Artigo de opinião originalmente publicado em Conversa Informal, jornal comunitário do Setor Habitacional Vicente Pires, Região Administrativa XXX do Distrito Federal. Ano 21, n. 07/2024, p. 7. disponível em: <https://encurtador.com.br/lxocp>. Acesso em: 03/08/2024.
A Wikipedia define que o “segundo é a duração de 9.192.631.770 períodos da radiação correspondente à transição entre os dois níveis hiperfinos do estado fundamental do átomo de césio 133”. Ele, o segundo, é a unidade de medida padrão para o tempo segundo o Sistema Internacional de Medidas. Mas o tempo não é só uma grandeza física, nem mesmo para a metafísica.
Um segundo em uma olimpíada pode significar ganhar o segundo lugar ou, como preferem os mais competitivos, perder o primeiro lugar, contanto que Usain Bolt não esteja na competição. Melhorar um segundo no tempo em uma prova de natação é trabalho de meses de dedicação. Todos nós temos muitos segundos, mas o que fazemos com o nosso tempo? Somos donos do nosso tempo? Se o tempo não é nosso, de quem pode ser e o que fazem com ele?
Não é preciso entender o comportamento do césio 133 e nem assistir qualquer aula de física para termos ideia do que é o tempo. Mesmo uma criança sem memória episódica, que não sabe usar os verbos corretos para definir passado, presente e futuro, aprende naturalmente e ressignifica a ideia de tempo a partir de sua prática no cotidiano. Cada criança tem seu tempo!
A charge de Armandinho que ilustra esse texto mostra o desenho do protagonista falando com o pai. Porém, o pai acha que é a previsão do tempo e Armandinho revela querer mais tempo com o familiar. Logo, o mundo adulto e de importâncias maiores que a súplica de um filho por atenção parecem ser a tônica da charge. Tempo de perguntas e respostas. Tempo.
A ausência de um familiar falecido nos faz querer ter menos tempo. Já a convivência com os filhos nos faz querer ter todo o tempo do mundo para protegê-los e criá-los da melhor forma. Tem o tempo de semear e o tempo de colher, dizem os mais senis. Ferva por mais tempo, dê tempo ao tempo, dê um tempo, segundo tempo, é tempo de aprender. Lembro do tempo em que o artista e humorista Paulo Gustavo era vivo e eu “perdia” tempo vendo esquetes e torcendo para que “Minha mãe é uma peça” não fosse uma trilogia, mas tivesse dez filmes. Bons tempos, assim, no plural.
O tempo de vida da tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea) é de 300 anos. Maior que o tempo de vida do homem, que por sua vez vive mais que o cachorro, que vive mais que a formiga. Ao falar isso logo nos imaginamos vivendo 300 anos, mas para quê? 300 anos tentando emagrecer e pagar boleto? Queremos mais tempo porque o egoísmo é natural do ser humano. Não é à toa que bilionários investem rios de dinheiro para viverem mais tempo: nunca carregaram um saco de cimento nas costas ou respiraram o ar poluído de uma lavora carregado de agrotóxico. Viver, para um bilionário, só faz sentido se for “curtindo a vida adoidado”, como fez o Ferris em filme homônimo da década de 1980. Para quem é pobre, o tempo que lhes resta é o de sobreviver.
Qual o seu passatempo favorito? Tem gente que gosta de ler, praticar esportes, ver séries e até trabalhar como é o caso dos workaholics. O meu é cheirar o cabelo da minha filha. Posso passar horas nessa “viagem” cheirando aqueles cachos que quase me fazem esquecer o quanto sou cético, acreditando que estou diante de um anjo.
Como será que um presidiário define tempo? E a família que espera o pescador voltar do mar? E um paciente em cuidados paliativos? E o padre para terminar a missa de domingo? Todos queremos mais tempo de vida porque não sabemos como será o tempo de morte, o outro lado, se é só húmus ou se existe uma eternidade no céu ou no inferno. Eu queria todo o tempo do mundo para fazer as coisas que gosto, mas não tenho nem todo o tempo do meu bairro. O dia tem 24 horas para todo mundo, mas algumas pessoas conseguem “esticar o tempo”.
E você? Quanto tempo você tem?

