Ditadura nunca mais!

 

Meu primeiro e último voto no PT foi em 2002. De lá para cá, anulei todos os votos em 2006, época de minha fase anarquista ao militar no MPL (Movimento Passe Livre) e, a partir de 2010, passei a votar no PSOL, filiando-me em 2013. A disputa do PT contra José Serra em 2002, Geraldo Alckmin em 2006, Serra novamente em 2010 e Aécio Neves em 2014 tinha um aspecto que permitia o voto nulo: a democracia não estava em risco. Sabíamos que o PSDB no governo seria muito ruim, com uma onda de privatizações e o rebaixamento da soberania nacional ao capital rentista. Contudo, ainda havia correlação de forças no Congresso Nacional e a possibilidade de um debate mínimo de pautas identitárias como movimento de mulheres, negros e LGBT.

Os governos petistas pecaram por se tornarem uma máquina eleitoral sem escrúpulos, colocando o voto a todo custo acima de qualquer princípio de um partido com uma militância de esquerda e com parlamentares e o próprio Lula fazendo um governo de centro e, não raro, liberal na esfera econômica, chamando o Meireles pra presidência do Banco Central – o que foi inclusive utilizado como um dos eixos de marketing eleitoral do banqueiro nessas eleições. O aceno aos fisiologistas do centrão foi um dos maiores erros do PT: a entrega de cargos para os falsos pastores mercadores da fé, milicianos patrocinados pela indústria armamentista e lobistas dos agrotóxicos e da soja! Era questão de tempo para que um deputado conseguisse reorganizar esse grupo de pressão, capitalizando essa massa de corruptos em torno de pautas-bomba aprovadas com o aval do PSDB e a liderança de Eduardo Cunha do (P)MDB, outro ex-aliado.

Os tucanos, aliás, reduziram sua bancada à metade e agonizam vendo seu antigo eleitorado dormindo com o inimigo PSL que em 2014 só elegeu um deputado federal e agora subiu para 53 deputados e um senador. As mídias corporativas como Globo, Veja e Folha de São Paulo foram pelo mesmo caminho, colocando a Lava Jato como centro do debate político por não poder dizer que a corrupção é peça fundamental na engrenagem do sistema capitalista. Pergunta: valeu a pena criticar o PT pelos seus acertos e não pelos seus erros? A vitória de Bolsonaro iniciará o combate não somente a militância de esquerda, mas aos grandes veículos de comunicação, que terão seu espaço privilegiado de fomentadores de terra arrasada esvaziado pelo controle da Polícia Federal para não atuar contra a corrupção. Receita antiga da ditadura, esse aspecto tem outro ponto que seria cômico se não fosse trágico: Bolsonaro sonha em controlar a mídia, como já deu a entender em algumas propostas.

Passado o período do golpe, o PT terá que saber lidar com uma ampla frente democrática contra a tomada do poder por um fascista. Para isso, Haddad tem que assumir protagonismo, uma vez que independente da avaliação que tenhamos sobre Dilma, o que o brasileiro pensa é que não dá pra confiar novamente na indicação de Lula, por mais agradecido que o povo seja ao ex-presidente. O PT deve fazer, urgentemente, a autocrítica sobre seus erros. A cobrança não é só de Marina ou Ciro, como foi na campanha do 1º turno, mas do povo brasileiro. Quem duvidar, observe as urnas. Cada visita que Haddad fizer à Lula vai parecer que não tem autonomia e que é mais dependente do ex-presidente do que Bolsonaro do Posto Ipiranga Paulo Guedes. A militância petista não pode enxergar o movimento dessa frente democrática como uma massa de filiados, de pessoas que gostam do PT, mas sim um último suspiro na tentativa de evitar que um intolerante que persegue minorias e quer entregar o país chegue ao cargo mais alto da República.

Feita a autocrítica, a campanha de Haddad começará a crescer não somente em números, mas em qualidade. Bolsonaro, por sua conhecida preguiça intelectual e desinteresse pelos estudos, não tem a mínima condição de debater com Haddad, um doutor respeitado na comunidade científica por pesquisadores das mais diferentes colorações partidárias. Resta à Bolsonaro continuar jogando com a desinformação de memes do MBL e milhares de sites com fake news ainda não derrubados,com manchetes sensacionalistas que seus eleitores adoram compartilhar sem sequer ler o conteúdo. Não adianta discutir as inúmeras investidas de Bolsonaro contra as mulheres, negros, gays, pois os eleitores dele não se importam com isso – inclusive compactuam com a visão preconceituosa do capitão. O que vai virar voto a partir de agora é debater o plano de governo (ou seria Carta de Intenções) de Bolsonaro, mostrando os cortes de direitos trabalhistas, aumento da CPMF, perseguição à mídia (institucional e independente) e prejuízos ao trabalhador em geral com sua carteira de trabalho verde e amarela. É hora de mostrar como Bolsonaro sempre votou contra o povo em seus 28 anos de mordomia na Câmara dos Deputados. O Nordeste já deu a dica e no Ceará, que tem 77 das 100 melhores escolas públicas do país, Bolsonaro ficou em 3º lugar, perdendo para Ciro e Haddad.

Não há vácuo na política e o voto nulo ou a desistência de votar não vai deixar o fascista de fora. É preciso se posicionar. Haddad e PT devem ficar pequenos diante da nova configuração de massas que irá tomar as ruas, do ponto de vista de querer capitalizar dividendos militantes com isso. De “Haddad é Lula”, o lema deve ser “Democracia é #EleNão”, obtendo votos para Haddad ou virando votos de Bolsonaro para voto nulo ou branco. Dia 1º de janeiro, certamente o PSOL estará na luta que sempre esteve, com uma bancada ainda maior, fazendo o contraponto das medidas de Haddad e votando contra aos projetos que atacam o trabalhador.

Quando os militares chegaram ao poder em 1964, vários elementos contribuíram para isso: um inimigo criado pela mídia; a promessa de empregos e retomada do crescimento econômico; a pecha de corrupção como patente da esquerda; marcha de famílias organizadas por religiosos estelionatários; a simulação de um ambiente de guerra nas ruas, inclusive com o uso de tanques, apontando para uma ameaça comunista de tomada de poder. Se parte desse cenário é culpa de PT e PSDB – que dividiram o poder e os votos em 1º e 2º turno no último quarto de século -, bem como da mídia ávida por mais verba publicitária e desonerações fiscais, que não aumentemos essa bomba atômica jogada no próprio território elegendo Bolsonaro presidente. A solução de nossos problemas passa pela democracia, sempre.

Não fico feliz com meu voto no 2º turno pra presidente, mas ficarei mais triste com a vitória do PSL e a impossibilidade de continuar a votar futuramente. Não é justo que o Nordeste tenha que salvar o país sempre, como

Agora é Haddad, 13, nas redes sociais e nas ruas, porque a pior das democracias vale muito mais do que a menos pior das ditaduras.

Não ao fascismo! Marielle presente! #EleNão

Prof. Rafael Ayan

Sobre ayanrafael

Pedagogo, Assistente Social e Mestre em Educação pela Universidade de Brasília. Trabalhou como técnico-administrativo na Universidade de Brasília, como Professor de Atividades da SEEDF (Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal) e atualmente é Especialista Socioeducativo - Pedagogo na Secretaria de Estado de Justiça e Cidadania do Distrito Federal, no Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente (CDCA/DF).
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