UnB resistirá ao fascismo de Bolsonaro

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Corredor do Instituto Central de Ciências, em frente ao DCE (Diretório Central dos Estudantes). Foto: Beto Monteiro/Secom UnB.

Quem controla Weintraub

No dia 14/04/2019, semana em que Weintraub chegou ao MEC (Ministério da Educação), escrevi para este blog um artigo de opinião informando que a saída de Vélez não era uma troca de 6 por meia dúzia. Menos de um mês depois e a observação se confirmou: a UnB teve cerca de 30% do orçamento cortado pelo novo ministro. E não pense que leu errado porque foi exatamente o que aconteceu: o novo ministro, sem abrir processo algum para apurar responsabilidades por possíveis “balbúrdias” resolveu atacar de forma covarde a melhor universidade do Centro-Oeste.

O ministro não observou os índices acadêmicos da UnB, que melhoraram nos últimos anos e a colocam como a 5ª melhor federal do país e 16ª da América Latina. Assim, decidiu de forma unilateral e sem nenhum critério científico pela afronta a uma das melhores universidades do país. A UFF (Universidade Federal Fluminense) e a UFBA (Universidade Federal da Bahia) foram outras duas importantes instituições que, assim como a UnB, tiveram grande parte de seu orçamento retido pelo MEC.

Como bom pet de Bolsonaro e Paulo Guedes, Weintraub não tardou a seguir as ordens de seus donos e com uma cajadada só matou dois coelhos: por um lado atingiu o bolso da UnB para custear importantes atividades de ensino, pesquisa e extensão e, por outro, agradou ao lunático Olavo de Carvalho e sua batalha contra o que chama de marxismo cultural. A baixaria contra a UnB é simbólica, dentre outras coisas, pela importância geopolítica da universidade.

 

Os reais motivos para o ataque à UnB

Recentemente na UnB os candidatos a presidência em 2018 Fernando Haddad e Guilherme Boulos participaram de atividades em que criticaram a Reforma da Previdência. Para Bolsonaro não é viável ter uma universidade localizada ao lado da Esplanada dos Ministérios com um público de 60.000 estudantes, técnicos e professores protestando contra o governo. Se 5% desse total resolver sair de seu local de trabalho para lutar por direitos, serão 3.000 pessoas em frente ao Congresso Nacional, fora os sindicatos e outras organizações classistas do DF ou de outros estados.

Para quem acha que é teoria da conspiração, basta ver a ordem de Sérgio Moro para sitiar a região central de Brasília, dando ares de legalidade ao endurecimento da ação policial contra a liberdade de expressão. Já conhecíamos esse tipo de arbitrariedade vindo do AI-5 em 1968, mas de alguém que até pouco tempo representava o Judiciário, poder que foi esvaziado durante a ditadura militar, é de fato uma novidade. Moro vendeu-se de corpo e alma para o cargo e não engana mais sequer os que imploraram para que Lula fosse preso. Pois bem, nem Moro e nem o MEC conseguirão intimidar a UnB.

Com ou sem a aprovação da Reforma da Previdência – ou com a aprovação desidratada, como deverá passar – Bolsonaro continuará com ações que sempre movimentaram os movimentos sociais na Esplanada dos Ministérios. Algumas delas: pacote de medidas de criminalização da pobreza de Moro, flexibilização para atividades de mineração (mesmo após os acidentes de Maraiana e Brumadinho), não demarcação de (sic) nem um centímetro para terra indígena e até fim das cotas e outras sem tanto apelo popular como a redução da maioridade penal. Bom se adiantar e colocar os “autos de resistência” sob a patente do Ministério da Justiça e não mais dos juízes. Afinal de contas: o juiz agora é ministro.

 

Ditadura militar

Por duas décadas a Universidade de Brasília resistiu à ditadura militar, numa época em que as Forças Armadas estavam em sincronia e não com grande parte do generalato conspirando diariamente para ver Mourão plagiando o golpe de Michel Temer. Foram muitos professores expulsos e estudantes presos, mortos ou desaparecidos, como o líder estudantil e estudante de geologia Honestino Guimarães. Ementas de cursos foram mudadas, havia militares vigiando as aulas, ora uniformizados, ora à paisana. Tanques disputavam o espaço com os fusquinhas nas ruas e o ICC (Instituto Central de Ciências) era palco de perseguições, agressões e mesmo tiroteios, como mostra o documentário “Barra 68: sem perder a ternura” do cineasta Vladimir Carvalho.

