Como morreu Marielle Franco

Artigo de opinião originalmente publicado em Conversa Informal, jornal comunitário do Setor Habitacional Vicente Pires, Região Administrativa XXX do Distrito Federal. Ano 21, n. 05/2024, p. 7. disponível em: <https://jornalconversainformal.blogspot.com/2024/05/jornal-conversa-informal-de-maio-de-2024.html>. Acesso em: 20/05/2024.

A formação das favelas (comunidades) no Rio de Janeiro começou no final do século XIX, com o Morro da Providência. O processo de gentrificação foi parecido ao de muitas cidades grandes: higienização do centro e envio da população de baixa renda para periferias que, no caso da topografia do Rio, tem uma grande quantidade de morros. A Revolta da Vacina em 1904 está inscrita nesse contexto.

Contemporâneo desse processo é o jogo do bicho, inventado pelo Barão de Drummond, dono do Jardim Zoológico criado em 1888 e que tinha apoio de D. Pedro II. Para azar do barão, em 1889 os militares dão um golpe no império e fundam a República Federativa do Brasil. Assim, o jogo que antes era quase que monopólio da classe média ganha os cortiços e sai totalmente do controle de Drummond.

Em seguida vieram os tempos áureos (ou cafeinados) da República do Café com Leite até a queda da bolsa de Nova York em 1929. Daí veio Vargas, o populismo, a “criação” da Favela da Maré e a mudança da capital para Brasília em 1960. Adiante o governo militar (1964-1985), quando mais cresceu o número de comunidades no RJ. Na época o álcool era comum nos barracos, mas a chegada da maconha e cocaína criaram uma economia informal e o início da disputa por poder regional. Nesta disputa também entraram os bicheiros, apadrinhando escolas de samba e fazendo as vezes do Estado com contratação de médicos e distribuindo brinquedos.

Com a redemocratização, a estabilidade da moeda obtida com o Plano Real permitiu maior consumo e o discurso de “proteja seus bens” é ampliado. É aí que se fortalecem as milícias, formadas em grande parte por militares, ex-militares e, posteriormente, bicheiros e até traficantes de menor envergadura. Prometiam acabar com o tráfico de drogas por valores módicos. Pura ilusão! Com o tempo, a milícia passa a traficar, mas não só: comanda o “gatonet”, lan houses, agiotagem, vans, botijão de gás, kit churrasco e até escolas de samba. A disputa entre bicheiros e milicianos começa a ficar mais perceptível e para fazer frente a esse poderio o tráfico de drogas se organiza em facções, como o Comando Vermelho, Amigos dos Amigos e Terceiro Comando. Pensando como máfia, não viviam em pé de guerra para não atrapalhar os negócios.

Largada à própria sorte, resta a fé. Assim, um grupo enxergou nas comunidades a oportunidade de ganhar dinheiro e poder: são os vendilhões do templo! Lobos em pele de cordeiro, apresentam-se como pastores e possuem canal de televisão e partido com representação no Congresso Nacional. Enganaram até o tráfico, firmando pacto de que a única saída em vida do mundo do crime é entrando para a igreja. Claro que não é toda igreja evangélica, menos ainda as pequenas, com cadeiras de plástico. Falo do submundo do mercado da fé que, assim como bicheiros, traficantes e milicianos, orientam eleição e interferem na política. No final das contas, é tudo por dinheiro.

Assim chegamos ao dia da morte de Marielle e Anderson. Os mandantes e o motivo da ação criminosa revelam o completo desmonte do Estado no Rio de Janeiro. Qualquer residente na capital fluminense sabe que os irmãos Brazão são milicianos, embora não possam provar. O mesmo ocorria com Castor de Andrade, que dizia ser apenas um advogado e cartola do Bangu, e de outros bicheiros que apadrinham escolas de samba. O que dizer do assessor de Domingos Brazão que recebeu dinheiro de corrupção na igreja do Malafaia que, por sua vez, jamais criticou as milícias? Adriano da Nóbrega, chefe do Escritório do Crime, era bicheiro, miliciano, traficante e temente à Deus, quase um papa… Papa-níquel! Dos que não negam a profissão, somente o traficante raiz, e olhe lá.

Os irmãos Brazão, Rivaldo Barbosa, Ronie Lessa, são apenas nomes do momento, representantes do modus operandi de Estado paralelo ou substituto que há muito comanda o Rio de Janeiro. O jogo do bicho não acabou após a morte de Maninho. O tráfico de drogas não acabou após a morte de DG. A milícia não acabou após a morte de Adriano da Nóbrega. O mercado da fé não acabou após a morte do pastor Anderson do Carmo, marido e ex-filho da pastora Flordelis. Sim, você leu certo: marido e ex-filho!

Sabemos os mandantes, assassinos e razões da morte de Marielle. Por coincidência, todos bolsonaristas. Porém, o que deve ficar claro é que atacar uma vereadora negra, lésbica, defensora dos direitos humanos e que peitou a grilagem de terras da milícia no RJ é um projeto que sempre existiu no período republicano: o Estado mínimo para os pobres. Elegem até presidentes. Os atores mudam por uma questão natural: mais cedo ou mais tarde a morte chega. Para Marielle a morte chegou cedo, a resolução do crime chegou atrasada e a solução para o fim do crime organizado sequer chegou.

Para saber mais:

Tropa de Elite 1. Netflix, Globoplay e Prime.

Tropa de Elite 2: o inimigo agora é outro. Globoplay e Prime.

Vale o Escrito: a guerra do jogo do bicho. Globoplay.

Doutor Castor: Globoplay

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About ayanrafael

Pedagogo, Assistente Social e Mestre em Educação pela Universidade de Brasília. Trabalhou como técnico-administrativo na Universidade de Brasília, como Professor de Atividades da SEEDF (Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal) e atualmente é Especialista Socioeducativo - Pedagogo na Secretaria de Estado de Justiça e Cidadania do Distrito Federal, lotado no Centro Integrado 18 de Maio.
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