Xuxa estranha Xuxa

Xuxa pede desculpas após sugerir que presos sejam usados para testes de  remédios - Diário do Rio Doce
Foto: Diário do Rio Doce

Um dia antes de completar 58 anos a apresentadora Xuxa apareceu mais pelo ímpeto intolerante do que pela comemoração do aniversário. Numa live da Assembleia Estadual do Rio de Janeiro (Alerj) que tinha como objetivo debater direitos dos animais, Xuxa afirmou ser favorável a presos serem cobaias em testes de cosméticos e remédios visando “servirem para alguma coisa antes de morrer”. É bom destacar que o erro primário foi da Alerj que convidou uma pessoa sem acúmulo algum para debater o tema. Seria como chamar Bolsonaro para falar sobre democracia e não esperar que ele defenda o AI-5. Analisemos três aspectos do ocorrido: história de Xuxa e proteção à infância, eugenia no século XX e desdobramentos do discurso de ódio na sociedade brasileira atual.

Direitos de crianças e adolescentes no século XX

No filme “Amor estranho amor” (1982) Xuxa contracenou com um adolescente de 12 anos. Há quem diga que as cenas de sexo eram normais para a época, ou que ainda não existia o Estatuto da Criança e do Adolescente (1990), mas tudo isso não passa de fúnebre retórica para justificar a produção de um filme com ato claro de pedofilia. O Código de Menores de 1927, também conhecido como Código Mello Matos (Decreto 17.943-A), portanto assinado 36 anos antes do nascimento da rainha dos baixinhos, afirmava que:

Art. 143. Permittir que menor de 18 annos, sujeito a seu poder ou confiado a sua guarda ou a seu cuidado:

(…)

b) frequente casas do espectaculos pornographicos, onde se representam ou apresentam scenas que podem ferir o pudor ou a moralidade do menor, ou provocar os seus instinctos máos ou doentios;

c) frequente ou resida, sob pretexto serio, em casa de prostituta ou de tolerancia.

Pena de prisão cellular de quinze dias a dous mezes, ou multa de 20$ a 200$000, ou ambas.

Paragrapho unico. Si o menor vier a soffrer algum attentado sexual, ou se prostituir, a pena póde ser elevada ao dobro ou ao triplo, conforme o responsavel pelo menor tiver contribuido para a frequencia illicita deliberadamente ou por negligencia grave e continuada.

Art. 144. Fornecer de qualquer modo escriptos, imagens, desenhos ou objectos obsceno a menor de 18 annos. Penas de prisão cellular por oito a trinta dias; multa ds 10$ a 500$000; apprehensão e destruição dos escriptos, imagens, desenhos ou objectos obscenos.

Ora, é evidente que para um filme de 1982 havia ao menos 65 anos de legislação de proteção à infância que não permitiam, em foro íntimo e muito menos em filme, o que ocorreu em “Amor estranho amor”. Adiante, o Código de Menores de 1979 não é menos taxativo:

Subseção I

Dos Espetáculos Teatrais, Cinematográficos, Circenses, Radiofônicos e de Televisão

(…)

Art. 51. Nenhum menor de dezoito anos, sem prévia autorização da autoridade judiciária, poderá participar de espetáculo público e seus ensaios, bem como entrar ou permanecer em qualquer dependência de estúdios cinematográficos, de teatro, rádio ou televisão.

Verdade seja dita, nem o Código de 1927 ou o de 1979 esperavam que alguém tivesse a audácia de fazer um filme com cenas de sexo e ao invés de mostrá-lo à um adolescente ou não indicar a classificação indicativa, colocassem o próprio adolescente para contracenar. Obviamente, canalha dos que utilizam esse argumento. Outro ponto: qual autoridade judiciária autorizaria um adolescente em “Amor estranho amor”?

