Escola não é depósito de Coronavírus!

Imagem microscópica do Coronavírus. Fonte: Folha de São Paulo

Se você acessou este texto porque identificou no título o Coronavírus como sinônimo de criança, menino(a) ou adolescente então provavelmente você é profissional da educação ou tem uma relação muito próxima com alguma escola e sabe muito bem a potencialidade que esta instituição tem para disseminar a doença na população. Por outro lado, se você acessou por curiosidade de saber a relação entre coronavírus e escola, este texto é bastante esclarecedor.

As medidas de suspensão das aulas na educação básica e superior não é medida unilateral de governo de esquerda ou direita e sim o cumprimento de orientação da OMS (Organização Mundial de Saúde) para frear o avanço de pandemias. Elas ocorrem em todo o mundo e atingem, além de escolas e faculdades, estabelecimentos como teatro, cinema, igrejas, restaurantes e congêneres. Para além desses locais, os efeitos da circulação de pessoas tornam-se proibitivos ou com moderada restrição resultando em organização de filas em serviços essenciais como bancos, farmácias, supermercados, farmácias e órgãos públicos. O teletrabalho com ferramentas de atendimento a distância deixa de ser uma disputa entre sindicatos e governo e passa a ser uma necessidade de saúde pública – obviamente nos serviços cabíveis.

Se em locais como filas de comércio a orientação é de um metro de distância entre as pessoas, na creche continua valendo o “não me pega, do bico da cueca”. Se para bares a orientação é o distanciamento de 2 metros entre as mesas, no 4º ano o Enzo não vai parar de usar o tubo da caneta para cuspir borracha salivada na Valentina. Se para eventos esportivos a orientação é para fechar os portões ao público, na aula de educação física e recreação não tem uma quadra para cada dois estudantes brincarem de gol a gol. Se nas secretarias de Estado a orientação é para trabalharem em casa pelo SEI (Sistema Eletrônico de Informações), os donos de escolares não vão comprar outro veículo para manter distância entre as crianças. Se até mesmo as missas foram proibidas, como dizer para uma criança com deficiência intelectual grave que não pode abraçar os colegas com o nariz escorrendo? Não é preciso dizer que as salas de aula superlotadas e com pouca ventilação da rede pública brasileira e até mesmo as salas com ar condicionado de escolas particulares são os “criadores” que o vírus aguarda para se proliferar de forma mais cruel do que em outros países.

Felizmente e ainda não se sabe o porquê, o vírus em crianças de 0 a 9 anos é praticamente inofensivo. De cada 200 crianças, 5 desenvolvem uma forma grave do Covid-19 e 1 em cada 500 desenvolvem a forma crítica. Não há vítima fatal de Coronavírus com menos de 9 anos entre as mais de 5.000 mortes até esta data. Porém, o que preocupa é o fato de terem que ser cuidadas por adultos, muitas vezes avós com mais de 60 anos. Nessa faixa etária a mortalidade é de 3,5%. Acredite: mesmo pouco atuante na maioria da população, muitos de nós perderemos pessoas de nossas famílias ou conhecidos se um plano de contigência sério, com forte atuação do SUS (Sistema Único de Saúde), não for colocado em prática. Não dá pra dizer que morrerá um idoso de cada família, mas devemos nos preocupar com a senhora do bairro que encontramos na padaria e não sabemos o nome. Como ficaria a situação de idosos alfabetizados na EJA (Educação de Jovens e Adultos) que de noite compartilham a mesma sala da escola que crianças e adolescentes do ensino regular?

Se você é responsável por alguma criança em idade escolar e que esteja matriculada mas não associou o título deste texto ao jargão “escola não é depósito de criança”, famoso entre docentes, então você é daquele segundo grupo relatado no parágrafo inicial, que enxerga a escola como um serviço que não tem a educação como vetor principal, independente da natureza administrativa da instituição de seu filho ser pública ou privada. O distanciamento de responsáveis da escola é que gera comentários do tipo “ei governador, com quem vou deixar meu filho?” ou “lá vem esses professores folgados que não querem trabalhar!”. Este distanciamento/estranhamento das ações da escola perpassa a reunião bimestral, as apresentações de final de ano, a participação no Conselho Escolar (que tem mais poder que a Direção da escola) e em sugestões de melhora do ensino. A colaboração dos responsáveis pode ser tanto na gestão da escola como na abordagem do currículo, nas atividades extraclasse e no planejamento do calendário anual. Fizessem isso, saberiam o quanto o Coronavírus encontra na escola um aliado para a sua proliferação.

