Publicidade infantil

Charge: Armandinho

Artigo de opinião originalmente publicado em Conversa Informal, jornal comunitário do Setor Habitacional Vicente Pires, Região Administrativa XXX do Distrito Federal. Ano 19, n. 01/2022, disponível em: <https://jornalconversainformal.blogspot.com/2022/01/conversa-informal-de-janeiro-2022.html>. Acesso em 28 jan. 2022.

Se você viveu a década de 1980/90 sabe que tão certo quanto a novela após o Jornal Nacional eram as propagandas de brinquedos na TV. Estrela, Grow e outras empresas anunciavam nos caríssimos intervalos comerciais buscando vender o macaco Murfy, os Comando em ação, a “nova” Barbie que só mudava a roupa e os bonecos dos signos dos Cavaleiros do Zodíaco. Paralelamente, outro tipo eficiente de publicidade infantil foi a vinculação de brinquedos à lanches de fast food, como é tradição do Mc Donald´s. Em ambos, o mesmo problema: publicidade infantil visando o consumismo inconsequente.

O fato é que o século XXI mudou a relação do marketing das empresas de brinquedos com as crianças. É verdade que não foram somente os brinquedos que sofreram mudança na forma de divulgação do produto, mas ao menos nesse segmento observa-se um fator peculiar: os consumidores – e sobretudo seus pais – tornaram-se o principal vetor de propaganda. A boneca Baby Alive, que detém a preferência das crianças, coleciona vídeos feitos por mães que ganham em permuta com produtos, financeirização do canal pelo Youtube e sobretudo dinheiro, muito dinheiro.

O céu é o limite em contratos obviamente não divulgados que projetam os brinquedos mais até do que os sites oficiais das empresas. De antemão peço perdão pela propaganda, mas é preciso algumas nomeações para que a pessoa que ler essa matéria possa ratificar a pesquisa. Os dados foram coletados no Youtube em 21/12/2021.

A gigante da produção de brinquedos Estrela possui canal com 111 mil inscritos e o vídeo mais popular, que apresenta a boneca da personagem do desenho Show da Luna, possui 7,1 milhões de visualizações. O canal Grow Jogos e Brinquedos possui pouco mais de 2 mil inscritos e o vídeo mais popular, que ensina a jogar War, possui 247 mil visualizações. Achou muito? Pois saiba que não fazem cócegas em vídeos independentes – ou quase – feitos por pais de crianças.

O canal Miss Gaby e Família possui 3,11 milhões de inscritos e o vídeo mais popular, Festa de Aniversário da Galinha Pintadinha, 147 milhões de visualizações. A Mattel, que produz a Barbie e brinquedos da série Toy Story tem 232 mil inscritos no canal e o vídeo mais popular tem 24 milhões de visualizações. Adiante, a Hasbro, fabricante da Baby Alive, tem 4,91 milhões de seguidores no canal, sendo o vídeo mais visto o do brinquedo Espuma Boom com 68 milhões de visualizações.

Certamente não se deve apenas descrever esses dados, mas trabalhá-los dialeticamente com a legislação brasileira sobre publicidade infantil, em especial a Resolução nº 163/2014 do CONANDA (Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente). Não é tão difícil o Ministério Público entrar com uma ação contra o Mc Donald´s por associar a venda de lanche ao brinquedo de um filme que esteja em cartaz. Contudo, a partir do momento que não é mais empresa e sim consumidores que fazem propaganda, sendo alguns deles crianças, a questão fica complexa.

Há quem enxergue normalidade na publicidade infantil a ponto de acreditar que o mercado irá regular esses vídeos de forma natural, o que é pernicioso a quem compreende crianças como sujeitos em desenvolvimento e que precisam de proteção. Por outro lado, há quem se aproveite para inserir um jabuti no debate e defender censura, alegando que vídeos de classificação indicativa livre devem respeitar os valores da família tradicional. É aí que deve entrar o Estado como instituição reguladora, coibindo o ímpeto abusivo das empresas que agora agem via clientes para tentar driblar a proteção às crianças, bem como os que se julgam arautos da moralidade para propagar seu ódio em forma de culto.

Portanto, embora não seja tarefa simples, é necessário que a sociedade (incluindo crianças e adolescentes), as empresas de brinquedos e o Estado constituam espaços de debate para que a internet não seja uma terra sem lei, um ambiente tóxico em que o lucro defina o conteúdo dos vídeos na web. Brincar é um direito de cada infante e se é deturpado pelo consumismo, sendo incentivado por quem deveria exercer o acolhimento, que são os pais, então o conceito se esvaiu no número de visualizações.

E você? Já parou para pensar se o conteúdo que as crianças sob sua responsabilidade veem no Youtube são seguros para a idade delas? São apenas vídeos de brincadeiras ou que as tornarão adultos imaturos e inconsequentes em relação ao consumo? Vamos refletir sobre o assunto?

Sobre ayanrafael

Pedagogo, Assistente Social e Mestre em Educação pela Universidade de Brasília. Trabalhou como técnico-administrativo na Universidade de Brasília, como Professor de Atividades da SEEDF (Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal) e atualmente é Especialista Socioeducativo - Pedagogo na Secretaria de Estado de Justiça e Cidadania do Distrito Federal, lotado no Centro Integrado 18 de Maio.
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