MEC: Ministério da Enrolação e Corrupção

Bolsonaro e o ex-ministro da educação, Milton Ribeiro. Fonte: Brasil de Fato.

Artigo de opinião originalmente publicado em Conversa Informal, jornal comunitário do Setor Habitacional Vicente Pires, Região Administrativa XXX do Distrito Federal. Ano 19, n. 06/2022, p. 7. disponível em: <https://jornalconversainformal.blogspot.com/2022/06/jornal-conversa-informal-junho-2022.html>. Acesso em 18 jun. 2022.

Se tem algo que está parado no país desde 2019 é o MEC (Ministério da Educação). Não acredita? Eis a prova: entre em www.mec.gov.br e veja quais resultados a pasta apresenta. Pode ser em qualquer área: alfabetização, educação indígena, quilombola, educação no(do) campo, ensino especial, intercâmbio universitário, formação de professores da educação básica ou superior, novos campi de universidades ou institutos federais, fomento à pesquisa, hospitais universitários, IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), transporte escolar, acessibilidade… a lista é grande! Nada, absolutamente nada funciona no MEC a não ser a briga de militares contra olavistas.

A agonia começou com o terraplanista Ricardo Vélez Rodriguez (01/01/2019 a 08/04/2019), que pediu para escolas enviarem vídeos de estudantes cantando o hino e foi empurrado ladeira abaixo pela caserna. Pode rir, a piada é essa! Só Gustavo Bebianno foi ministro por menos tempo que Vélez.

Em seguida veio Abraham Weintraub (09/04/2019 – 19/06/2020), famoso por fazer vídeos tentando imitar Chaplin e contingenciar verba das universidades. Tentou criar o Future-se, programa que lançou as universidades à própria sorte na captação de recursos para pesquisa. Graças à Deusa foi mais um projeto fracassado e Weintraub saiu fugido do país em avião da Força Aérea Brasileira para Miami e treme só de ouvir “Xandão do STF” no Whats App.

Em 20/06/2020 foi nomeado Carlos Decotelli – o Breve, que renunciou 5 dias depois sem ter tomado posse sob mentira de que teria estudado em Harvard. Vejam só, a julgar por Decotelli, é mais fácil ser ministro da educação do que estudar em Harvard. Bem, quase isso: Paulo Freire nunca foi ministro, mas lecionou em Harvard e recebeu o título de doutor honoris causa da instituição.

O mais duradouro foi Milton Ribeiro (16/07/2020 – 28/03/2022). Pastor presbiteriano e ex-reitor da Mackenzie, popularizou-se pelas falas desrespeitosas contra professores, estudantes com deficiência e homossexuais. Acreditava que a universidade era para poucos e que o fato de engenheiros dirigirem Uber não tem relação com a situação econômica do país. Com Ribeiro dezenas de servidores do INEP (Instituto de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), órgão responsável pelo ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio), pediram exoneração do cargo por causa dos autoritarismos. Foi rifado após a mídia ter denunciado esquema em que pastores da Assembleia de Deus pediam propina em barra de ouro para liberação de verba para municípios dos prefeitos amigos, tudo bem “republicano”, da época da República Velha. Barulho maior que esse só se ouviu no aeroporto de Brasília quando houve disparo acidental de sua bíblia, quer dizer, de sua arma.

Cumpre tabela dessa ópera-bufa o servidor de carreira Victor Godoy Veiga, que também estava com Milton Ribeiro em muitos dos encontros com pastores para a ouração da propina.

As ações intersetoriais entre pastas foram outra vergonha do MEC. No início de 2020, Damares Alves, ex-ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos – seja lá o que for um ministério da família – lançou um concurso de máscaras numa tentativa de evitar que se fechassem as escolas no período crítico de contaminação e óbitos. Perguntar não ofende: do que você se lembra mais na pandemia: do concurso de máscaras de Damares ou de Bolsonaro puxando a máscara de uma criança em seu colo, confiada assim a ele pelos pais?

O aumento do piso salarial nacional de professores em 33,24% (de R$ 2.886,24 para R$ 3.845,34) foi por pressão do Congresso Nacional. A depender do Palácio do Planalto, o acordo com prefeitos e governadores era um aumento de 7,5%, sendo que a totalidade do recurso não sai exclusivamente do caixa da União. O aumento custará 30 bilhões de reais ou duas vezes o orçamento secreto que permite a compra do Centrão.

Como de onde menos se espera é de onde não sai nada, a cartada final do governo é a aprovação do homeschooling, o ensino domiciliar. Se tem algo que a pandemia revelou foi o quanto alguns pais, felizmente a minoria, odeia os filhos. Se há pouco tempo atrás queriam educação em tempo integral sem se importar com o coronavírus, hoje querem ensinar em casa e, pasmem, sem que haja nenhum tipo de controle estatal, como as provas bimestrais. Socializar e aprender com as diferenças é um dos eixos de qualquer projeto educacional progressista, mas com o homeschooling a educação perde grande parte da característica de política pública para agradar o voto conservador.

Enfim, há três anos e meio que o MEC está parado ou observando passivamente o crime dos vendilhões do templo na antessala do chefe do Turismo. Quando voltaremos a ter um Ministério da Educação?

Sobre ayanrafael

Pedagogo, Assistente Social e Mestre em Educação pela Universidade de Brasília. Trabalhou como técnico-administrativo na Universidade de Brasília, como Professor de Atividades da SEEDF (Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal) e atualmente é Especialista Socioeducativo - Pedagogo na Secretaria de Estado de Justiça e Cidadania do Distrito Federal, lotado no Centro Integrado 18 de Maio.
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