Os profissionais da educação já sabiam que mais cedo ou mais tarde a ausência dos responsáveis na aproximação com a escola teria consequências devastadoras. Contudo e justificadamente não imaginavam que seria o Coronavírus o responsável pelo puxão de orelha, por dizer “senhora, a escola não é nada disso não, a nossa função aqui como docente é outra”. Portanto, não é sobre com quem seu filho irá ficar. É claro que é compreensível que há crianças que dependem da escola até para se alimentar. Sobre isso, escolas públicas do Rio de Janeiro abrem no horário do almoço para servir refeições aos matriculados, mas isso tem duas consequências que voltam o debate ao seu início: a escola como instituição assistencialista e a aglomeração de crianças para a refeição, quebrando o protocolo de segurança.

O debate sobre com quem deixar os filhos passa por questões mais amplas que não serão abordadas neste texto, a saber: a) o abandono dos pais, entendendo o termo pais como pessoas do sexo masculino e não de forma generalizada; b) legalização do aborto; c) construção de creches e escolas de Anos Iniciais do Ensino Fundamental; d) valorização da mão-de-obra feminina. Perceba que este é necessariamente um debate de gênero, da inserção da mulher na sociedade como sujeita de direitos e não a construção judaico-cristão de mulher como mãe, cuidadora do lar e gestora do espaço privado.

Permitir que a escola funcione normalmente é colocar em risco direto estas professoras e seus familiares, sobretudo os idosos. Nenhum lugar é tão propício à reprodução do vírus do que a escola, com a inocência de crianças brincando e se segurando a todo momento. Vale lembrar que há décadas escolas públicas e privadas orientam que crianças com sintomas de doenças infecto-contagiosas – e não o laudo concreto do médico – devem ficar em casa. Se você já respeitava essa determinação, não é agora com o Coronavírus que vai fazer diferente não é mesmo?

Por fim, a educação é um dos setores mais agredidos ultimamente no Brasil. Corte de verbas, demonização de docentes, negacionismo científico (como os inconsequentes contra vacinas), militarização de escolas como forma de disciplina, congelamento salarial e outras formas de pauperização do trabalho docente são apenas alguns dos exemplos a serem citados. É uma profissão com um grande número de mulheres que também tem filhos. Como se não bastasse, por carregarem o preconceito de “vocação para o amor”, são as “escolhidas” pelo machismo dos irmãos homens a cuidarem dia e noite de pai e mãe idosos, enquanto aqueles fingem não ter responsabilidade alguma com os genitores.

Permitir que a escola funcione normalmente é colocar em risco direto estas professoras e seus familiares, sobretudo pessoas próximas a 60 anos e idosos. Nenhum lugar é tão propício à reprodução do vírus do que a escola, com a inocência de crianças brincando e se segurando a todo momento. Vale lembrar que há décadas escolas públicas e privadas orientam que crianças com sintomas de doenças infecto-contagiosas – e não o laudo concreto do médico sobre a enfermidade – devem ficar em casa. Pra quem não respeitava essa determinação, achou absurdo os protocolos internacionais de contenção do vírus. Se você já respeitava essa determinação, não é agora com o Coronavírus que vai fazer diferente não é mesmo?

Sobre ayanrafael

Pedagogo, Assistente Social e Mestre em Educação pela Universidade de Brasília. Trabalhou como técnico-administrativo na Universidade de Brasília, como Professor de Atividades da SEEDF (Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal) e atualmente é Especialista Socioeducativo - Pedagogo na Secretaria de Estado de Justiça e Cidadania do Distrito Federal, no Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente (CDCA/DF).
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