PT: da frente ampla de outrora para a frente ampla de agora

Oba! Maluf vai se juntar a Padilha. Podemos esperar uma nova ...
Lula, Hadda e Maluf ao anunciarem o apoio do PP ao PT na eleição para a prefeitura de SP em 2012.

Ultimamente pessoas ligadas à movimentos de esquerda, seja partidos políticos ou outros arranjos, se debruçam sobre um dilema: é possível uma frente ampla para derrotar o governo federal e que congregue lideranças da esquerda e da direita, incluindo de Marcelo Freixo (PSOL-RJ) ao General Santa Cruz que chegou a participar do governo Bolsonaro? Como militante do campo progressista, me coloco entre o que vê com algumas, ou melhor, com muitas ressalvas a participação em uma frente que seja um engodo para enganar a classe trabalhadora, concentrando expoentes do golpe de 2016 como – agora – militantes anti-Bolsonaro, como é o caso de Kim Kataguiri e até mesmo Michel Temer. Porém, é necessário lembrar que há ações na política muito mais nocivas do que uma frente ampla contra a Dinastia da Rachadinha que se instalou no Palácio do Planalto.

Ora, que tipo de mensagem passaríamos à população se estivermos ao lado daqueles que aprovaram a Reforma da Previdência e que, embora agora se apresentem como oposição ao governo, topam esperar mais um pouquinho pelo impeachment caso os deputados alinhados a Bolsonaro aceitem uma Reforma Tributária nos marcos que o mercado exige? Aliás, essas reformas contarão com o voto do Centrão, aquele corrupto Centrão da época da eleição, da música em dó menor do General Heleno e que agora é solução para a permanência de Bolsonaro no poder. Imaginem só as famílias Ferreira Gomes e Jereissati, duas representações de coronéis do Ceará que sobreviveram com maestria à República do Café com Leite, gritando “Fora Bolsonaro” uma semana depois de aprovarem a privatização do saneamento básico no Senado? Como colocar lado a lado um privatista como Fernando Henrique Cardoso ao lado de um socialista e líder popular por moradia como Guilherme Boulos?

Falando no Legislativo, que é o local que aprova muitas das leis que fazem sangrar o apertado orçamento da população, não é raro vermos o PT votando projetos prejudiciais aos trabalhadores juntamente com aqueles que não querem fazer uma frente ampla. Em resumo é o seguinte: o PT recusa fazer uma frente ampla para derrotar Bolsonaro não pelos motivos elencados no primeiro parágrafo mas sim pelo fato de que não aceita nada em que ele próprio não seja o protagonista. Voltamos à década de 1990! Se pegarmos até mesmo os governos petistas de 2003 a 2016, vemos que por vezes foi a direita que fez questão de votar com o PT, como no caso da Reforma da Previdência de 2003, com consequências que nenhuma frente ampla ou o nome que for nesse país jamais ousou fazer.

Portanto, o debate sobre fazer ou não uma frente ampla com quem até 2018 estava com o adesivo 17 no peito é uma coisa. Posso até ser convencido de que é o único modo de pressionar para Rodrigo Maia aceitar o pedido de impeachment de Bolsonaro e voltar a colocar a população nas ruas ou, em época de pandemia, nas redes, de forma mais frequente e politizada, por mais que seja uma tarefa árdua e que passe por outros processos. Contudo, não acho que o PT tenha tanto peso para falar o que podemos ou não fazer diante de tal proposta, uma vez que atuou no Legislativo e no Executivo, nas esferas federal, estadual e municipal, em ações (por votos ou políticas públicas) bem piores do que a tal frente ampla agora anunciada. Ainda que a atual frente não seja ampla e sim total, do tipo “basta ser contra Bolsonaro que é aceito aqui”, o PT teve a sua parcela de culpa na desconfiança que agora a esquerda sofre, como o PSOL e movimentos sociais como o MST, MTST e outros.

Outro ponto que deve ser deixado claro é que de longe o governo do PT foi melhor do que o de Bolsonaro. A democracia estava preservada, não havia disputa entre o Executivo e o STF pela patente das Forças Armadas, o Ministério da Educação não era cota de um terraplanista em isolamento social há duas décadas na Virgínia (EUA), o Itamaraty era respeitado e convidado para mediar conflitos na ONU, o SBT e a Record não eram empresas de comunicação estatais e a entrada do Palácio da Alvorada não era pit stop do A Praça é Nossa. As conferências nacionais, bem ou mal, funcionavam, assim como os conselhos de direitos. A população LGBTQIA+ se sentia mais segura porque não havia espaço institucional, ao menos não no governo, para a proliferação dos discursos de ódio. A Fundação Palmares não era Fundação Capitão do Mato. Existia corrupção, e muita, mas a Polícia Federal não era um moleque de recados do Ministro da Justiça. Enfim, não há problema em dizer que tivemos avanços nos governos petistas, o que não os impede de fazer a tão cobrada autocrítica, aquela que o Lula vai morrer sem conhecer.

Por fim, pensar a frente ampla é um exercício que deve ser muito bem pensado entre os proponentes, sempre com um pouco mais de atenção ao que diz o PT e seus tentáculos como CUT e UNE. E por razões óbvias: a postura com que o PT se manteve diante de muitas votações no Congresso Nacional e de projetos apresentados por Lula e Dilma, fez estragos enormes na forma como a população vê a esquerda e não podemos correr o risco de cometer o mesmo erro. Com deputados estaduais, prefeitos e governadores não foi diferente e o Comitê Popular da Copa e manifestações de 2013 foram uma expressão dessas “contradições”. Decorre daí o debate sobre tática e estratégia que volta e meia permeia a formação das organizações de esquerda.

E para a frente ampla que quer derrotar Bolsonaro? O PT pode argumentar o que ela pode ou não fazer? Quando Lula quis o apoio do PP (Partido Progressista) de Maluf em 2012 para a eleição da prefeitura de SP, Maluf exigiu que Lula o visitasse em casa com Haddad e tirassem fotos rindo para a imprensa. Tudo isso por mais um minuto do tempo de TV. O PT cumpriu o protocolo à risca. Ali foi frente ampla? Há autocrítica de colocar um candidato do campo progressista com um defensor da ditadura que não podia nem pisar na Ponte da Amizade que seria preso pela Interpol? O Henrique Meireles no Banco Central foi frente ampla? Em 2013 quando o PT rifou a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados para o pastor Marco Feliciano foi frente ampla? Será que agora o PT quer nos alertar dos erros que sempre cometeu ou vai fazer um malabarismo retórico e falar de presidencialismo de coalisão? São essas as nossas reflexões para este momento.

Sobre ayanrafael

Pedagogo, Assistente Social e Mestre em Educação pela Universidade de Brasília. Trabalhou como técnico-administrativo na Universidade de Brasília, como Professor de Atividades da SEEDF (Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal) e atualmente é Especialista Socioeducativo - Pedagogo na Secretaria de Estado de Justiça e Cidadania do Distrito Federal, lotado na Secretaria Executiva do Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente (CDCA/DF).
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