Em 20/05/2012 no quadro “O que vi da vida”, no programa Fantástico, Xuxa fala de sua infância e da relação conturbada com o pai. Uma das interpretações seria a de que o filme tem a ver com essa fase de sua vida. Que seja – ou não seja! Fato é que nada justifica o filme feito por Xuxa que à época já era uma modelo famosa, capa de diversas revistas e portanto escolhida a dedo para o papel. Fosse cumprida a lei, não somente Xuxa mas outros artistas do filme como Tarcísio Meira e Vera Fisher teriam sido presos. Atualmente, 1/3 dos presos no Brasil estavam portando pouca quantidade de maconha ou cocaína, muitas vezes obrigados pelos traficantes ou milicianos. Não há artista branco de olhos claros preso por tráfico no país.

Pergunta à Xuxa: deveriam utilizar Tarcísio Meira, Vera Fisher e Xuxa para experimentos de cosméticos e remédios para “servirem para alguma coisa antes de morrer”?

Respondo que não e que assim como o preso por traficar pequena quantidade de maconha e agora está numa penitenciária acho que Xuxa, com um crime muito mais bárbaro, não deve ser cobaia contra sua vontade. Repito: contra sua vontade, uma vez que por alguns milhares de dólares sempre aceitou passar qualquer creme no corpo e ainda posar sorrindo. Mas o que é ser cobaia contra sua vontade? De onde vem esse tipo de ideia defendida por Xuxa na Alerj quando deveria falar de direitos dos animais?

Doutores da agonia: a ciência nazista

Xuxa não inovou em nada ao afirmar que presos devem ser cobaias na pesquisa de fármacos. A Idade Média está repleta de exemplos do tipo, mas foi no século XX com os adventos científicos da III Revolução Industrial e os regimes fascistas de Mussolini e Hitler que mentes doentias como as de Josef Mengele e Eduard Wirths ganharam fôlego. As vítimas não foram somente judeus, mas aqueles que para os nazistas eram desprovidos de humanidade, do direito à vida: negros, homossexuais, deficientes, ciganos, russos e quaisquer outros considerados inimigos do III Reich. Não havia distinção de idade. Uma criança judia tinha o mesmo valor para Hitlher do que um preso para Xuxa.

Experiências de esterilização por radiação foram utilizadas por Carl Clauberg em Auschwitz tendo como consequência o desenvolvimento de câncer em pessoas absolutamente normais. A mando de Hitlher foram realizadas experiências envolvendo tifo, cólera, varíola, malária e febre amarela. Nazistas fizeram cortes em presos de guerra para testar a eficácia da sulfonamida. Outros eventos nazistas como o uso de gás mostarda (que causa derretimento dos pulmões), água do mar como único suprimento de bebida e costura de gêmeos para torná-los siameses completam a lista. Eventos em que pessoas eram jogadas em tanques de água com temperaturas negativas formaram a base de estudos de hipotermia da medicina atual. Tudo isso com pessoas que serviram “para alguma coisa antes de morrer”, claro.

Engana-se quem pensa que os médicos que realizaram essas atrocidades foram presos. A saída “diplomática” foi a seguinte: os EUA concedeu asilo político aos “doutores da agonia” em troca de informações sobre as descobertas científicas de modo que pudessem, inclusive, utilizar em suas armas bioquímicas. Foi assim quando os EUA abrigaram médicos nazistas através da Operação Paperclip e com os médicos da Unidade 731 do Exército Imperial Japonês. Pode-se ver que não é exclusividade do Brasil ter uma “Xuxa”. É desse período que resultou o Código de Nuremberg estabelecendo princípios éticos e colocando animais como antecessores de humanos em experimentos, além de disciplinar as pesquisas. Está aí um ótimo ponto que poderia ser abordado por Xuxa, não fosse seu preconceito de classe.

Nós, a burguesia

Voltemos a falar da história de Xuxa, mas agora sob a perspectiva de quem escreve esse artigo de opinião, ou seja, a história de Xuxa com a minha por mais que nunca tenhamos nos conhecido. Nascido em 1983, fui um dos baixinhos da rainha. Pronto, isso revela muita coisa, mas vou além: em 1989, com o Estádio Mané Garrincha (Brasília) lotado, me perdi no show da Xuxa até ser encontrado pela minha irmã. Não tenho muita noção do tempo que fiquei perdido, mas pra mim foi uma eternidade. Cresci ouvindo Xuxa, tinha todos os LPs. Meus filhos, um casal de 3 e 4 anos, ouvem Xuxa. Eu e minha esposa cantamos e dançamos com eles.

