3 lições sobre a greve dos servidores da limpeza

No dia 15 de Agosto de 2017 a greve dos servidores da limpeza de escolas do Distrito Federal, dentre outros locais, completou uma semana. A empresa que contrata os terceirizados, Juiz de Fora, alega ter solicitado empréstimo junto ao BRB (Banco de Brasília) para pagar funcionários. Por sua vez, o GDF afirma ter depositado cerca de seis milhões na conta da empresa para pagar atrasados de maio e metade de junho. Podemos ver três lições em relação ao ocorrido: a importância do trabalho não intelectual na estrutura das escolas, a invisibilidade social destes trabalhadores e, por fim, a falta de identidade de classe dos professores com servidores não docentes.

  1. Condições sanitárias de trabalho, embora esquecidas atualmente, já foram uma das principais pautas de ação sindical no início do século XX. Das ruas sombrias de Londres às fábricas têxteis de São Paulo, a organização do trabalho – ou melhor, do trabalho social – frente ao sistema produtivo capitalista impunha uma queda de braço constante entre patrões e empregados. Com o advento do fordismo/taylorismo na década de 1930 e o toyotismo na década de 1990, trabalhadores não intelectuais foram os principais alvos de substituição de mão-de-obra por estruturas mecanizadas ou rearranjos administrativos que sobrecarregavam os que não eram demitidos. A mecanização do campo que acelerou o êxodo rural de 1950 no Brasil era uma breve amostra do que estava por vir. Políticas de desvalorização salarial, dentre outras retiradas de direitos, tornaram-se comuns nesse meio. Pois bem, foi necessário que funcionários da limpeza iniciassem um movimento paredista para que se percebesse que eles existem e fazem um trabalho importante como qualquer outro nas escolas.

Logo, a invisibilidade social destes servidores é latente, a ponto de sequer sabermos seus nomes, uma das coisas mais básicas da condição humana. Quando um professor é substituído por outro, é notável. Quando um servidor da secretaria é substituído por outro também se percebe com facilidade. Contudo, a permuta de servidores da limpeza, cozinha ou segurança parece não fazer parte do sentido de ausência de professores. Tanto é verdade que entre uma greve e outra podem passar dezenas de servidores da limpeza por uma escola, mas os professores só irão lembrar que eles estão lá quando os mesmos deixarem de limpar a sala ou fazer o lanche. A invisibilidade social, catalisada por uma falsa sensação de classe média que muitos professores do DF têm, corrobora a tese da precarização do trabalho por pares na educação. O corporativismo, aqui também, mostra suas garras e sufoca, por dentro, a greve deste importante setor das escolas.

Não obstante, não ter identidade de classe é um gargalo histórico e que cobra o seu preço ao longo da história. Na reportagem do DF TV 2ª Edição desta terça-feira, 15/08/2017 (para ver clique aqui!), uma professora grávida de 8 meses aparece limpando sala da Escola Classe 5 do Guará, falando que os alunos não podem ficar sem aula ou em sala suja. Ora, esse é um dos menores problemas frente à ação da professora. Imaginemos então que quando os professores entrarem de greve o GDF irá substituí-los por professores de contrato temporário ou outra modalidade que esteja por vir, esvaziando física e politicamente o espaço de combate que temos com o governo? Infelizmente, por não se perceber como integrante da mesma classe social que o servidor da limpeza, o professor se propõe a realizar o trabalho dos servidores, fortalecendo ainda mais o governo corrupto de Rollemberg que não fez absolutamente nada pela educação. Sabe o exemplo do empresário que economiza demitindo a copeira e pedindo pra secretária “fazer um cafezinho rápido”, assim, no diminutivo, pra não parecer trabalho? Pois é, somos nós, professores, carregando o gene do opressor.

Portanto, para apoiar a greve dos servidores da limpeza é preciso conhecer seus nomes, tratá-lo com respeito e acima de tudo não querer substituir, nem por uma tarde, seu trabalho. Ao varrer a sala ou realizar outras atividades do tipo fazemos com que os servidores fiquem reféns das negociações com o GDF, pois o professor, que não é pago sequer como docente, acumula a função de servidor da limpeza. Bater palmas para estas ações é o primeiro passo para afirmar “para quê serve Conselho de Classe”, com o Alexandre Garcia a tiracolo. O fato dos professores não discutirem formação política em sua formação inicial ou continuada condiciona mais reportagens como as que apareceram no DF TV 2ª edição.

Sobre ayanrafael

Pedagogo, Assistente Social e Mestre em Educação pela Universidade de Brasília. Trabalhou como técnico-administrativo na Universidade de Brasília, como Professor de Atividades da SEEDF (Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal) e atualmente é Especialista Socioeducativo - Pedagogo na Secretaria de Estado de Justiça e Cidadania do Distrito Federal, no Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente (CDCA/DF).
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