 bilhão de pessoas em 2020. Ainda naquele ano 10 milhões de habitantes passaram fome, sendo que o número dobrou em 2021. Vale notar que esse dado é apenas de alimentos, deixando de fora grãos que são exportados para fins de ração animal como parte da soja. Outra observação importante é que entre a população que passa fome e a que se alimenta adequadamente há um número ainda maior na categoria insegurança alimentar, ou seja, pessoas que não acessam regularmente alimentos em qualidade e quantidade suficiente para a sobrevivência.

A pandemia de Covid-19 acelerou o aumento do desemprego e a perda de massa salarial atingindo quem não tem dinheiro para investir em paraísos fiscais e lucrar com a alta do dólar. Foi assim que o termo “fila do osso” se tornou familiar para os mais pobres. Carne passou a ser artigo tão comum como bacalhau da Noruega nas menores rendas. A crise econômica agravada pela crise política não dá sinais de término e os investimentos que poderiam trazer trabalho e renda ficam cada vez mais longe. Em resumo, não há solução a curto prazo para o número de miseráveis que avançam sobre os contêineres de lixo.

O geógrafo, médico e nutrólogo brasileiro Josué de Castro que presidiu a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) entre 1952 e 1956 e foi quatro vezes indicado ao Prêmio Nobel da Paz tem uma frase que continua atual: o problema da fome não é a seca, mas a cerca. Ora, se podemos alimentar 1 bilhão de pessoas, podemos alimentar 20% desse montante – contando do brasileiro mais pobre ao mais rico. A questão é que latifundiários não cumprem a função social da terra, uma obrigação constitucional. A desapropriação não é feita pelas autoridades competentes até porque parte dela é dona da terra. Contudo, ainda que considerando todo o embasamento legal em prol da especulação imobiliária rural, vejamos algumas soluções reformistas (portanto liberais) para mitigar a fome no Brasil.

O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) é uma alternativa em que o governo compra a produção da agricultura familiar e distribui para quem não pode pagar. O aumento do investimento no Pronaf (Programa de Apoio ao Agricultor Familiar) é outra ideia, com subsídio de bancos públicos aos pequenos agricultores para compra de insumos agrícolas à juros menores que os de mercado. Para quem acha que o governo não tem dinheiro para bancar os dois programas e outros do gênero, saiba que medidas conhecidas como incentivo fiscal já são aplicadas para grandes ruralistas. É verdade que a participação do agronegócio no PIB é de quase 30%, mas a contrapartida exigida dos latifundiários é irrisória e gera uma distribuição de renda que explica em parte a fome no Brasil. É o Estado máximo para o capital e o Estado mínimo para os direitos sociais.

Adiante, o problema do Brasil não é a carga tributária e sim o retorno que se tem dos serviços públicos. Explico: o Brasil é a 12ª economia mundial e a Suécia é a 23ª, ao passo que a carga tributária brasileira é de 35% e a sueca de 43%. Não há protestos nas ruas da Suécia para que o governo aumente o PIB ou corte impostos, tampouco quem considere a rainha sueca uma comunista. Como dizia Betinho: um país não muda pela sua economia, sua política e nem mesmo sua ciência; muda sim pela sua cultura Ler a conjuntura política é fundamental para que não se individualize questão social tão séria quanto a fome. Dizer que alguém não quer trabalhar porque prefere buscar a alimentação em meio à resto de fezes, sangue e outros rejeitos domiciliares é assinar atestado de falta de empatia, com o agravante da pérola por vezes ser dita por quem se apresenta cristão. Nisso José Saramago é taxativo: obscena é a fome.

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Invasores de direito

Imagem: Blog http://www.nanihumor.com

Artigo de opinião originalmente publicado em Conversa Informal, jornal comunitário do Setor Habitacional Vicente Pires, Região Administrativa XXX do Distrito Federal. Ano 18, n. 09/2021, Disponível em: <https://jornalconversainformal.blogspot.com/2021/09/jornal-conversa-informal-de-setembro.html>. Acesso em 08 dez. 2021.

