Crônica – Feliz ano novo, lista de transmissão!

 

Há um fenônemo relativamente novo e que tem a ver com as tecnologias da informação e comunicação (TIC): os votos de felicidade em datas comemorativas! Nestas, o natal e ano novo merecem destaque e, mais do que o natal, o ano novo. Difícil dizer quem não recebeu feliz ano novo ao menos umas 20 vezes em diferentes montagens de aplicativos, mas poucas ligações e ainda menos mensagens pessoalmente.

Essa prática não é tão antiga porque remonta à popularização do uso do celular no país. Lembro-me bem das mensagens de feliz natal com árvores construídas com ponto e vírgula nos celulares analógicos Nokia 3220, quando o jogo Snake I (cobrinha) era uma espécie de “pixel todo pintado” que se movimentava por uma tela de fundo cinza. Depois lembravam de nosso aniversário no MSN com os emoticons de parabéns que colocávamos precedendo o nick. Logo veio o Orkut que não nos deixava mais esquecer a data de aniversário de quem estivesse em sua rede e ai de quem não deixasse uma mensagem em seu scrap book. O Facebook inovou pouco, mas tornou-se o herdeiro natural do Orkut para essa e outras funções. Porém, foi com o WhatsApp que as pessoas sentiram-se abraçadas como nunca com mensagens automáticas do tipo “um ano novo cheio de paz” que vai para uma lista de transmissão com mais de 200 contatos e que volta com alguns “obrigado, pra você também” e um pensamento de “puxa, legal ele ter lembrado de mim” ou então “tio Carlos mandou feliz ano novo aqui no grupo pra todo mundo”.

Mas quem é esse todo mundo?

Ora, o WhatsApp não lembra o aniversário de ninguém, portanto não é tão eficaz como uma rede como o Facebook que já tem até modelo pronto de felicitações para as translações dos indivíduos. Contudo, em datas comemorativas nacionais o Whats App se destaca: você recebe a mesma imagem tanto em grupos como no privado e, claro, faz o seu papel: repassa para seus grupos e contatos individuais. Como a maior parte das pessoas não espera entrar em outros grupos para ver se aquela informação já foi repassada – até porque senão corre o risco de não conseguir ler as milhares de inutilidades que recebem diariamente –, recebem de volta o meme da Dercy Gonçalves dizendo “de novo essa po…” e outras respostas que colocam o internauta como desatento. O todo mundo que você queria atingir já foi atingido por outra pessoa que recebeu a mesma mensagem de todo mundo num grupo ou individualmente. Não entendeu? Experimente ter WhatsApp que vai entender.

Portanto, é como se cada pessoa tivesse uma câmera presa ao peito e caminhasse num grande salão, captando o que as outras pessoas fazem e reproduzindo continuamente até que a Matrix resolva mudar a programação e enviar o “meme do dia” que deve ser repassado adiante. É pior do que as correntes de e-mail com Power point do Yahoo-grupos do início deste século! Eu poderia até dizer que a reprodução das relações sociais tem a ver com a forma como a sociedade moderna molda comportamentos, mas porque quero que as pessoas não parem de ler nesse ponto, prefiro parafrasear o finado comunicador Chacrinha adaptando-o ao século XXI: no “WhatsApp nada se cria, tudo se copia”. De fato, se parássemos para pensar no conteúdo do que escrevemos nas redes sociais, certamente ficaríamos surpresos de perceber que até quando nos achamos autênticos por não encaminhar algo, o que digitamos foi um surrado “kkkk” – com algumas variações de “k” para mais ou para menos – ou emoticons (olha aí o MSN de novo).

Se você concordou com a crônica até este ponto, então prepare-se para uma segunda afirmação, consequência do ponto anterior: os desejos de feliz ano novo não são tão francos quanto você pensa! Conheço inúmeras pessoas que têm lista de transmissão da família, faculdade, trabalho, igreja, crushes e as utilizam de acordo com o objetivo que pretendem alcançar. Vamos ver: uma hashtag #ForaTemer é ótima provocação para o grupo da família que se dividiu entre coxinhas e mortadelas. Vídeo motivacional do tipo “use filtro solar” com narração do Pedro Bial pode ser utilizado no grupo da empresa para tentar parecer o funcionário pró-ativo e não entrar no Programa de Demissão Voluntária pós Reforma Trabalhista. Sendo foto de cerveja gelada, encaminha-se pro pvt do crush como quem não quer nada, mas entregando o estágio avançado de carência afetiva. Tudo isso encaminhado com bastante velocidade e pouca reflexão sobre o que significa aquela mensagem para quem a recebe – e uma mesma foto pode ter distintas apreensões por cada pessoa.

Com o ano novo não é diferente e não pense que a mensagem foi mais pessoal porque tem seu nome. Tente ver se recentemente você conversou pessoalmente com a pessoa e verá que faz sentido a “lembrança”. Em tempo: fará mais sentido ainda se tiver conversado com ela no WhatsApp, pois na hora de encaminhar vai estar a foto e nome da pessoa lá, tudo para encorajar seu dedo nervoso a repassar o dado adiante. Pode parecer amargo de ler isso, principalmente para quem encaminhou a mesma imagem para muita gente, mas a verdade é que será que se não houvesse a possibilidade de lista de transmissão teriam lembrado de você? Olha confesso que é melhor um ano novo impessoal do que os vídeos sem graça de rally que um amigo engenheiro me envia. Pense bem: se começássemos a devolver os mesmos memes que recebemos para as pessoas que nos enviaram, começaria a III Guerra Mundial. Melhor deixar pra lá.

Obviamente não é necessário acabar com as listas de transmissão ou com outras mensagens automáticas nas redes sociais e, em especial, no WhatsApp na data de 31 de dezembro. Rede social também é entretenimento! Tampouco fique triste se recebeu uma mensagem impessoal no natal ou ano novo, pois não será o único. Em tempo: se fosse o único seria ótimo! Listas de transmissão são ótimas mobilizadoras para manifestações populares ou comunicação interna em organizações públicas e privadas. Quem acha que causa ruído é porque mesmo na comunicação presencial faz questão de brigar por besteira, então até no dia em que dominarmos a telepatia essas pessoas causarão discórdia.

Bem, agora que terminei de escrever esse texto, como bom vascaíno, vou ali encaminhar um meme do Muralha hilário para meus amigos flamenguistas. Antes vou divulgar o link desta crônica individualmente para alguns grupos seletos e contatos VIPs de minha agenda telefônica, claro. Não quero causar a falsa impressão de que você pode ter se reconhecido neste texto, seja como emitente, receptor ou pelas duas coisas. E você? Não vai querer saber qual é o meme do Muralha?

Sobre ayanrafael

Pedagogo, Assistente Social e Mestre em Educação pela Universidade de Brasília. Trabalhou como técnico-administrativo na Universidade de Brasília, como Professor de Atividades da SEEDF (Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal) e atualmente é Especialista Socioeducativo - Pedagogo na Secretaria de Estado de Justiça e Cidadania do Distrito Federal, no Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente (CDCA/DF).
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