À época, estudantes das áreas de humanas, biológicas e exatas costumavam se respeitar e por vezes se abraçaram e impediram colegas de serem levados pela polícia. A ideia de Darcy Ribeiro do prédio do ICC, em que todas as áreas dialogavam entre si, era muito mais do que um bacharelado interdisciplinar ou estudantes de engenharia serem obrigados a cursar Introdução a Sociologia, mas um projeto de convivência humanitária e respeito às diferenças. Também os professores tinham preocupação em servir ao país e, longe de serem de esquerda, estavam mais distante ainda de flertar com torturadores ou governos autoritários.

 

Agradecimento do MEC à geração Y

Não é motivo desse texto se aprofundar no assunto, mas segue uma afirmação: a popularização da internet não trouxe jovens mais críticos, mas uma geração de preguiçosos intelectuais educados por memes. Digo isso porque quando fiz o mestrado na área de Educação e Comunicação na Faculdade de Educação da UnB, em 2011/2013, acreditava que a facilidade de acesso à informação poderia revolucionar a juventude para melhor. Confesso, com tristeza, que me enganei! Informação não se converte necessariamente em conhecimento. Informação pode servir à ignorância, intolerância, homofobia, racismo e todo tipo de discurso de ódio que assistimos nas redes sociais.

Alguns pesquisadores dirão que perdemos a batalha da informação, mas é nítido que o poder econômico, embora não tão presente como na mídia tradicional, sempre dá um jeito de monopolizar o conteúdo e fluxo de informações da internet. Essa questão é tão nítida que somente numa rede dominada por “mecenas” como Luciano Hang, dono da Havan, temos milhões de brasileiros recebendo e acreditando que o MEC na gestão do PT usou as escolas para distribuir “mamadeiras de piroca” para a população.

Uma outra avaliação possível: a popularização da internet não atingiu somente os mais jovens mas aqueles que nasceram antes de 1980. Isso explicaria o discurso conservador presente na web uma vez que a população com mais de 30 anos e com acesso à internet é maioria no país. Infelizmente, não é raro vermos jovens e até mesmo crianças reproduzindo ataques à gays, nordestinos e, pasme, contra universidades. O conservadorismo fez escola, não sem partido mas com a ideologia do partido deles: o fascismo.

 

A necessária autocrítica da classe média

Mas o que a geração Y tem a ver com o ataque do MEC à UnB?

O governo Bolsonaro só encontra espaço para suas atitudes autoritárias porque sabe que este discurso de ódio é acolhido por parte de estudantes da universidade. Quando há poucos dias Bolsonaro anunciou que não iria mais investir em cursos de Sociologia e Filosofia nas universidades federais, os seguidores de Bolsonaro pularam de alegria, achando que atingiria somente o cabeludo ocioso que passa o dia na grama e jamais os que querem ser profissionais liberais competitivos no mercado de trabalho.

Não demorou para a conta vir amarga: um corte geral no financiamento de verbas que atingirá todos os cursos de graduação e pós, das saídas de campo para as pesquisa em botânica na Fazenda Água Limpa ao acompanhamento in loco dos estágios nas empresas de engenharia. Logo a UnB que está entre as 400 melhores instituições do mundo na área de saúde. Para se ter uma ideia, somente os Estados Unidos tem mais de 400 instituições superior com cursos de graduação em saúde, fora Europa, Ásia e outros países que investem bastante nesta área. Acabou a “balbúrdia” de pesquisar doenças tropicais, vacinas e ficar entre as melhores faculdades de saúde do mundo. O que o estudante de medicina com camisa do MBL tem a dizer sobre isso?

O MEC joga duro com a UnB porque sabe que nesta universidade está lotado o professor Bráulio Tarcísio Pôrto de Matos, vice-presidente do Escola Sem Partido. Se tinha alguém achando democrático a UnB ter um professor defendendo uma imparcialidade que ele mesmo não carrega nas ementas das disciplinas que oferta, que perceba agora que o docente construiu embaixo das barbas da turma academicista do “deixa disso” um movimento que sufocará a própria direita da universidade.

E quanto ao grupo dos que reclamam dos que “não estudam” e passam o dia inteiro em redes sociais criticando a universidade e os que se mobilizam contra o governo? Bem, pra esses também não haverá verbas. É o fim da “balbúrdia” do laboratório bem equipado, da ampliação e modernização de salas de aula, da construção de auditórios, da compra de equipamentos com tecnologia de ponta. Pode continuar a xingar os comunistas o dia todo no Facebook que não vai mudar nada, mas apenas mostrar o que é um fantoche obediente. Para os “baderneiros”, nenhuma surpresa. Para os “iluminados”, no mínimo uma traição.

