Antes era escola… Agora é quartel!

Primeiro dia de aulas no CED 01 da Estrutural, uma das escolas públicas do DF onde foi implementado o modelo cívico-militar.

Dei aula em 2017 e 2018 no CED 01 da Estrutural, escola que sofreu uma ridícula intervenção militar do governo Ibaneis.

ANTES podia entrar até de chinelo, pois há muitos alunos que não tem o que comer. AGORA é tênis preto e limpo.

ANTES podia entrar sem uniforme, pois muitos alunos não tem nem casaco na época de inverno e dependem, dentre outras coisas, de doações de professores. AGORA estão em período de transição pra adotarem farda impecável sendo que parte do setor Santa Luzia da Estrutural não tem água nem energia.

ANTES podia chegar atrasado, pois a prioridade era disputar o estudante com o tráfico de drogas e o trabalho infantil. AGORA o portão fecha e o estudante volta pra casa, ou pro tráfico, ou pro trabalho infantil.

ANTES podia usar cabelo black power, pulseira, colar, brinco com mais de um ponto de luz (quanta imbecilidade!). Agora é o racismo declarado de cabelo curto pra homens e meninas, sendo que pra quem é negro cabelo mais curto ainda pra não parecer burlar a regra e somente uma pulseira (pois a partir de duas julgam que prejudica o aprendizado).

ANTES a pobreza não era criminalizada. AGORA, a juventude negra é o alvo do fascismo travestido de educação moral e cívica.

ANTES tinha um grafite do Nelson Mandela na entrada da escola, local sugerido e portanto aprovado pela própria direção, feito no final de 2018. AGORA o grafite foi para o super visualizado estacionamento dos professores, enquanto o muro da entrada ficou branco a “pedido” (mando) da direção disciplinar composta pelos militares.

ANTES a matrícula era feita diretamente na secretaria, com muitos pedidos de conselheiros tutelares para matricular jovens em conflito com a lei e cumprindo medida sócio-educativa. AGORA já falam em prova de seleção, eliminando estudantes com algum diagnóstico ou com problemas de aprendizagem, pra forçar uma subida na nota do IDEB maqueando a incompetência de militares que nunca resolveram o problema da segurança mas prometem melhorar a educação.

ANTES o deputado distrital Rodrigo Delmasso aparecia somente em ano eleitoral pra dar uma emenda à escola e fazer propaganda fora do período eleitoral travestida de palestra contra as drogas, mandando que as crianças entregassem panfletos com o balanço do mandato para os pais e sendo rechaçado por alguns docentes que devolviam o material. AGORA, na base do governo, Delmasso indica o CED 01 da Estrutural para ser uma das 4 escolas pioneiras na implementação da intervenção militar porque manda na escola e sabe que a direção “não vai botar a mão no fogo” e aceita tranquilamente qualquer ingerência em meia (ou nem isso) gestão.

ANTES a direção era democraticamente eleita pela comunidade e seguia um plano que fora apresentado e votado por pais, professores e alunos. AGORA, desenterraram os moralistas que estavam com as barbas de molho pescando na Serra da Mesa e cagando regra nas redes sociais e os colocaram como tiranos para dar as cartas em todos os assuntos da escola, interferindo inclusive na parte pedagógica uma vez que disciplina e cidadania compõem o Projeto Político-Pedagógico da instituição.

ANTES a gestão era fraca, mas democrática e construída coletivamente. AGORA dizem que a gestão é compartilhada, mas até o momento a única coisa que a direção pedagógica fez foi ceder os já poucos espaços físicos para os militares, ficar de boi de piranha pra imprensa e bater continência para as atrocidades que sitiaram uma instituição de ensino que precisa de qualquer coisa que não seja mais violência, ainda mais com o selo estatal de um ex-presidente da OAB-DF que trabalhou com direitos humanos e um secretário de educação que jogou toda a sua produção acadêmica no lixo por causa de um cargo.

ANTES era escola. AGORA é quartel.

A única parceria identificada até o momento foi entre o racismo e o preconceito de classe, numa gestão em que a parte pedagógica entra com a bunda e a parte disciplinar com o pé (de bota).

Vigiar e punir: o eterno projeto de educação pra periferia.

Tristes tempos, mas resistiremos.

Prof. Atividades Rafael Ayan

Sobre ayanrafael

Pedagogo, Assistente Social e Mestre em Educação pela Universidade de Brasília. Trabalhou como técnico-administrativo na Universidade de Brasília, como Professor de Atividades da SEEDF (Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal) e atualmente é Especialista Socioeducativo - Pedagogo na Secretaria de Estado de Justiça e Cidadania do Distrito Federal, no Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente (CDCA/DF).
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2 respostas para Antes era escola… Agora é quartel!

  1. daoarte disse:

    Com a reforma aí torturando os professores e voces com essa palhaçada. A populaçai aceitou, mp, cldf e tcdf, ENTAO, PAREM DE PALHAÇADA E VÃO LUTAR PELO O QUE VALE A PENA? SINPRO JA DEVERIA ESTAR NAD COMISSOES E MOSTRANDO O ACINTE QUE É ESSA REFORMA… ACORDA E DEIXEM ESSE PARTIDARISMO DE LADO! #NÀOÀREFORMA
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