
Engana-se quem pensa que o show de Madonna no Rio de Janeiro no dia 04/05/2024 foi um evento da esquerda. Quem dera tivéssemos em Copacabana um milhão e meio de socialistas, ou de sociais liberais como Pedro Doria que seja, para iniciar uma segunda Revolta da Chibata. Porém, havia um milhão e meio de pessoas no show e isso nem o bolsonarismo nega. O que aconteceu então? Aconteceu que Madonna é atemporal: atravessa gerações, inspira o feminismo e consegue abrir o cadeado até mesmo daqueles armários mergulhados nos mais profundos dos oceanos da extrema-direita.
É o caso de Jorge Seif (lê-se Saife), assim pronunciado nos microfones do senado federal. Foi ao show e depois pediu desculpas, dizendo que não sabia o que iria ocorrer no show de Madonna, veja só, uma sexagenária. Se você é bolsonarista, explico: sexagenário não tem nada a ver com sexo e sim com quem tem entre 60 e 69 anos de idade. Pois é, Jorge Seif, que era conhecido por uns como Seifadinho, agora recebeu a alcunha de Seifadão. Não é preciso ter visão de raio-x para saber que quando subiu ao púlpito do senado para pedir desculpas por ter requebrado ao som de Holiday – a música, não o capitão do mato de São Paulo – o ex-ministro da pesca de Bolsonaro deixou aparecer a calcinha vermelha que vestia com os dizeres “Madonna no Rio: eu fui.”. Se joga Seif! Você não é o único Jorginho de Santa Catarina. Nem o Guinle, ex-proprietário do Copacabana Palace.
Mas a festa foi grande a não parou aí! Muita gente do círculo bolsonarista compareceu ao show.
Aécio Neves dançou até ficar só o pó. Antonio Rueda, presidente do União Brasil, esqueceu os conservadores do partido e abriu a rueda, digo, a divergência: “está muito frio aqui, não sei se fico até o final”, afirmou. Mas aguentou o “frio”. Quem disse que não ficou até o final foi Renato Araújo, do PL (Partido Libera Geral, quer dizer, Partido Liberal). O político disse que compareceu ao local, mas que saiu antes da apresentação começar, ou seja, não ficou até o início. Quem nunca não é mesmo? E logo num show como o da Madonna, que não entrava nem moto dos bombeiros e tampouco tinha espaço para aterrisagem de helicóptero. Provavelmente Renato mergulhou no mar e saiu nadando até Angra dos Reis, seu domicílio eleitoral e onde será candidato a prefeito esse ano com o apoio de Bolsonaro.
Falando no genocida, Agustin Fernandez, maquiador da santa do pau oco que adora cheque de miliciano, também esteve presente. Fabio Wajngarten, advogado e ex-ministro do ladrão de joias, foi e tirou foto com Cláudio Castro, governador do RJ pelo PL e cantor gospel nas horas vagas. A participação do núcleo duro do bolsonarismo só não foi maior porque no dia anterior Bolsonaro disse que ia passear na Embaixada da Hungria e trancou Carluxo e Renanzinho, o Zero de Quatro, no canil. Coisa de pai que não desiste nunca, nem mesmo depois de várias surras quando o filho parece meio gayzinho.
O show foi tão bom que mesmo quem não foi quis surfar na popularidade da diva. Leonardo, mais conhecido por suas fotos em orgias que rondam a web do que pelo colar com crucifixo de ouro que leva a contento, disse que a exibição de Madonna foi uma suruba com práticas de satanismo. Logo ele que com o boneco inflável Eduardo Costa tem um show chamado Cabaré deve ter muita moral para falar de sexo e mais ainda sobre a sagrada família, já que tem dois filhos fora do casamento de 1995 com Poliana Rocha.
Se não deu para perceber – ou se você prefere perceber sem dar –, numa simples passagem pelo Rio de janeiro a rainha do pop fez muita gente se revelar. O Itaú já não registra pichações desde o início de maio e os black blocks disseram que não vão apedrejar as agências bancárias por um ano até sair o nome do artista do próximo evento. Os enrustidos Malafaietes ainda tentaram associar a tragédia do Rio Grande do Sul ao show, mas o que choveu mesmo foi alegria, dança e muito amor num país marcado por uma polarização construída e incentivada pela extrema-direita. E para quem continua a criticar o show, segue o conselho de Fernando Haddad na Câmara dos Deputados no dia 22/05/2024 ao deputado Abílio Brunini (PL-MT): “isso não é problema seu, não vá ao show da Madonna, quem gosta vai”.
Ah, sim, Anitta e a Pablo Vittar também foram ao show. E ficaram até o final. Assim como mais de um milhão de pessoas.
Segue o baile.
