Crônica – Podemos rir dos atrasados do ENEM?

Casamentos, batizados, encontro com namorada(o) mulher/marido, amante, reunião da empresa, velório, jogo de futebol, pronunciamento do presidente, se tem horário marcado, lá está ele, o atraso. Quando estava na graduação na UnB, havia um ditado que dizia que o Movimento Estudantil chegaria atrasado na revolução. E os bolcheviques não escapam à maldição:  cansei de ouvir bate-boca nos encontros de pedagogia, nas reuniões do DCE, do centro acadêmico e até entre anarquistas e autonomistas nas reuniões do MPL, sempre tendo o atraso como pauta.

Mas podemos rir de quem chega atrasado no ENEM ? Sim, podemos. Não devemos obrigar  aqueles que não querem rir a se juntarem a nós, mas percebo um certo patrulhamento de colegas da esquerda em cima de quem procura os famosos vídeos #showdosatrasados do ENEM. E de fato é um show: grito, esperneio, performances com choro e tudo que acabe com a frase “deixa eu entrar”. Fica difícil “pra mim não rir”. Tivesse aceitado que o portão fechou em vez de tentar “barganhar um por fora”, outra cruel característica de nossa população, não entraria pros vídeos. Portanto, são eles que fazem os vídeos viralizar e não quem os assiste.

Mas os marxistas insistem: às vezes não há ônibus onde ele mora. De fato, há muitos casos assim. Porém, os casos que chamam a atenção são de candidatos(as) abordados(as) de forma desrespeitosa no caminho para a prova ou quem combinou de sair antes do trabalho e o chefe sacaneou segurando mais um pouco. Por estas razões não se vê o patrulhamento ideológico e é claro que não há como saber o motivo da pessoa chegar atrasada. Ir um monte de gente pra porta atrapalhar quem chega e inclusive xingar é lamentável, mas os vídeos e memes estão aí para lembrarmos que a zoeira não pode morrer.

Se é consenso que se os ingleses são conhecidos pela pontualidade, os brasileiros abusam dos 15 minutos de tolerância – que para quem não sabe, não existem no ENEM! Nem se a organização da prova falasse que o horário é 12:45 com 15 minutos de tolerância chegariam no horário. É só dar uma volta nos locais de prova pra ver um monte de carro importado estacionado na calçada, em rampas de acesso, como quem diz “qualquer coisa multa que eu pago”. Se chegaram no horário não queriam andar muito e se chegaram atrasados(as), continuam a errar. Nos dois casos é pouco provável que sejam carros que tenham vindo da periferia, mas ai de quem rir dessas pessoas que estacionam em local errado e querem ter o direito a entrar com 1 minuto de atraso!

E o que eu acho mais sem sentido nisso tudo é ver colegas da esquerda que fizeram bem pior do que rir dos atrasados do ENEM quererem colocar quem faz isso como monstro! Não são todos, mas tem muita gente aí querendo ser mártir da moralidade. Me lembro de um encontro da pedagogia em 2007 na UFMA em que uma colega teve que enfiar a mão no vaso e pegar uma nota de 20 reais. Desde então sua identidade passou a ser “fulana mão na merda”, até para os mais novos que não participaram desse encontro mas sabiam da história. Ela fez isso porque estava com grana sobrando? Tinha outro colega (na verdade era inimigo), de Belo Horizonte, que não tomava banho de jeito nenhum, e não era problema de pobreza pois nos encontros os banheiros eram liberados até pra quem não pagava inscrição. Os apelidos dele eram piores do que qualquer vídeo de choro com portão fechado. Tinha o cara que “comia” macaco, o garanhão do tipo “fui ao banheiro e peguei 11”, a chorona, o “pau de lápis”, o “anaconda”, a “Ré Bordosa” e muita fofoca sobre a vida pessoal de todo mundo. Sei tanto podre de tanta gente que daria para escrever mais do que os volumes d´O Capital. Mas tudo bem, vamos esquecer tudo isso porque agora existem os embaixadores da ONU pra defender os atrasados do ENEM. Querem reclamar? Reclamem de quem chega no horário e espera do lado de dentro do portão só pra ver a galera chegando atrasada e dando show porque não conseguiu entrar. Tá certo que pode ser estratégia para rir e fazer a prova mais leve, mas não deixa de ser uma maldade imensa no coração. Deus tá vendo. Baixa a bola pessoal. Estamos no mesmo barco contra as opressões, mas não confundam isso com os vídeos dos atrasados no ENEM.

Ainda pelo lado dos “defensores dos fracos e oprimidos”, gostaria de saber o que eles podem dizer de pessoas que acampam 2 meses esperando um show. Antes que você pense que foi erro de digitação, permita-me repetir: 2 meses! Sim, é o que um grupo que esperava pelo show da Beyonce no Morumbi (SP) aguardou – e virou até documentário. Não são poucos os casos de acampados para esperar shows, mas certamente não são pessoas miseráveis e nem ricas. Não são miseráveis porque a população em pobreza e extrema pobreza não tem 2 meses livres nem se juntar 10 anos de trabalho e não são ricos porque estes tem outros meios de conseguir acesso exclusivo em shows e não aguentariam uma noite em barraca na rua. Essa galera que espera show acampada por meses é grande parte da classe média chorona dos portões do ENEM, mas ai de quem falar da cultura do atraso perto do Tribunal do Santo Ofício. É claro que não se deve aceitar piadas racistas, classistas ou de discriminação com a população LGBT, mas reclamar de quem ri do show dos atrasados do ENEM é integrar a parte mais chata da esquerda, e pode dizer emendar com “se [defesadeumdireito],  então sou chato(a)”.

Em tempo, eu e minha esposa estávamos inscritos no ENEM 2017. Quando fiz a inscrição ela ainda estava grávida e achávamos que ia dar pra fazer a prova, deixando a nossa filha com alguém ou levando-a para ser amamentada enquanto fazia a prova. Erramos! Por ser nossa primeira filha, vimos que a atenção que ela deve receber é bem maior do que imaginávamos. Preferimos não ir fazer a prova e aproveitamos para ficar com nossa filha em seu aniversário de 6 meses. Fazemos parte dos 30% de abstenção. Não aparecemos em nenhum dos vídeos chegando atrasado porque sequer saímos de casa. Fizemos nossa escolha e estamos satisfeitos com ela. Conforme mostrado acima, há casos de candidatos que de fato tiveram problemas pra chegar no horário, mas há os que sempre utilizam da máxima “vai dar tempo”. Para esses últimos, utilizamos o mesmo critério de quando vimos (e isso inclui os comunistas puritanos) a pegadinha da Anabelle no Silvio Santos: rir muito!

Sobre ayanrafael

Pedagogo, Assistente Social e Mestre em Educação pela Universidade de Brasília. Trabalhou como técnico-administrativo na Universidade de Brasília, como Professor de Atividades da SEEDF (Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal) e atualmente é Especialista Socioeducativo - Pedagogo na Secretaria de Estado de Justiça e Cidadania do Distrito Federal, no Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente (CDCA/DF).
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