Vocês estão acostumados a ler aqui no Conversa Informal sobre regularização fundiária e a história de Vicente Pires. Porém, vou juntar os dois temas para ferir o ego de algumas pessoas que, obviamente, nunca quiseram falar sobre como foi o processo para começarem a morar em VP quando a região deixou de ser área rural e passou a ser um setor habitacional de condomínios horizontais – ou um pouco depois no caso de compradores dos primeiros compradores. Todos temos um vizinho desses.

Ao contrário do que dizem alguns emergentes que desejam morar em VP, nosso bairro jamais foi invasão. A maior parte dos chacareiros tinha posse em outro local do DF que foi solicitado pelo governo e, assim, surgiu a indenização em terrenos de 30.000m². É óbvio que ninguém invadiria terrenos tão grandes e próximos do centro da capital federal e aqui permaneceria sem uma ação de despejo por parte do poder público, mas é preciso que se escreva com todas as letras para que fique bem claro.

Pois bem, os antigos chacareiros de VP tinham a posse das chácaras sem poder fracioná-las. A fórmula de uso estipulada pela Fundação Zoobotânica era a seguinte: 30% para moradia/lazer e 70% para produção agrícola. Dessa forma, quando em 1997 o então governador Cristovam Buarque desocupou milhares de barracos na Estrutural e prometeu fazer o mesmo com os chacareiros de VP foi o ápice de venda de chácaras pelos chacareiros. Note: eu falei venda de chácaras e não de lotes pelos chacareiros, esta última proibida legalmente. Enfim, todos sabiam que a indenização seria outra desvalorização do patrimônio, como já ocorrido na primeira vez na década de 1980.

É aí que entram os corretores de imóveis comprando chácaras inteiras e prometendo pagar com a venda dos lotes. Entre idas e vindas de derrubadas e pagamentos de propinas para fiscais nos governos Cristovam, Roriz I, Roriz II – A vingança final, Arruda, Agnelo e até Rollemberg como foi o caso da chácara 200, os corretores sumiam com o pouco que conseguiam de pagamentos desses lotes vendidos. Muitos chacareiros, percebendo a movimentação típica de malandro desses corretores, quiseram desfazer o negócio e passaram a vender por conta própria, recebendo mais frequentemente a visita de fiscais a partir de então. O resultado disso foram chacareiros que não ganharam sequer metade do valor de venda da chácara com vizinhos caloteiros e, não obstante, ditando regras nos recém-criados estatutos, convenções e demais instrumentos legais do tipo que os narizes empinados da classe média adoram mais do que parcela da CVC.

E foi desse jeito que nasceram os invasores de direito. São pessoas que não pagaram pelo lote justificando que se é terra pública então só tomaram a parte que lhes era devida. Também há os que compraram o lote, com ou sem casa, de quem não pagou o corretor. Os primeiros compradores/caloteiros se mandaram enquanto era tempo, deixando de espólio alguém que pagou um valor bem menor e nem desconfia de onde veio o “desconto”. Com documentação frágil do tipo cessão de posse de direitos, o final da década de 1990 foi um profícuo encontro entre corretores e compradores que fizeram qualquer coisa, menos cumprir o contrato que não existia – e não poderia existir – com os chacareiros. E ninguém pode reclamar de um contrato que não existe não é mesmo? Outra que ouvi de um corretor: chapéu de otário é marreta! Tenho amigos filhos de chacareiros que até hoje são inconformados com o golpe que seus pais levaram e tentam encontrar o corretor para cobrar satisfações. Perda de tempo! Melhor para a saúde mental esquecer de tudo isso e tocar a vida pra frente. É injusto? Sim, é claro que é. Mas cada um tem que saber lidar com isso. Como filho de chacareiro, o caminho que encontrei foi duas décadas depois de tudo escrever em um dos jornais comunitários da cidade para dizer aos invasores de direito que de fato não posso fazer nada, mas sei quem são e o que fizeram no verão passado. E acreditem: isso é o bastante para lhes colocar em seu devido lugar.

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