Percebam que mesmo depois de adulto, sabendo de todo o histórico de Xuxa e o filme “Amor estranho amor”, ignorei tudo isso e considerei o que ela tem de bom: músicas divertidas, muito melhores que animações chatas e repetitivas como Galinha Pintadinha, pois o que salva das animações atuais é Mundo Bita, Palavra Cantada e olhe lá. Ouvir o que Xuxa disse é um balde de água fria, não tão gelada quanto os experimentos nazistas, mas ainda assim fria.

A fala de Xuxa não poderia encontrar pior momento para ser dita e revela muito mais do que uma vontade pessoal. Embora fortemente reprimida nas redes sociais, a manifestação é um alento para o que existe de pior e resolveu sair do esgoto em 2018. Não falo apenas de eleitores de Bolsonaro, embora aí residam a maior parte dos que julgam normal presidiários servirem de cobaias. Falo sobretudo de artistas ou outras personalidades que viram notícia pelo simples fato de estacionarem no Leblon, como ocorreu com Caetano Veloso. O que Xuxa disse é repetido diariamente por muitos desconhecidos e por esta condição não reverbera como a declaração de uma das maiores personalidades do país.

Xuxa faz parte da alta sociedade, aquela com discurso eugenista que não perde a oportunidade de destilar seu veneno contra os pobres. Nenhuma maquiagem de projeto social consegue camuflar isso. A aporofobia, na verdade, é um conceito que caminha junto com teorias totalitárias em que grupos dominantes cultural e economicamente decidem quem é sujeito de direitos e quem tem que dar o sangue, literalmente, para “servir pra alguma coisa antes de morrer”. Até isso lhes foi tirado, o direito a morte com dignidade. O Tribunal da Xuxa bate o martelo com muito cuidado pra não acertar o próprio rabo, mas não poderia deixar de fazer a escolha da elite: aos pobres, a guilhotina. À Xuxa, Tarcísio Meira e Vera Fisher, o Troféu Domingão Melhores do Ano.

Numa sociedade altamente polarizada como a brasileira e em uma conjuntura de elevado desemprego, perda de massa salarial, hiperinflação e descontrole da pandemia, uma das consequências é o aumento da população carcerária. Cada vez mais baixinhos e baixinhas que na década de 1980 sonhavam em subir na nave espacial que abria o programa vêem o capataz com bota rosa e cartola vermelha com correntes douradas. O pedido de desculpas seria louvável não fosse a consequência da cultura de cancelamento em redes sociais, o que de fato parece ter sido a mudança de opinião da apresentadora. Sim, se de um lado temos muitas pessoas que concordam com Xuxa, por outro ainda temos o bom senso de milhões de brasileiros que entendem a declaração como uma manifestação elitista.

Não estou dizendo para Xuxa tornar-se uma militante e se filiar ao PSOL, mas dá para ser liberal sem ter que fazer coro ao fascismo. Os atos radicalizados do #blacklivesmatter estão longe de ser uma célula bolchevique, mas trouxeram um avanço inequívoco numa eleição que estava ganha para Donald Trump. Pense nisso Xuxa, se você deseja fortalecer o discurso da milícia que tomou conta do Brasil ou se vai escolher, dentre diferentes ideologias, aquelas que não naturalizam a eugenia como política pública. A bolha da elite é confortável, mas não deixe que a Rainha dos Baixinhos se torne a Rainha da Baixaria.

Enfim… Xuxa estranha Xuxa.

Sobre ayanrafael

Pedagogo, Assistente Social e Mestre em Educação pela Universidade de Brasília. Trabalhou como técnico-administrativo na Universidade de Brasília, como Professor de Atividades da SEEDF (Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal) e atualmente é Especialista Socioeducativo - Pedagogo na Secretaria de Estado de Justiça e Cidadania do Distrito Federal, lotado na Secretaria Executiva do Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente (CDCA/DF).
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