
O vídeo de Felca sobre adultização acendeu um debate necessário na sociedade brasileira. Com 50 milhões de visualizações em apenas três semanas, furou a bolha da futilidade que reina na internet e apresentou uma pauta importante: a proteção de crianças e adolescentes.
A gravação começa com um aviso de gatilho informando que abordará temas sensíveis como abuso sexual infantil. Adiante, aponta a monetização como causa da exploração infanti-juvenil na web. Aqui Felca está parcialmente certo. Parcialmente porque há pouco tempo não existia a monetização e já havia exploração de crianças, inclusive em vídeos, alguns nas mesmas plataformas de agora como Youtube. Com a proliferação de reality shows em canais abertos e streamings, faltava um canal para abusadores assumidos ou em potencial. Vendo a possibilidade de lucrar com isso, criminosos como Hytalo Santos se aproveitaram. Se o único Deus que a sociedade capitalista reconhece é o mercado, a desproteção da infância se tornou mais um produto a ser comprado, como pão ou água. Se antes as gravações eram quase sempre fotos de crianças sendo abusadas sexualmente, os influencers deram uma roupagem equivocada de diversão, modernidade e protagonismo juvenil. Para isso, nada melhor do que driblar o Sistema de Garantia de Direitos enchendo o bolso de quem deveria ser protetor: os responsáveis legais.
Felca cita o exemplo de Kamyllinha, adolescente que dos 12 aos 17 anos trabalha – o termo é esse mesmo – para Hytalo Santos e não conhece o que é privacidade. Pior: não conhece o que é ser adolescente, pois se o vídeo de Felca não existisse é provável que Kamyllinha continuaria as ser um objeto que Hytalo usa quando quer, como o iphone que a filma. A cada exposição de Kamyllinha, mais adolescentes comentavam, mas também adultos. Quanto menos roupa e mais sexualização, com vídeos de Kamyllinha dormindo seminua com o “namorado”, filho de uma pastora que o transformou em dízimo e recebeu uma igreja de Hytalo, maior o número de likes e mais o algoritmo do Instagram retroalimentava a rede de abusadores. A “benção” foi tamanha que fez a pastora tatuar o nome de Hytalo. Outro exemplo citado é o da adolescente Caroliny Dreher, que fazia vídeos dançando nua e que são vendidos, pasmem, pela própria mãe!
Daí a responsabilidade das big techs, que bloqueiam perfis quando xingam um parlamentar e se dizem de mãos amarradas diante das contas de criminosos que há anos exploram sexualmente a imagem de crianças e adolescentes. Nesse ponto Felca acerta em cheio: a monetização fala mais caro e Mark Zuckerberg não quer saber de infância protegida e sim de moldar comportamentos para comprar o que seus anunciantes querem, sustentando sua condição de bilionário. Por esta razão a Meta confunde a população chamando regulamentação de censura.
O influenciador erra ao colocar pedofilia como sinônimo de abuso sexual infantil. Essa distinção não é academicista, mas crucial para entender que, dos abusadores, a menor parte é de pedófilos, alguém com transtorno psiquiátrico. Pedófilo sente atração pelo pré-púbere, ou seja, quem ainda não entrou na puberdade, período que vai do final da 3ª infância ao início da adolescência, podendo se estender um pouco mais no sexo masculino. Outro dado importante: 8 em cada 10 abusos é intrafamiliar e ocorre dentro de casa ou em locais de convivência da criança. Esclarecer é necessário para que responsáveis não pensem que temos que proteger as crianças para que não andem perto de locais isolados porque podem ser alvo de pedófilos. Isto torna o abuso ainda mais assustador por ser cometido por quem deveria, em tese, proteger a criança. Taxar todo abusador de pedófilo é desprotetivo e não ajuda a prevenir novos casos por afastar a presença do “predador”, termo usado por Felca.
Também não se deve utilizar a expressão pornografia infantil. Embora configure crime de estupro de vulnerável o adulto que se relaciona com alguém com menos de 14 anos, inexiste consenso na venda de imagens sexualizadas de adolescentes de 14 a 18 anos incompletos, a chamada exploração sexual e comercial, uma violência sexual tal qual o abuso. Pornografia pertence necessariamente ao mundo adulto e mesmo nesse grupo pode causar problemas como depressão, vício e reforço de estereótipos de violência de gênero. Dada as críticas necessárias, Felca fez um excelente trabalho porque utilizou o espaço virtual que tem para chegar a milhões de brasileiros, o que é difícil de ser conseguido pelo Estado ou organizações da sociedade civil como a SaferNet, referência no tema. Os traumas de um adulto abusado sexualmente podem seguir para toda a vida e isso é majorado quando ocorre com crianças e adolescentes, que ainda não tem o lobo frontal formado, responsável pelo raciocínio, humor e comportamento. É dever de todos, família, sociedade e Estado, assegurar que as crianças e adolescentes, pessoas em formação, tenham um crescimento saudável. Falta somente ajustarmos os dispositivos legais para completar essa equação e a aprovação do PL 2628/2022 pelo Congresso Nacional após viralização do vídeo de Felca vai ao encontro desse objetivo. Para avançar ainda mais, as Big Techs precisam ter responsabilidade social. Lutemos por isso.
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