Adivinhe quem gostou e caçoou da situação da UnB? O MBL (Movimento Brasil Livre), que defende publicamente que nossas universidades sejam uma franquia da Kroton com um papel higiênico no banheiro e nenhum incentivo à produção acadêmica. Observe que voltamos ao ponto inicial: a UnB não está sendo prejudicada por não ter qualidade acadêmica e sim por ser de excelência. Simultaneamente, Kroton e outros grupos educacionais que recebem verbas públicas direta ou indiretamente não foram atingidas por similar medida do governo e nem chamadas de improdutivas ou acusadas de terem “balbúrdia”. Quem conhece a realidade da rede Kroton sabe que qualidade passa longe de suas faculdades, com salas lotadas, trabalhos sendo apresentados nos corredores e professores com especializações em cursos conhecidos pela venda de diplomas.

Triste pensar que vamos ter que esperar as Forças Armadas invadirem novamente a UnB para tomarmos atitudes mais sérias. Não defendi expulsar o professor Bráulio ou algum estudante que organiza ato em comemoração ao Golpe de 1964, por mais inconsequentes que ambos sejam. Falo de percebermos que Bolsonaro é um inimigo comum de qualquer que seja a ideologia que defenda uma universidade plural, democrática e de excelência, contanto que esta ideologia não seja o fascismo e outros pensamentos que visam exterminar minorias. Quando Bráulio achar que os estudantes são tábua rasa, estes devem lhe mostrar os problemas da educação pública e a difícil vida de professor aviltada pela falta de investimento público e agora pelas baboseiras cartesianas dos olavistas que saíram do armário. Quando um estudante quiser filmar um professor dando aula, a turma deve se colocar ao lado do docente e defendê-lo de mais uma peça publicitária do escritório de fake news do Carluxo.

É o momento da classe média que reivindica qualidade acadêmica fazer a autocrítica de que a infantilidade de hierarquização entre áreas do conhecimento não favoreceu nenhuma delas, mas colocou no poder alguém que admira a própria preguiça intelectual e quer acabar com o que temos de melhor na educação superior brasileira. Os centros acadêmicos, o DCE (Diretório Central dos Estudantes) e os sindicatos dos técnicos e professores devem dar uma resposta à altura da medida de Weintraub contra a autonomia didático-financeira da Universidade de Brasília, indo para a porta do MEC e denunciando o roubo institucional de uma verba que não é esmola e sim da universidade por direito. É hora dos egressos, do empresário fora do país ao assessor parlamentar passando pelo professor da educação básica se juntarem para defender a sua alma mater. Nem mesmo o eleitor de Bolsonaro pode fugir desta tarefa, pois a UnB é atemporal e os governos não.

Bolsonaro foi com muita sede ao pote com esta última ação porque deve agir rápido diante da mobilização social contra a Reforma da Previdência e semanalmente dar uma satisfação ao seu mentor especialista em educação que reside na Virgínia (EUA). Se a classe média não deixar de lado o complexo de vira-latas e admitir que a democracia, com todos seus defeitos, é o melhor caminho, a universidade perderá muito mais do que 1/3 de seu orçamento. Será difícil principalmente pelo fogo amigo, mas a UnB resistirá à Bolsonaro e seus tentáculos podres como o MBL, Escola Sem Partido e aloprados. Não há fuzil ou astrólogo charlatão que pare uma ideia.

Sobre ayanrafael

Pedagogo, Assistente Social e Mestre em Educação pela Universidade de Brasília. Trabalhou como técnico-administrativo na Universidade de Brasília, como Professor de Atividades da SEEDF (Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal) e atualmente é Especialista Socioeducativo - Pedagogo na Secretaria de Estado de Justiça e Cidadania do Distrito Federal, no Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente (CDCA/DF).
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2 respostas para UnB resistirá ao fascismo de Bolsonaro

  1. Mathias Padrone disse:

    Um blog um tanto quanto ridículo e contraditório, não tem se quer um estrofe com um pico de coerência, chega a beirar a mediocridade por tamanha irrelevância aos assuntos aqui abordados. Falta-te coerência caro Ayan, sugiro que tenha se quer uma supervisão de algum ideólogo para você conseguir construir seus textos, pois, dessa forma, seus textos mostram claramente o quanto a degeneração ideológica tomou conta da sua imaginação doentia. Quanto desserviço!

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    • ayanrafael disse:

      Aí de tão ridículo que é o blog você sentiu a necessidade de vir aqui comentar? Saquei. Já que és tão cartesiano, vai lá pegar a gramática pra saber a diferença entre “sequer” e”se quer” e depois volta aqui pra comentar ok Mathias Padrone?

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