Triste fim de Rafael Parente

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Rafael Parente, Secretário de Educação do Distrito Federal. Foto: Diário do Poder.

Até o início de 2019, qualquer pessoa que procurasse saber na internet sobre Rafael Parente iria se deparar com informações que somam o perfil acadêmico ao de um gestor. Doutor em Educação pela Universidade de Nova York e ex-subsecretário de Educação do Rio de Janeiro, Parente transita entre movimentos ligados à educação e às recentes agremiações políticas “nem nem” (nem esquerda, nem direita), como o Movimento Agora! Logo, sabemos bem que a reivindicação de uma apresentação imparcial não passa de uma tentativa mal sucedida de dizer que dialoga com todo mundo – embora sempre decida pela bandeira dos liberais. E se você acha que conhece o sobrenome Parente não se engane: Rafael é filho de Pedro Parente, ex-presidente da Petrobras e que também comandou as pastas da Casa Civil e Planejamento.

Porém, como diz o ditado, a primeira impressão é a que fica e a primeira medida de Parente à frente da Secretaria de Educação foi o projeto de Gestão Compartilhada ou, como vamos tratar nesse texto, a militarização das escolas. Assim, solicitou à Sérgio Elias Machado, Subsecretário de Educação Básica, que escrevesse um parecer sobre a militarização das escolas. Sergio fez um parecer contrário e o colocou no SEI (Sistema Eletrônico de Informações), o que possibilitou ser visto por outros servidores e gerou um desgaste para Parente. Ora, Sergio não foi colocado como gestor à toa: tinha o aval de Parente como qualquer gestor que ocupa os principais cargos da Secretaria de Educação. Portanto, o parecer de Sergio é o parecer de uma equipe que estava em sintonia com muitas coisas, dentre elas, a de uma educação libertária e não opressora. Se tem alguém que mudou não é Sérgio e sim Parente.

Em seguida, Parente tratou de se aprofundar naquilo que nunca foi: um capitão-do-mato subserviente aos interesses de Ibaneis, o ex-presidente da OAB que esqueceu propositalmente o que são direitos humanos. Parente foi à porta do MEC dizer à Velez, ex-ministro da educação, que se o governo federal tem verbas para escolas militarizadas, que começasse pelo Distrito Federal. O problema é que quem paga a banda escolhe a música e com verbas de um governo inconsequente como é o de Bolsonaro e da Polícia Militar do Distrito Federal, que também administraria a parte burocrática e disciplinar nos projetos de militarização, a autonomia das escolas foi duramente atingida. Embora liberal, Parente passou de progressista à conservador em pouco tempo, por puro apego ao cargo.

Mas Parente não se contentou em ser o porta-voz das escolas militarizadas do DF: a postura de polícia, de perseguição, adentrou ao seu habitus de gestor. Um exemplo foi quando a Escola Classe da 115 Norte fez uma peça para as crianças sobre a Reforma da Previdência e colocou nas redes uma foto com os(as) docentes da escola e uma faixa se posicionando contra a medida do governo. O Escola Sem Partido, que não tem mais o que fazer do que ser o “cartaz proibitivo da parede” nas redes sociais, tratou logo de cobrar do secretário uma postura do que consideravam ideologicação das crianças. Até aí tudo nos conformes, pois não se espera outra coisa de um movimento que tenha como guru o Olavo de Carvalho. O problema foi Parente responder que tomou ciência do caso e encaminhou a “denúncia” ao Ministério Público! Saudades da época em que o Twitter de Rafael Parente era utilizado para atacar o Escola Sem Partido, defender a educação sexual nas escolas e a liberdade de cátedra.

Dia desses eu assistia um documentário gravado há alguns anos na TV Escola sobre uma instituição mantida pela Fundação Steve Jobs nos Estados Unidos que tem práticas inovadoras na educação, dentre elas, o uso de tablets por docentes e estudantes. A escola tem parcerias com o MIT (Massachussetts Institute of Technology) no Vale do Silício, um dos maiores conglomerados de empresas de tecnologia no mundo e também com a própria Apple, sem depreciação do estudo de ciências Humanas. Qual não foi a minha surpresa ao ver Parente dando uma declaração defendendo o método completamente inovador em que as crianças escolhem as atividades que fazem e, por mais que seguissem um currículo, tinham a liberdade de fazê-lo no seu tempo, aprender por diferentes meios e serem avaliadas de várias formas?

Justiça seja feita, Parente teve uma briga com Clemente, secretário da Fazenda do DF, para implementar nas escolas do DF justamente um projeto que distribuía tablets nas escolas e fazia a formação com os(as) docentes para trabalharem o currículo em sala. Porém, joga muito mais peso na ampliação do modelo de escolas militarizadas – que nunca serão escolas militares – do que em projetos que deram certo em sua gestão como Subsecretário de Educação no Rio de Janeiro ou que são parte de suas rodas de debate com o Agora! Vejam bem: não falo de mamadeira de piroca ou kit gay, falo do Movimento Agora!, das ideias liberais de Luciano Huck que seriam muito menos perniciosas à educação pública do DF do que a política do big stick para a periferia.

E onde foi parar esse Rafael Parente? Por que o cara que fez doutorado e domina o debate de TICs (Tecnologias da Informação e Comunicação) e aparece num documentário internacional comentando o tema de repente vira um braço do Escola Sem Partido? Por que alguém que sempre defendeu a autonomia dos estudantes aparece em fotos sorrindo ao lado de policiais dizendo que estudantes negras devem prender o cabelo porque isso é parte da disciplina? Onde está a crítica de Parente ao permitir que um grafite de Mandela feito por um membro da comunidade da Estrutural possa ser remanejado sem debate algum com a comunidade simplesmente porque a PM quer? Onde estão as publicações das redes sociais de Parente que batiam nas posturas conservadoras que insistiam em opinar em educação? Essa nunca foi a trajetória de Parente, mas parece que ele quer dar um novo desenho ao seu perfil a partir de agora. Enfim, existe um Rafael Tenente habitando Rafael Parente e o resgate deste último é fundamental para que a educação pública do DF não seja ainda mais prejudicada.

Sobre ayanrafael

Pedagogo, Assistente Social e Mestre em Educação pela Universidade de Brasília. Trabalhou como técnico-administrativo na Universidade de Brasília, como Professor de Atividades da SEEDF (Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal) e atualmente é Especialista Socioeducativo - Pedagogo na Secretaria de Estado de Justiça e Cidadania do Distrito Federal, no Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente (CDCA/DF).
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