Homenagem póstuma à Elisa Ayan Ferreira

Jardim de Infância da 305 Sul. Brasília, DF, 1987.

Aqueles que passam por nós não vão sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.

Antoine de Saint-Exupéry em O pequeno príncipe.

Hoje, 09/11/2020, uma parte da gordinha se foi.

Aqueles olhos azuis que encantavam de tanto amor, enfim, fecharam-se para sempre. Após a morte de meu pai há um ano, a saúde de minha mãe ficou bastante debilitada. Para piorar, o isolamento devido à pandemia a deixou ainda mais depressiva – viveu o último mês acamada no hospital em sua segunda internação em poucos meses.

Enfim, acabou a dor. Não tem mais vários exames, procedimentos invasivos ou remédios que curam uma doença e provocam outra. Já não grita mais de dor, não tem delírios, não há mais sacrifícios para realizar as atividades mais simples como ir ao banheiro.

Minha mãe foi muito guerreira. Nunca se escorou em ninguém pra fazer sua vida. Foi mais que visionária: no Setor Comercial Sul, em Brasília, teve uma agência de empregadas domésticas e uma banquinha de vender picolé, mas onde também vendia perucas! Vendeu cachorro-quente no Cruzeiro Velho “que vinha gente da Asa Norte comer”, como ela gostava de dizer. Tinha uma memória irretocável de dizer todos os números do jogo do bicho. Falava o preço de produtos de supermercado e lembrava dos mesmos um mês depois. Era capaz de chegar em casa e lembrar qual foi a 17ª “pedra cantada” na terceira rodada do bingo. Quem a conheceu sabe que não é exagero.

Tendo apenas a 5ª série, sempre me acompanhou de perto na escola. Quando criança, me acordava sempre com um café com leite, pão quente e ovo mexido. Sempre respeitou meus posicionamentos, minhas escolhas profissionais e políticas. “Rafael vai ser professor”, repetia o que dizia o pai dela, o sírio Cibhy Ayan, quando me via escrevendo ainda criança. Herdou o semblante calmo de minha vó Virgínia, aquele que só de entrar no espaço contamina os mais incrédulos a dizer: nossa, que energia boa! Perdi a conta de quantas pessoas me disseram que foram ajudadas por minha mãe quando chegaram em Brasília ou simplesmente ao passar, em algum momento, pela vida dela.

Infelizmente meus filhos serão privados de conviver com uma pessoa de um coração tão grandioso como foi minha mãe. Porém, como disse, uma parte da gordinha se foi. A outra parte, que é o caráter, a empatia, o companheirismo, a humildade, tudo isso permanece porque sonhos não envelhecem nem morrem. A alegria de encontrar sorriso mesmo no meio das doenças que a encontraram nos últimos anos: esse é o seu legado.

Vai lá mãe, descanse. Hoje Enzo e Raíssa cantarão “brilhem, brilhem estrelinhas”, assim no plural, porque se existe esse tal de paraíso a senhora acabou de encontrar o papai para ele lhe fazer outro acróstico, como o que ele lhe recitou por mais de meio século. Se estiver me vendo, prometo que farei de tudo para que se orgulhe de mim, para que eu seja um bom marido para a minha esposa, Danielle, que segurou a sua mão antes de sua partida. Por mais que eu tenha muitos defeitos, vou sempre pensar na senhora como um referencial para que minha vida pessoal seja tão boa e alegre como a que a senhora teve com o papai.

Além de homenagear a minha mãe, quero aqui agradecer ao esforço, ou melhor, à entrega total que minhas irmãs, Denise, Eliane e Márcia, fizeram pela minha mãe, sobretudo nos últimos meses quando ela praticamente mal falava e ficava o tempo inteiro sentada ou deitada em casa. Não fossem minhas irmãs, minha mãe já teria partido há muito tempo. Se alguém ainda viu minha mãe viva esse ano é porque elas abdicaram da própria vida para poder prolongar a vida da nossa matriarca.

Beijo gordinha, te amo.

SEPULTAMENTO

Elisa Ayan Ferreira (25/02/1936 – 09/11/2020)

Cemitério: Campo da Esperança – Asa Sul

Terça-feira, 10/11/2020, 11h00 – Capela 02

Sobre ayanrafael

Pedagogo, Assistente Social e Mestre em Educação pela Universidade de Brasília. Trabalhou como técnico-administrativo na Universidade de Brasília, como Professor de Atividades da SEEDF (Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal) e atualmente é Especialista Socioeducativo - Pedagogo na Secretaria de Estado de Justiça e Cidadania do Distrito Federal, lotado na Secretaria Executiva do Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente (CDCA/DF).
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