A distante educação a distância

Fonte da imagem: medium.com

Com a chegada da pandemia ao Brasil as escolas passaram a ter que dar uma alternativa às famílias para a continuidade dos estudos e garantir o direito à educação de milhões de estudantes. Contudo, a modalidade não é algo que se faça apenas com acesso a internet e computador. Há metodologia na EaD, uma forma científica de se estabelecer relação entre o professor, mediador do aprendizado, e estudante, coparticipante na construção do conhecimento. Não dá simplesmente para filmar uma aula presencial e entregá-la no Youtube ou plataforma. Soma-se a isso o problema de a EaD nunca ter sido verdadeiramente um instrumento utilizado na educação brasileira, tanto em escolas públicas quanto particulares.

Também não podemos esquecer das muitas especificidades da educação. Há estudantes do ensino especial que precisam de atenção direta de um educador, daí ficarem em turmas em que são atendidos com apenas mais um discente. Não dá para repassar as atividades para os responsáveis fazerem com estes estudantes, como se o trabalho com pessoas autistas, down, com deficiência intelectual ou múltiplas fosse algo que se aprende com um simples tutorial de duas páginas. Os professores estudaram muito, fizeram cursos de especialização, alguns até mestrado e doutorado, para atuar no ensino especial. Ignorar isso é achar que qualquer pessoa pode substituir o trabalho de um profissional através de movimentos repetitivos, como se a educação pudesse ser uma esteira de uma linha de produção em que só temos que encaixar as peças.

Na alfabetização os desafios não são menores. O BIA (Bloco Inicial de Alfabetização), que consiste do 1º ao 3º ano, é um momento em que as crianças aprendem pela socialização. Qual o impacto da pandemia no aprendizado de crianças que agora não frequentam parquinhos, praças ou outros espaços de convivência? Para a educação do campo, de povos indígenas e quilombolas, que trabalham com interstício entre a ida à escola e período de colheita, por exemplo, o retorno às aulas mesmo diante de uma vacina pode representar um alto nível de evasão escolar. E para quem acha que o Ensino Médio está mais fácil, saiba que o DF é a unidade da federação com maior concentração de renda do país e isso se reflete em estudantes que compartilham o aparelho celular – e o sinal de internet da farmácia ou do trio bomba da esquina – com os irmãos em casa. Não podemos espetacularizar a pobreza para dizer “basta querer que se consegue”.

O mercado de empresas que oferecem aulas on line cresceu, como o de ensino de idiomas e cursinhos pré-vestibulares. Para a classe média que pode pagar, vai ver que não é nenhuma revolução no método de ensinar pelos motivos que já foram elencados aqui no texto. A Secretaria de Educação do DF (SEDF) utiliza de forma tímida para formação de professores o Moodle, um ambiente virtual de aprendizagem de código aberto e gratuito. Porém, por anos a SEDF gastou fortunas alugando auditórios de faculdades para fazer formações por regionais que poderiam muito bem terem sido feitas via EaD – e hoje paga o preço pelo fato dos professores estarem pouco familiarizados com as TICs (Tecnologias da Informação e Comunicação). Atualmente, a SEDF utiliza o Google Classroom como sala de aula virtual para os estudantes, mas sem muta interatividade, o que leva a crer que os estudantes têm apenas um drive e não um espaço de comunicação.

Portanto, os professores são tão vítimas quanto os estudantes na forma como o governo quer substituir as aulas presenciais, e isso não é só no DF. Se de um lado há um pai nervoso por achar que as atividades virtuais não contemplam o que ele espera da escola, do outro há professores precarizados, com anos de salário congelado e sem os instrumentos mínimos (e conhecimento) para fazer melhor. Acreditem: os professores estão trabalhando mais na pandemia e adoecendo por isso, pois tem que cumprir prazos inexequíveis e preencher documentos administrativos que pouco ou nada contribuem com o aprendizado do estudante. A Organização do Trabalho Pedagógico (OTP) parece mais o “vigiar e punir”, de Foucault (1926-1984), em que se prioriza um grande volume de informações sem qualidade e que gera um desgaste enorme nos docentes.

O momento atual é fundamental para que escola e família possam se olhar sob uma perspectiva mais humana, compreensível e acolhedora. Os professores não são os inimigos da educação, qualquer que seja a modalidade. E o mais importante: aulas presenciais só depois da vacina!

Artigo de opinião originalmente publicado em Conversa Informal, jornal comunitário da Região Administrativa XXX (Setor Habitacional Vicente Pires), em Setembro de 2020. Disponível em: <http://jornalconversainformal.blogspot.com/2020/09/jornal-conversa-informal-de-setembro.html>. Acesso em: 09 set. 2020.

Sobre ayanrafael

Pedagogo, Assistente Social e Mestre em Educação pela Universidade de Brasília. Trabalhou como técnico-administrativo na Universidade de Brasília, como Professor de Atividades da SEEDF (Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal) e atualmente é Especialista Socioeducativo - Pedagogo na Secretaria de Estado de Justiça e Cidadania do Distrito Federal, lotado na Secretaria Executiva do Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente (CDCA/DF).
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